*por Vítor Antunes
São 25 anos de carreira. Uma trajetória que atravessa a música, a televisão, o teatro e o cinema, mas que, acima de tudo, é vivida na pele e na voz de uma mulher que aprendeu a fazer escolhas. Apresentadora, cantora, atriz – e mãe -, Tânia Mara chega a este marco celebrando com um projeto intimista: “Voz e Violão“, em um álbum que aposta na delicadeza, no aconchego e na proximidade com o público. A turnê virá acompanhada do lançamento de uma nova canção inédita, já programada para setembro. Embora tenha uma carreira profundamente ligada à música, Tânia Mara foi revelada para o grande público como apresentadora do programa “Fantasia”, no SBT. Hoje, sonha em conciliar as duas vocações: a cantora e a comunicadora.
“Sei que a televisão vive um momento muito diferente. Hoje, cada um tem sua própria ‘emissora’ no YouTube. Mas eu amo TV. Comecei nela e tenho vontade de voltar com algo que una música e entrevistas. O público gosta de conhecer mais da vida, da história, da intimidade do artista. Acho que me daria muito bem nesse formato – talvez variedades -, mas o foco maior seria entrevista e música. Vontade eu tenho, mas eu eu só só faria se fosse algo que tivesse a ver comigo, a ver com com a minha história, com a minha personalidade. Acho que com o passar dos anos a gente também vai criando uma essência que o próprio público se identifica”.

Tânia Mara na época em que apresentava o “Fantasia” (Foto: Divulgação)
Cantora de essência romântica, Tânia observa com atenção o panorama atual das canções populares em que temas como sexo, bebida e traição ganham mais espaço que a celebração do amor. “O que antes era normal hoje parece extraordinário. As pessoas estão desacreditadas do amor e escutam mais falar de traição, de sair para beber, para zoar. Mas acredito que uma música pode tocar o público justamente por relembrar algo que todos têm saudade: viver um amor de verdade, feito para durar. A música romântica é eterna. Basta ver: se você escolher as dez músicas que mais marcaram a história da música popular brasileira, todas falam de amor. Essa nova geração recorre muito a regravações. Já as canções da moda, efêmeras, dificilmente permanecem”.
Essas são músicas que, culturalmente, eu fico triste, bem triste, e fazem lastimar pelo que juventude tem acesso – Tânia Mara
Há quase dois anos solteira, Tânia Mara encara sua vida afetiva com serenidade e naturalidade. “Tudo na minha vida foi vivido de verdade. Eu sempre digo que posso ter quebrado a cara em alguns momentos, em outros ter sido muito feliz… mas sempre vivi minhas verdades. Fui intensa e verdadeira em todos os sentidos: na minha profissão, nos meus relacionamentos. Eu não vivo essa cobrança. Isso não faz parte de mim. Saí de um casamento de 15 anos [com o diretor Jayme Monjardim], depois namorei por 3 anos, e agora estou sozinha. Se não for algo que eu sinta que realmente seja para eu construir, não vou entrar”.

Tania Mara está lançando um novo single e deseja voltar a apresentar programas (Foto: Rafael Almeida)
ROMÂNTICA
Uma mulher essencialmente romântica, Tânia Mara imprime às suas canções a forma como vê a vida. No lugar do lamento ou do fracasso amoroso exaltados em boa parte da música popular contemporânea, ela prefere cantar o amor possível – aquele que floresce e resiste.
“Eu sempre gostei de falar do amor que dá certo, daquele sofrimento que vai acabar. Esse tipo de música tem muito do que eu imagino e do que eu acho que Deus também dá pra gente no amor, que é uma chama feita para durar. Inclusive, esse é o nome da minha nova música, que vai ser lançada agora em setembro, e que é uma produção do meu irmão, do Rafael Almeida, que está estreando como produtor musical”, conta.
O último álbum, “Voz e Violão” (2023), também dirigido por Rafael – ex-ator que hoje se dedica à carreira atrás das câmeras -, celebrou os 25 anos de estrada da artista. “As músicas mais marcantes nesses 25 anos estão no Voz e Violão”.
O marco inicial dessa trajetória veio em 2006, quando Tânia explodiu nacionalmente com “Se Quiser”, tema da novela “Páginas da Vida”, de Manoel Carlos. Quase duas décadas depois, a música continua ocupando lugar especial em seus shows e na sua história.
“Nunca cansei. Eu canto e sou muito grata a ela. Sempre me emociono, porque quando canto e vejo os olhinhos fechando, as pessoas cantando junto… ou quando nem preciso cantar e o público já começa a entoar. Isso não tem preço. A batalha de um artista, principalmente da época em que eu vim, era muito mais difícil. Não existia essa força da internet, era o artista visitando rádio por rádio, fazendo shows… nunca tive essa coisa de achar que ia enjoar da música”.
Apesar de não ter músicas “proibidas” no repertório, há uma que nunca interpretou ao vivo – e que, curiosamente, foi determinante para abrir as portas das gravadoras.
“Acho que só tem uma música que eu nunca cantei no meu show. Mesmo sendo muito grata a ela, nunca entrou no repertório. Eu não tinha grana pra produzir uma música e o César Augusto sugeriu que eu pegasse uma que sobrou do repertório do Zezé Di Camargo & Luciano. A música chama Tem que Ser com Você. O Zézé gravou, a Zilu não gostou e ele tirou do álbum. O arranjo estava pronto, no tom do Zezé, e eu só coloquei voz. Eu também não gostei dela, mas reconheço que foi fundamental na minha carreira e fez parte do meu primeiro disco. A música não tinha nada a ver comigo: ela falava ‘tem que ser com você na rua, na chuva, debaixo da escada’… e eu era virgem. É bonita, tem melodia bonita, comercialmente é muito boa – mas não era minha verdade”.
Ao relembrar o início da carreira, Tânia revela que seus empresários chegaram a idealizar um caminho inspirado na cantora norte-americana Shania Twain. “Na minha época foi muito difícil, e as gravadoras e eu tínhamos essa intenção de vir pro mercado meio country, porque eu sempre escutei muita música country. A ideia era ser uma Shania Twain brasileira. Mas as coisas sempre foram mais difíceis para as mulheres. O mundo ainda é um pouco machista, não dá pra generalizar, mas os preconceitos existem. Cada vez mais a mulher está ganhando o espaço que é dela. Esse espaço já existia, mas em alguns momentos as pessoas achavam que certas coisas não eram para as mulheres, e a gente foi conquistando e cativando isso”.

Tânia Mara: “Em alguns momentos as pessoas achavam que certas coisas não eram para as mulheres, e a gente foi conquistando e cativando isso” (Foto: Rafael Almeida)
FANTASIA NO AR
Quando Tânia Mara surgiu na televisão, era uma adolescente de 15 anos que apresentava um dos maiores fenômenos de audiência da década de 1990: o game-show Fantasia, programa símbolo de uma era no SBT. Ela relembra, com clareza, como tudo começou: “Minha mãe falou que teria teste para cantoras lá. Porque ela sabia que, se dissesse que era outra coisa, eu não iria. Eu estava preparada para cantar, nunca imaginei que fosse algo diferente disso. Então, quando entrei na hora do teste, me entregaram um biquíni e eu quase caí para trás, porque eu tinha muita vergonha. Aí falei: ‘Olha, estou aqui por engano. A minha mãe me inscreveu, mas ela falou que era para cantoras, e eu sou cantora’. Cantei uma música do Amado Batista e foi a primeira vez que cantei de biquíni”.
O inusitado episódio não a afastou da seleção. Pelo contrário, ela passou no teste como bailarina – ainda que seu objetivo fosse outro. A convivência diária nos estúdios do SBT, porém, logo abriria novos caminhos: “Eu olhava as meninas apresentando e me inspirava muito na Adriana Colin, achava ela muito boa. Ela era a mais experiente. Eu já fazia muitos cursos de como falar em público. Meu pai investia tudo o que tinha em cursos para nós: canto, instrumentos, oratória. Depois de um tempo, a Valéria Balbi foi para o jornalismo e o Silvio convocou todas as bailarinas para fazer testes para apresentadora, porque ele queria alguém nova para substituir a Valéria. Eu fui a primeira a fazer o teste. O Silvio ficou na dúvida entre duas meninas, que éramos eu e a Amanda Françozo, e decidiu que entraríamos as duas”.
Assim, aos 15 anos, Tânia Mara iniciava um novo ciclo profissional – e de vida – como apresentadora de um programa ao vivo exibido diariamente. “O programa era ao vivo todos os dias, então eu estudava e vivia no SBT. Voltava para casa, estudava de novo… Essa era a minha rotina. O meu presente de 15 anos foi o contrato como apresentadora”.
Eu me sinto muito lisonjeada, orgulhosa de ter feito parte desse momento da televisão brasileira, realmente muitas coisas passaram na TV, na música e e não perduraram. O “Fantasia” ficou. O Silvio Santos cuidava pessoalmente do programa. Ainda hoje amo o SBT, amo a empresa. À cada entrada ali do SBT, eu eu me emocionava. Tenho muitas histórias. Ali realmente foi uma porta muito importante para minha carreira -Tânia Mara

Tania Mara e seu irmão Rafael Almeida nos bastidores do “Fantasia” (Foto: Acervo Pessoal)
MATERNIDADE E AFETOS
Mãe de Maysa, de 15 anos, Tânia Mara fala sobre como a maternidade transformou sua vida pessoal e profissional. “Maysa já faz 15. Não adianta, eu nunca consegui terceirizar a maternidade. A Maysa, para mim, já nasceu cantora. Eu jamais imporia isso, mas incentivo no que ela gosta. Desde os três anos de idade, ela já cantava afinadíssima. O gosto musical dela era muito diferente das crianças da idade dela. Com três anos, se vestia de Michael Jackson e cantava Michael. Já era à frente do tempo dela, com muita personalidade e muito talento, algo que já nasceu. As pessoas brincam, falam que o fruto não cai longe do pé, e eu acho que a Maysa é isso. Mas falo com segurança: ela é a evolução de toda a geração da família artística. Brinco dizendo que ela já pegou a mim e à avó dela e colocou no bolso”.
Tânia também conta que, por ter começado a trabalhar muito cedo, aos nove anos, prefere que a filha viva a adolescência de forma plena, sem pressa para assumir compromissos profissionais. “Eu não imponho. Falo: vai curtir sua adolescência, mas com responsabilidade. Não abandone seus dons, o que você gosta. Continue estudando. Quer gravar um vídeo? Grava. E, na hora que estiver pronta, terá todo o apoio do mundo. Não vejo ela longe da música. Ela quer ir para os Estados Unidos, fazer algo relacionado à música. Está sempre assistindo coisas de lá, pesquisando sobre Harvard e outras faculdades de música. Acho que o caminho não vai ser muito diferente”.

Tânia Mara grávida de Maysa (Foto: Reprodução/Jayme Monjardim)
A cantora também reflete sobre como a chegada da filha mudou sua forma de entender e viver o amor: “A Tânia antes era romântica e amorosa, mas acho que ainda tinha certas dificuldades de viver o amor. Eu achava que vivia o amor na forma mais intensa, que cantava o amor na forma mais intensa. Após a Maysa, isso se escancarou. Vi que realmente eu ainda não tinha embarcado com a profundidade e a intensidade que o amor exige. O amor de mãe te traz isso: a certeza de que não há medida para o amor. Ele é intenso, profundo, verdadeiro, escancarado. Minha forma de cantar mudou. Minha forma de ver a vida, o mundo, as pessoas. Já pensei em ter um segundo filho, mas hoje deixo nas mãos de Deus. Não digo não, mas entreguei para Ele. Se for para acontecer, que Ele direcione minha vida nesse caminho. Não existe ansiedade ou expectativa para isso hoje”.
Assim, entre o palco e a TV, entre a estrada e a vida em casa, Tânia Mara segue traçando sua rota com a serenidade de quem aprendeu que carreira e vida pessoal não precisam competir – podem se alimentar mutuamente. Mais de 25 anos depois do início, a menina que cantava em programas de auditório, que encantou o país com baladas românticas e que se reinventou como apresentadora e mãe, chega a este momento com a mesma chama que a moveu desde o início: cantar verdades que resistam ao tempo. Entre o amor que celebra, a carreira que construiu e a postura firme diante das marés do mercado, Tânia se mantém fiel à sua essência – a de fazer o público acreditar, ainda que por alguns minutos, que o amor pode dar certo. E fala disso sem pressa, sem drama, como quem já fez as pazes com a própria história e aprendeu a reconhecer o valor da liberdade – inclusive a de esperar pelo amor certo.
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