*Por Brunna Condini
Depois de comemorar cinco décadas de carreira com a turnê ‘Tô Voltando‘, Simone volta aos palcos com um novo espetáculo que leva seu próprio nome no título e no tom. Com o show ‘Simone‘, a cantora passou pelo Rio de Janeiro, no final de semana, e segue em turnê pelo Nordeste. No novo projeto, ela reúne clássicos imortalizados por sua voz, canções que retornam ao repertório após anos e surpresas que traduzem o momento pleno que vive hoje. “Tenho vontade de cantar, de estar com as pessoas, de continuar fazendo o que amo”, afirma.
Em entrevista exclusiva ao site, Simone fala sobre música como resistência, o reencontro com velhas canções, o desejo na maturidade e a leveza que só o tempo ensina. “A maturidade me trouxe isso: a liberdade de não me explicar tanto, de não caber em expectativa nenhuma”. Ao longo das décadas, a intérprete deu voz a canções que falam de amor, liberdade, separação e desejo, sem deixar de lado temas urgentes do país:
A música é resistência. É também denúncia, afeto, abraço. O Brasil precisa de arte. Sempre precisou. Já cantei pra sustentar causas, já cantei para lutar por democracia, por liberdade. E sigo cantando – Simone

Simone estreia turnê que leva seu nome, revisita clássicos e reencontra canções queridas, fala sobre música como resistência, liberdade na maturidade, amor sem idade e a beleza de viver com inteireza (Foto: Leo Aversa)
Maturidade e plenitude
Envelhecer no Brasil, especialmente sendo mulher, artista e figura pública, não é tarefa simples, e Simone sabe bem disso. “É desafiador. Porque a sociedade ainda não sabe lidar com a mulher que envelhece. Mas nunca deixei isso me paralisar. Me reinvento, escolho o que me representa. E sigo, com a mesma paixão por cantar. A idade não diminui isso”, afirma. Aos 75 anos, ela revisita o próprio conceito de beleza com um olhar mais livre: “Beleza é estar em paz com quem a gente é. É poder dizer ‘não’ sem culpa. É se escolher todos os dias”.
Ela encara o momento atual como um dos mais intensos de sua trajetória. “Estou inteira. E isso é uma alegria. Tenho vontade de cantar, de estar com as pessoas, de continuar fazendo o que amo. A plenitude vem disso, de seguir com verdade, sem forçar nada. E de ter gratidão pelo que vivi e pelo que ainda está por vir.”
E quando o assunto é amor e sexo na maturidade, Simone recusa qualquer limitação imposta pelo preconceito. Perguntamos se ela está amando, vivendo uma história de amor, mas, discreta, a cantora dá seu recado:
O amor e o desejo não têm idade. Mas vivemos numa sociedade que tenta calar a mulher madura. Não aceito isso. Vivo com liberdade, meu coração está vivo – Simone

“A sociedade ainda não sabe lidar com a mulher que envelhece. Mas nunca deixei isso me paralisar. Me reinvento, escolho o que me representa” (Reprodução/Instagram)
Ela é o show agora
Na turnê ‘Simone’, ela está acompanhada por uma nova geração de músicos e por um roteiro que costura diferentes fases da sua trajetória. Entre ‘O Que Será’, ‘Começar de Novo’ e ‘Tô Voltando’, há reencontros com músicas que, segundo ela, “batem na porta” pedindo para voltar. “Quando o show está sendo pensado, é como se certas canções dissessem: “quero estar com você de novo”. O público vai sentir isso. Têm reencontros que emocionam”, promete.
Simone continua intensa. E essa intensidade também se traduz no papel de intérprete que marcou sua carreira e a apresentou como ponte entre compositores e público. “Às vezes a pessoa ouve pela primeira vez uma música do Ivan Lins ou da Sueli Costa na minha voz, e aquilo fica marcado para sempre. Ser intérprete é isso: é dar passagem”, define. A artista vive um momento de plenitude, guiada por um olhar mais calmo e generoso sobre si mesma:
O tempo ensina a gente a ter calma. A respeitar o silêncio, a escutar o corpo. Aprendi a gostar de mim com mais verdade. A entender que beleza e potência não estão na juventude, estão na inteireza com que a gente vive – Simone

“Vivo com liberdade, meu coração está vivo” (Foto: Leo Aversa)
Entre os novos projetos, Simone faz questão de manter uma troca constante com artistas de diferentes gerações e estilos. “No meu último disco ‘Da Gente‘ trabalhei com muitos compositores jovens, em sua maioria nordestinos. Entre eles, Isabela Moraes, Joana Terra, Juliano Holanda, Karina Buhr, PC Silva, Rogéria Dera e vários outros queridos. Cantei com Jota.pê, Joyce Alane, Juliana Linhares. Tenho uma paixão pela Liniker, pelo Péricles… e sigo interessada e curiosa no que a música brasileira tem a oferecer. É bonito demais ver jovens chegando agora, ouvindo músicas que cantei há décadas. A música tem esse poder de atravessar o tempo”.
Se pudesse voltar neste mesmo tempo e conversar com a jovem baiana que estreava em 1973, Simone diz que seria direta falando para sua versão no passado: “Diria: confie mais em você. Não tenha medo de ser intensa, de amar demais, de parar quando for preciso. Ouça mais o silêncio, ele ensina. E não esqueça nunca do que te move. É isso que vai te manter de pé quando tudo balançar”.
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