Segunda noite de desfiles aponta Beija Flor e Viradouro como favoritas e aumenta o drama na Portela


Na segunda noite de desfiles na Marquês de Sapucaí, Mocidade, Beija-Flor, Viradouro e Unidos da Tijuca elevaram o nível da disputa e embaralharam a tabela. A Mocidade apostou na irreverência de Rita Lee e entregou seu melhor resultado em anos, enquanto a Beija-Flor mostrou disciplina e força com o enredo sobre o Bembé do Recôncavo. Em noite inspirada, a Viradouro emocionou ao homenagear o mestre Ciça e despontou como a apresentação mais impactante. A Tijuca encerrou com um tributo coeso a Carolina Maria de Jesus, de estética densa e segura. O saldo da jornada reposiciona favoritos e pressiona quem ficou para trás na corrida pelo título

* por Rodrigo Otávio

Na segunda-feira, a Marquês de Sapucaí viu passar quatro escolas — Mocidade, Beija-Flor, Viradouro e Unidos da Tijuca — e, ao fim da noite, a tabela já tinha cheiro de sentença. Os bons desfiles isolaram Portela e Niterói na parte de baixo e custaram à agremiação de Madureira o cargo do carnavalesco André Rodrigues, que pediu demissão antes mesmo de a poeira baixar. Agora, resta aguardar a terceira noite, quando a disputa se fecha e os humores se confirmam, ou não.

Lilia Cabral viveu Rita Lee no desfile e, na foto, está acompanhada de Roberto de Carvalho, viuvo da cantora (foto: RioTur)

A Mocidade Independente de Padre Miguel abriu os trabalhos com uma homenagem a Rita Lee e entregou seu melhor desfile desde o tributo a Elza Soares, em 2020. Não foi uma apresentação opulenta — e talvez nem precisasse ser. Renato Lage fez o que sabe: extraiu conceito de onde havia ideia e transformou limitação em linguagem, com um conceito visual arrojado e interessante. A comissão de frente foi simples e funcional; o conjunto, porém, era colorido, safado e debochado, como a própria homenageada. O primeiro casal, Diogo e Bruna, brilhou, e o quarto carro, “Não Provoque — É Cor-de-Rosa Choque”, trouxe o ator Diogo Defante como um fantoche pop, numa síntese bem-humorada do espírito roqueiro.

Carro “… Cor de Rosa Choque”, com Diogo Defante (Foto: RioTur)

A brincadeira com os títulos das músicas nas alas funcionou. A ala “Ovelhas Negras” desfilou com ovelhas… brancas — exceto uma, negra, estrategicamente solitária. Já em “Caso Sério — ao som de um bolero”, os figurinos remetiam mais ao merengue do que ao bolero. O que pode gerar algum ruído nas notas. O samba era mediano, e coube ao intérprete Igor Vianna elevá-lo à altura do conjunto.

Jéssica Martin, substitura de Neguinho da Beija Flor (Foto: RioTur)

Depois da irreverência da Zona Oeste, veio a disciplina de Nilópolis. A Beija-Flor apresentou a estreia de Nino do Milênio e Jéssica Martin — ambos em seu primeiro ano à frente da escola da Baixada. Jéssica brilhou com autoridade; pode figurar entre as candidatas ao Estandarte de Ouro como melhor intérprete ou revelação. A escola pisou forte, com harmonia e evolução exemplares. Havia elementos familiares, soluções que lembravam carnavais anteriores, mas o enredo “Bembé” — sobre o candomblé a céu aberto no Recôncavo Baiano — tinha a cara da Beija-Flor e foi defendido com convicção por João Vítor Araújo e equipe.

Selminha e Claudinho, sempre eles, mantiveram o padrão de excelência no primeiro casal. O abre-alas, majestoso, e o “pede passagem” com o animal-símbolo da escola — presença pontual e nem sempre recorrente  — eram belíssimos. O último carro, cuidadosamente decorado, fechou um desfile com poucos erros visíveis. Candidata.

Pede-Passagem da beija-Flor (Foto: RioTur)

A terceira a entrar foi a Viradouro, com uma homenagem emocionante ao mestre de bateria Ciça. Pela primeira vez, uma escola leva para a avenida um enredo centrado num mestre de bateria em atividade — e que, curiosamente, é julgado duas vezes: no enredo e na própria bateria. O texto de João Gustavo Melo, desenvolvido pelo carnavalesco Tarcísio Zanon, apostou na metalinguagem e acertou no tom. A comissão de frente transformou os apitos da bateria no Arco da Apoteose, com o próprio Ciça regendo a escola — um momento de potência simbólica.

Ciça, homenageado pela Viradouro (Foto: RioTur)

Ciça reapareceu no último carro, que revisitava o histórico “A Viradouro Vira o Jogo”. Julinho e Rute, primeiro casal, fizeram apresentação segura e elegante. O abre-alas, trazendo o leão da Estácio com a coroa medieval da Viradouro, ofereceu um espetáculo singular. Houve defeitos pontuais — e, em carnaval, o detalhe às vezes custa um campeonato —, mas nada que obscurecesse o fato: foi a melhor escola da noite, com João Gustavo Melo e Tarcísio Zanon em estado de graça.

Casal da Unidos da Tijuca representou o animal símbolo da escola, o pavão (Foto: RioTur)

A Unidos da Tijuca encerrou a jornada com uma homenagem a Carolina Maria de Jesus. Edson Pereira fez escolhas marcantes e visualmente bonitas, embora a escola do Borel tivesse a ingrata missão de desfilar depois do furacão emocional da Viradouro. Marquinhos Art’Samba estreou como intérprete, e o carnavalesco foi corajoso ao apresentar o casal representando o próprio símbolo da escola, o pavão. A comissão de frente, inspirada, cumpriu seu papel. A paleta de cores opacas e a pátina nos acabamentos conferiram densidade dramática ao tema. A Tijuca fez um desfile coeso — menos explosivo, mas consistente.