Três décadas depois, álbum ‘Xuxa 10 Anos’ permanece raro, pouco estudado e cercado por mistérios


Pertencente à chamada “fase Xuxa Park” (a partir de 1995), “Xuxa 10 Anos” está entre os álbuns mais difíceis de encontrar em vinil. Uma cópia pode chegar a cerca de R$ 300. “Xuxa 10 Anos” permanece, até hoje, um caso único na carreira da apresentadora: ela nunca mais produziu um álbum com esse formato. O álbum nasceu como uma iniciativa maior. Em fevereiro de 1996, o projeto previa originalmente um disco duplo — com remixes e músicas inéditas —, mas por razões nunca esclarecidas o segundo disco foi cancelado

*por Vítor Antunes (colaborou Angelo Morais)

Lançado em tiragem limitada de 500 mil cópias para celebrar a década de Xuxa na Globo, o álbum “Xuxa 10 Anos” (1996) completa 30 anos em 2026 — e permanece um dos capítulos menos documentados da discografia da apresentadora. Os fãs têm poucas informações, os jornais da época não se aprofundaram nele, e o projeto guarda curiosidades que poucos conhecem. “Xuxa 10 Anos” permanece, até hoje, um caso único na carreira da apresentadora: ela nunca mais produziu um álbum com esse formato. Pertencente à chamada “fase Xuxa Park” (a partir de 1995), “Xuxa 10 Anos” está entre os álbuns mais difíceis de encontrar em vinil. Uma cópia pode chegar a cerca de R$ 300.

O álbum nasceu como uma iniciativa maior. Em fevereiro de 1996, o projeto previa originalmente um disco duplo — com remixes e músicas inéditas —, mas por razões nunca esclarecidas o segundo disco foi cancelado. Encomendaram-se composições que falassem da relação de Xuxa com o público ao longo de 10 anos, e em pouco tempo a apresentadora gravou três faixas inéditas: “Valeu”, “Dez Anos” e “Vamos Comemorar”. O restante do álbum reúne remixes assinados por alguns dos DJs mais renomados do Brasil na época — Memê, Mello e Cuca —, além de músicas em versões originais. Quando a própria Xuxa divulgou o projeto no programa “Xuxa Hits”, anunciou que o álbum seria “totalmente remixado”; no final, apenas seis faixas ganharam esse tratamento.

Em entrevista ao site, Michael Sullivan relembra sobre como surgiu o projeto do álbum. “A ideia do disco foi da Xuxa. Ela e Marlene Mattos falaram comigo, e eu achei uma leitura perfeita para aquele momento. Essa sempre foi nossa visão: incluir as novas sonoridades que iam surgindo nos trabalhos dela. Então comecei a pesquisar os melhores DJs do momento para fazermos esse disco remix”, conta Sullivan, explicando como surgiu o convite a Mello, Memê e Cuca.

“Xou da Xuxa” dos Anos 1980 (Foto: Reprodução/Memória Globo)

Ele prossegue: “Entrei na produção na direção artística e procurei o Memê, porque já o conhecia do álbum “Eu e Memê, Memê e Eu”, com Lulu Santos — um disco antológico. Tive também a ideia de chamar o DJ Cuca, que naquela época estava em plena ascensão, fazendo um trabalho extraordinário. A proposta era exatamente essa: colocar o repertório da Xuxa dentro do que havia de mais atual. Juntos, escolhemos as faixas que eles iriam trabalhar.”

Sullivan acompanhou de perto cada etapa da produção. “Fui pessoalmente aos estúdios do Memê e do Cuca para unirmos o universo do dance ao universo da Xuxa, sem perder a sonoridade que eu já havia construído para ela. Cuidei muito das harmonias para que não houvesse perda de identidade, mas sim uma valorização — porque é na harmonia que vive a paixão da melodia. Tanto o Memê quanto o Cuca somaram muito, com ótimas ideias, timbres modernos e levadas contemporâneas. Encontrei neles a excelência que eu buscava: arranjos com muita personalidade, que ficaram marcados até hoje como referência no universo infantil.”

Sobre a decisão de incluir poucas faixas inéditas no álbum, Sullivan é direto. “Não havia intenção de ir além. Foram músicas que surgiram naturalmente — a gente sempre compunha muito para ela, mas nessa época já havíamos encerrado a parceria com o Massadas, e eu estava trabalhando com outros compositores. Essas músicas apareceram, ela gostou e quis gravar. Ficamos nessas inéditas. O restante do disco dividimos entre os remixes e os clássicos em suas versões originais”.

Essa foi a ideia do álbum: dançante, atual, mas fiel ao que a Xuxa representa – Michael Sullivan

A arte do LP e do CD são extremamente fiéis entre si — algo incomum, já que capas de LP costumam trazer mais informações do que as de CD. O álbum estava cotado para ser o último lançado em LP, mas esse marco acabou direcionado a “Tô de Bem com a Vida”, do mesmo ano.

Por questão de espaço, as versões remixadas do vinil são “radio edits” — editadas —, mas existem as versões completas. Um caso à parte é o pot-pourri gravado com o Olodum e a Timbalada, que reuniu “Ilariê” e “Tindolelê” em arranjo remixado sem perder a estrutura original. Por motivos desconhecidos, a faixa ficou fora do CD, mas foi utilizada no especial televisivo e nas turnês “Sexto Sentido” e “Tô de Bem com a Vida”. Em 2005, um erro de prensagem gerou uma segunda versão do álbum com capa azul — resultado provável da ausência da cor especial (prata) usada na tiragem original. O conteúdo dos dois discos é idêntico; só a aparência da capa muda.

Variação da capa do álbum “Xuxa 10 anos” (Foto: Angelo Morais)

Curiosamente, segundo levantamento de fãs, o comercial do disco exibido na TV tem mais frames do “El Show de Xuxa” — exibido na América Latina — do que dos programas brasileiros da época, como “Xuxa Park “e “Xou da Xuxa”. No rastro das comemorações dos 10 anos, a Editora Abril também lançou uma coletânea própria — fora da discografia oficial — com 10 músicas da apresentadora, incluindo faixas da fase Xou (entre 1986 e 1992) e dos álbuns “Luz no Meu Caminho” e “Sexto Sentido” (1994 e 1995, respectivamente).