Música & Badalo

Salgueiro, Portela e Mangueira despontam como os destaques do último dia de desfiles na Sapucaí. Aqui, o que atravessou e o que deu samba! Vem!

A comissão de frente da Portela teve um Poseidon voando com jatos d’água, enquanto um carro da São Clemente desfilou com pane na eletricidade e outro quebrou com problemas no chassi

Publicado em 09/02/2016 | Por Lucas Rezende

Unidos de Vila Isabel

Faz tempo que o caixa da Vila Isabel não faz inveja a ninguém. E em 2016 o cenário não foi muito diferente. Consequências na Sapucaí? Não. Aí que mora a surpresa da noite. Cantando Miguel Arraes, a azul e branco de Noel Rosa foi feliz com a forma com que o enredo foi apresentado e não deixou as dificuldades financeiras transparecerem. Apesar de problemas no acabamento, as alegorias cumpriram seu papel de tradução – com direito a um Galo da Madrugada de 16 metros de altura. O samba enredo, com um bom refrão (“Tem Maracatu na batucada e o Galo da Madrugada misturando os carnavais”) deu certo, e não precisou de muitas repetições para cair na graça da arquibancada e camarotes. A comissão de frente, coreografada por Jaime Arôxa teve boa proposta, mas não podemos dizer o mesmo da execução: morna, precisava de mais para causar o impacto necessário na abertura de um desfile. E não só: a troca de coregrafias (eram “3 em 1”) não foi feita com excelência para uma das cápsulas de jurados. As fantasias, pesadas e luxuosas, surtiram efeito contrário: cerca de quatro integrantes passaram mal. No mais, toda reverência a Phelipe e Dandara, primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, que bailaram como nunca. Um espetáculo hipnotizante.

Atravessou: pequenos problemas na plástica dos carros alegóricos.

Deu samba: as fantasias luxuosas e o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Phelipe e Dandara.

Acadêmicos do Salgueiro

Os primeiros versos de “É que eu sou malandro, batuqueiro, cria lá do Morro do Salgueiro” mal começaram a ser entoados na Marquês de Sapucaí, e HT já flagrou jurados de samba-enredo, de pé, na cabine de jurados, cantando a plenos pulmões, animadíssimos. Era a premissa para o que estava por vir. A Academia do Samba, cantando o malandro – em suas várias vertentes, da religiosa à momesca -, viu seu samba funcionar – e com força! – de um canto a outro, e atravessou a avenida com quesitos de pista cumpridos com excelência. No entanto, a grandiosidade das alegorias de Renato Lage deixaram a desejar, com uma notável queda de tamanho – a segunda alegoria não contribuiu para a unidade do setor. Era tudo muito lúdico – a jogatina que envolve o malandro, a boemia e alusão ao candomblé eram de fácil entendimento -, mas algo muito longe do que o Salgueiro apresentou em anos anteriores. Soma-se a isso uma pane elétrica que o carro abre-alas sofreu da metade para frente. No mais, harmonia e evolução de excelência, com o desfile cumprido no tempo, sem nenhuma correria, samba na ponta da língua e muita diversão por parte dos integrantes – com fantasias que ajudavam a contar o enredo com luxuosidade e fluidez. No fim, gritos de “É campeã”, corroborando com o real favoritismo do pavilhão de vermelho encarnado.

Atravessou: o carro abre-alas sofreu uma pane elétrica.

Deu samba: o samba-enredo “pegou” na Sapucaí e fez total diferença.

São Clemente

Não havia enredo melhor para a agremiação carioca que tem como marca registrada a irreverência e a graça: os palhaços. Mas, infelizmente, não foi uma noite só de sorrisos. No quesito evolução principalmente. A terceira alegoria teve um problema no chassi e parou de andar, criando um enorme buraco no meio da avenida. Problema resolvido? Ai, ai. O segundo carro teve um problema com as luzes e desfilou apagado. No entanto, sorte para a turma do bairro de Botafogo: o tempo total não foi estourado no cronômetro. Assinado pela emblemática Rosa Magalhães, o enredo “Mais de mil palhaços no salão” cumpriu quesito básico no carnaval contemporâneo: fácil interpretação. Através de fantasias lúdicas, claras e com carros honestos – a plástica foi simples, mas com acabamento de gente grande. Destaque para um panelaço – sim, tipo aquele “anti Dilma” – que tomou conta da bateria, com alusão aos dias em que os brasileiros são feitos de palhaço. Sem grandes surpresas, a São Clemente compensou os buracos e a simplicidade com a alegria e as cores. Tarefa fácil para eles.

Atravessou: um carro desfilou com pane na eletricidade e outro quebrou com problemas no chassi.

Deu samba: as cores e o acabamento bem feito das alegorias e adereços.

Portela

O pensamento é: Paulo Barros, o mais cosmopolita dos carnavalescos, assumindo posto na Portela, a mais tradicional das agremiações? Pois a estranheza foi sepultada após os gritos de “É campeã” que a escola de Oswaldo Cruz de Madureira recebeu ao deixar a Marquês de Sapucaí. Com o enredo “No voo da águia, uma viagem sem fim”, a agremiação chamou atenção logo na comissão de frente: um Poseidon “voou” com uma prancha e jatos de água saindo de uma piscina, o chamado flyboard. Os carros “vivos”, marca de Paulo, mantiveram-se presentes, com os movimentos das alegorias impressos por integrantes e não necessariamente com grandes adereços. Frenesi – foi um desfile seguido por altos momentos – armado quando o terceiro carro alegórico mostrou a que veio. “As viagens de Gulliver” (o boneco era a-ca-ra do ator Jack Black) trouxe um boneco de 15 metros escalado por componentes. No mais, o enredo mais que autoral de Paulo Barros não causou rusgas na aura da Portela, uma das favoritas ao título. A emoção, que falou mais alto, foi coroada com a águia atravessando o Mar Vermelho, numa das viagens mais marcantes da história da humanidade.

Atravessou: a água usada na performance da comissão de frente prejudicou o bailado do primeiro casal de MS & PB que vinha logo atrás.

Deu samba: a comissão de frente teve um Poseidon voando com jatos d’água.

Imperatriz Leopoldinense

Correto, sem erros. Assim foi o desfile da Imperatriz que, com o enredo “É o amor… que mexe com minha cabeça e me deixa assim… Do sonho de um caipira nascem os dois filhos do Brasil”, homenageou os irmãos Zezé di Camargo e Luciano. Destaque para o primeiro refrão do samba-enredo (“Chora cavaco, ponteia viola, pega a sanfona, meu irmão, chegou a hora. Sou brasileiro, caipira pirapora”) que, nas devidas proporções, funcionou na Sapucaí com um plus: a sanfona de Lucy Alves em meio aos repiques e tamborins. Aliás, saiu daqui a melhor bateria do ano. Destaque para a bossa que mesclava o samba ao sertanejo, na medida certa, valorizando a melodia do samba-enredo com paradinhas bem esquematizadas e distribuídas. Ponto positivo também para o desenvolvimento do enredo que, apesar de partir da história de dois músicos, abriu considerável espaço para abordar a vida do homem do campo e o universo caipira. Foi o que contribuiu para ajudar na receptividade do grande público ao enredo, digamos, foi digerindo e reagindo aos poucos. Destaque para a escultura de um anjo caipira em homenagem a Emival, primeiro parceiro de Zezé, já falecido.

Atravessou: o exagero do carnavalesco na tentativa de deixar o desfile com toques caipiras mais lúdico possível.

Deu samba: as bossas e paradinhas da bateria, que trouxe o sertanejo ao samba com uma sanfona em meio aos ritmistas.

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Estação Primeira de Mangueira

Com uma plástica não uniforme, a Mangueira homenageou Maria Bethânia com o enredo “Maria Bethânia, a Menina dos Olhos de Oyá”, engrossando uma leva de desfiles-tributo. Dessa vez, deu certo. Muito certo. Tão certo que a avenida do samba foi tomada pelo povo atrás da última ala da escola, já do meio para o final do percurso. Ah, e sob os gritos de “É campeã”. Com um desfile luxuoso e de fácil tradução executado pelo estreante no grupo especial Leandro Vieira, a verde e rosa usou e abusou de referências religiosas. Desde a comissão de frente – bailarinas negras com os seios à mostra representavam Oyá e toda sua sensualidade -, ao segundo setor (de muito capricho, diga-se de passagem) – que exaltava a também religiosidade católica com Santa Bárbara, São João e afins. Para não dizer que só falamos das flores, o quinto carro alegórico  – que representava Bethânia em cena – desfilou com as lâmpadas apagadas e, em dado momento, acendeu. Basta saber se alguma cápsula de jurados estava tão atenta.

Atravessou: o quinto carro alegórico desfilou com as lâmpadas apagadas.

Deu samba: a escolha do enredo foi de ótimo gosto, bem como a recepção do público.

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