Música & Badalo

Tradição histórica: Velha Guarda da Portela grava seu primeiro DVD com Maria Rita, Paulinho da Viola, Cristina Buarque e Teresa Cristina. Saiba como foi!

Acompanhamos de perto e dos bastidores o registro realizado na quadra da escola, em Madureira, com artistas

Publicado em 23/07/2015 | Por João Ker

É impossível estimar o valor da Velha Guarda da Portela para o crescimento e valorização não só do samba, mas da música brasileira de uma maneira geral. Uma carreira que carrega consigo mais de 90 anos de história, outros mais de 20 títulos como campeã do Carnaval carioca e inúmeros compositores que são verdadeiros tesouros da cultura nacional. Portanto, não é apenas importante para o próprio Grêmio Recreativo, mas para a tradição do Rio de Janeiro, que a escola tenha gravado seu primeiro DVD  na noite desta quarta-feira (22). HT esteve por lá e conta todos os detalhes, a emoção e as homenagens que rolaram pelo evento.

O registro é dirigido por Vítor Brasil, com direção musical de Mauro Diniz (filho do mestre Monarco) e idealização de Renata Carvalho. Ela conta como é a responsabilidade de tocar um projeto desse porte e importância para tantas pessoas, e como e por quê ele só foi acontecer agora: “O Seu Monarco já teve muitas propostas e foram feitos muitos trabalhos brilhantes, mas não algo da Velha Guarda como um todo, porque isso já mexe com a instituição Portela e uma série de fatores. Eu trabalho há 10 anos com Carnaval e, quando soube disso, passei a conversar sobre gravarmos um DVD. Isso já faz cerca de dois anos e, olha, não foi fácil… Na sua simplicidade, o Seu Monarco é muito exigente e queria ter a certeza de que alguém estava fazendo isso a quatro mãos, com amor e sem pressa. Para mim, esse é o projeto da minha vida”, explica.

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O DVD foi batizado “Minha Vontade” por Mauro e, com uma quadra cheia como a que presenciou a gravação, o registro não parece menos do que a vontade real de toda a comunidade apaixonada por samba: ver a história da Portela ser registrada em algo que permaneça para a posteridade. Rapidamente, o próprio Monarco comenta que o projeto não chegou antes porque foi preciso “a proposta certa; algo que fosse bonito e honesto”. Dentre o repertório de clássicos, uma surpresa: a estreia da até então inédita “Lindo”, uma composição do mestre em parceria com Neco da Portela.

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Para que o projeto mostrasse pelo menos um pouco da dimensão de influência da Velha Guarda da Portela, não poderiam faltar participações especiais, como a de Cristina Buarque, que já havia gravado com o grupo de bambas e no palco interpretou “Quantas Lágrimas”. Outro nome forte e que esbanja ligações com a escola de samba é Teresa Cristina, que desde o início da sua carreira nos anos 1990 tem cantado composições de Monarco e odes à Portela.

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“Eu sempre fui Portela, desde que me entendo por gente. Sou da Vila da Penha e, lá, ou você é Portela ou você é Império. Tenho muitas memórias da escola e lembro com muito carinho quando ela desfilou em 1979 e não ganhou. Me recordo de um repórter entrevistar o carnavalesco ainda na avenida e perguntar se ele já sabia qual seria o tema do ano seguinte. A resposta veio na hora: ‘hoje vai ter marmelada!’, porque a Portela havia se sentido prejudicada. E, no próximo ano, eles voltaram com esse tema e venceram”, conta Teresa para HT, com os olhos brilhando de emoção, contando ainda que ficou mais feliz por saber, finalmente, da existência de um DVD que celebrasse tanta história, do que pelo convite (o qual topou na hora, “claro!”).

Tia Surica e RTeresa Cristina durante a gravação do primeiro DVD da Velha Guarda da Portela, "Minha Vontade" (Foto: Anderson Borde | AgNews)

Tia Surica e RTeresa Cristina durante a gravação do primeiro DVD da Velha Guarda da Portela, “Minha Vontade” (Foto: Anderson Borde | AgNews)

Ela completa frisando a importância patrimonial do registro: “Soube que ele foi incentivado pela Prefeitura do Rio e acho que isso é uma visão muito inteligente da cultura, porque essas pessoas são a nossa história viva, elas emanam música para o Brasil e para o mundo inteiro. É muito bom eles estarem gravando nessas condições: tranquilos, felizes, lindos e elegantes”, disse a cantora, que subiu ao palco para cantar “Sofrimento de quem ama”. “Hoje eu cantaria qualquer coisa, porque sou apaixonada pelo repertório deles. Mas tenho muita admiração por esse compositor [Roberto Nonato]”, declara.

Teresa Cristina se apresenta com a Velha Guarda da Portela durante a gravação do DVD "Minha Vontade" (Foto: Anderson Borde | AgNews)

Teresa Cristina se apresenta com a Velha Guarda da Portela durante a gravação do DVD “Minha Vontade” (Foto: Anderson Borde | AgNews)

Outra grande cantora do samba que se fez presente durante a gravação é Maria Rita, que já colaborou com Monarco, Paulinho da Viola e Neco da Portela em ocasiões passadas. HT encontrou-se com a  artista após o espetáculo e descobriu mais sobre como ela se sente participando desse marco histórico: “Dizem que ignorância é uma bênção e, quando você não sabe o que é, fica mais fácil de fazer. Mas eu sei e tenho consciência do que está acontecendo aqui hoje e de toda essa importância, então fico bem mais nervosa. É uma grande responsabilidade e um privilégio. Ao mesmo tempo em que dá um frio maior na barriga, dá um medinho e um prazer. Eu estou muito presente nesse momento, entendendo tudo e um pouco incrédula, mas com muita honra de vir aqui e defender essa música na frente dessas pessoas”, comentou, fazendo referência a “Coração em Desalinho”, faixa gravada pela própria para o disco “Elo”, mas que recebeu novo arranjo no evento.

Assim que subiu ao palco, Maria Rita foi saudada com uma enxurrada de aplausos, gritos e assovios, levando a quadra inteira ao delírio. Cantando, foi acompanhada por um coro animado de braços para o alto, em uma verdadeira catarse dos presentes. “Isso, para mim, tem uma importância muito grande, porque desde o início da minha carreira eu fui taxada de cantora samba de elite, que fazia ‘samba para patricinha’. Na verdade, essas declarações são ignorantes. Essa aqui é a minha realidade! Quando eu vou a uma quadra de samba fazer um show só meu e o público canta o tempo inteiro, é uma realização muito grande. Porque eu sou um ser humano, então por mais que diga que sei qual a minha meta de carreira, o meu objetivo estético e aonde quero chegar, sempre existe um bichinho dentro da minha cabeça que diz ‘será?’”, comenta a artista.

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Maria ainda comenta que nem checou a agenda quando recebeu o convite de Mauro para participar da gravação e que sua memória mais vívida com a Portela, além dos desfiles que assistia quando criança, vem através da figura de Paulinho da Viola. “Imediatamente, o que me vem à cabeça quando se fala de Portela, é ele. Me lembro muito bem de quando estava grávida do meu primeiro filho, há cerca de 12 anos, e nós fomos a uma premiação onde ele me entregou o troféu. Quando saímos do palco – eu já estava com a barriga enorme àquela altura – não havia ninguém para segurar o prêmio ou me ajudar a andar, e ele deu uma bronca em todo mundo. ‘É uma grávida! Isso é uma falta de respeito!’. É muita elegância, sabe? Então sempre tive essa impressão de que a Portela é uma escola elegante, talvez por isso”, explica.

Claro, Paulinho da Viola é uma das figuras mais imprescindíveis para que o projeto honrasse a história da Portela. Seu primeiro samba à frente da escola foi ainda em 1964, mesmo ano em que entrou para o time oficial de compositores. Já no Carnaval seguinte, a Portela ganhou o título carioca com um samba escrito por ele – “Memórias de um Sargento de Milícias” -, que mais tarde seria gravado por Martinho da Vila. Três anos se passaram e veio então o sucesso avassalador de “Foi um rio que passou em minha vida”, um de seus maiores hits até hoje e uma das gravações mais importantes da história da música brasileira. Logo, foi essa a faixa escolhida para encerrar a noite mais que especial, com um bis entoado não só por todos os artistas que passaram pelo palco, mas também pela mistura de gerações que se fazia presente e orgulhosa pela Quadra da Portela.

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“Eu e Monarco já fizemos muitas coisas juntos antes, então é uma honra estar aqui participando dessa gravação, com essa batucada. Para mim, é muito gratificante, porque toda vez que venho à Portela revejo alguns amigos e fico muito feliz com a forma como sou recebido. Principalmente pelo público jovem que frequenta aqui, as pessoas que vêm de muitos lugares longes e sempre são respeitosas. Dá uma certa massageada no peito”, comenta o bamba com HT, reiterando o valor do projeto. “A Velha Guarda não tinha um DVD. Ela já participou de vários outros projetos, registros ao vivo, documentários etc, mas não havia um trabalho exclusivo deles. É importante porque isso fica para as novas gerações, e acho que ainda ficará por muito tempo. Tomara que para sempre, contando a história da nossa querida escola”, finaliza, sem deixar de se emocionar com o rio azul que nunca deixará de passar por sua vida.

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