*por Vítor Antunes
Ele é um dos nomes mais simbólicos da música brasileira, especialmente nos anos 1980, quando figurava com frequência nos rankings de canções mais ouvidas da década. Se perguntarmos quem é Maurício Pinheiro Reis, poucos saberão responder. Mas basta dizer Biafra para que memórias despertem — tanto entre quem viveu intensamente aquela época quanto entre os mais jovens, que descobriram seus sucessos em memes e vídeos nas redes sociais. “Sonho de Ícaro”, um de seus maiores hits, tornou-se um clássico atemporal.
Agora, Biafra dá um novo passo em sua trajetória artística: estreia no cinema — não como intérprete de uma canção, mas como ator. “Vou estar no filme “Mentira Tem a Perna Curta”, do Maurício Manfrini, vivendo o Paulinho Gogó. É uma comédia romântica, me chamaram por conta da música Sonho de Ícaro, daquela coisa toda que virou um meme na internet. Então, os memes estão sendo muito aproveitados hoje em dia em filmes de comédia”. Ele se junta também ao coletivo de artistas “Todos Somos Um”, participando de um sarau beneficente, dia 3, na Casa com a Música, Lapa, ao lado de outros músicos em apoio ao compositor Tuninho Villas, que passou recentemente por uma cirurgia cardíaca.
O cantor, que já vendeu mais de 8 milhões de discos, também aproveita o momento para levantar discussões sobre os desafios atuais do cenário musical. Para ele, a internet, embora democratize o acesso, também silenciou muitos artistas: “Tem muito artista que está sem voz com essa questão da internet. Acho que o muito que ela proporcionou não é nada. Tem muita música que fica soterrada, não dá para reconhecer talentos novos. A música brasileira está toda ela em bolhas, bolhas disso, bolha daquilo, bolha de funk, de pagode… E a música popular, que sempre foi uma mistura de todas as tendências, ficou apagada. A inteligência artificial rouba um pouquinho da música e da ideia de cada um e faz uma música que não tem dono, que fica na mão dos agentes. Porque a música saiu da mão dos compositores, dos cantores e está na mão das plataformas, das pessoas que exploram esse tipo de coisa. Saiu da mão dos criadores. E é claro que, com isso, a música brasileira enfraqueceu”.
Biafra não poupa críticas às plataformas digitais e ao modelo de negócio que domina a indústria atualmente: “A internet virou uma máquina de ganhar dinheiro, em razão dos streamings. Então tudo agora é dinheiro, tudo agora é bet, tudo agora é inteligência artificial, e a arte está ficando, está sendo prejudicada por esse tipo de coisa que está acontecendo. Ficamos todos, todos nós ficamos na mão das big techs. Então as pessoas produzem um trabalho e não têm retorno a esse trabalho. As grandes empresas que saem lucrando, quem saiu lucrando com isso tudo, foram os big techs. Elas são as grandes beneficiadas desse processo todo. Não foi o compositor”.

Biafra acredita que a música brasileira enfraqueceu (Foto: Reprodução/Facebook Biafra)
Para ele, o distanciamento entre artistas é outro fator preocupante: “Os compositores que fazem música no Brasil não se conhecem mais, senão através da internet. Não trocam papo, não tem aquele papo de conversar, olho a olho, não tem mais isso, que sempre foi fundamental na promoção de novas parcerias. Falta isso”.
O cantor defende uma retomada dos encontros presenciais como forma de reacender a chama criativa: “A gente tem que incentivar os movimentos presenciais, as pessoas tocando violão. Acho que está na hora do Brasil começar a se unir, começar a conversar e começarmos a fazer os nossos comícios poéticos”.
Autor de inúmeros sucessos além de “Sonho de Ícaro”, Biafra foi também um dos compositores de “Vou de Táxi”, eternizada na voz de Angélica em 1988. Sua trajetória inclui uma curiosidade: em 1998, antes do lançamento do álbum Ícaro, trocou o “i” pelo “y” em seu nome artístico, passando a assinar Byafra, numa tentativa de evitar que seu nome aparecesse associado à guerra civil nigeriana em sites de busca. Em 2021, já em plena era das plataformas digitais, voltou a usar o “i”, resgatando sua assinatura original.

Biafra voltou assinar seu nome com a letra “i” (Foto: Divulgação)
UM LICOR A MAIS
Uma das primeiras músicas de Biafra a integrar trilhas de novelas foi “Helena”, composta em homenagem à sua então namorada e incluída na trilha de Marron Glacê (1979). De lá para cá, sua voz se tornou presença recorrente em produções televisivas, com canções que marcaram gerações, como “Vida Real”, tema da icônica “Mulheres de Areia” (1993). Biafra fala sobre a sua estreia no cinema como ator. “O Maurício Manfrini é uma pessoa formidável, muito legal, um cara, um lutador, um guerreiro. E eu fiquei muito honrado em ser convidado para atuar em “Mentira Tem a Perna Curta”, um filme engraçado. Quem for ao cinema vai se divertir muito”. A participação no longa de Manfrini confirma não apenas a força de “Sonho de Ícaro” no imaginário popular — canção eternizada nos anos 1980 que, décadas depois, ganhou nova vida como meme —, mas também o prestígio do cantor como um ícone daquela geração.
O movimento de resgate dos anos 1980 não é novo, mas tem ganhado força. Recentemente, a Globo lançou documentários sobre Xuxa e as Paquitas, enquanto a Disney revisitou a história do Balão Mágico. Festas temáticas que celebram aquela década se tornaram frequentes, assim como homenagens a artistas que marcaram época. Para Biafra, esse fenômeno revela não apenas um saudosismo coletivo, mas também uma crítica ao cenário musical atual, marcado por nichos isolados: “O ideal seria que a gente furasse essas bolhas e o cara do funk fizesse música com o cara da MPB, o cara do sertanejo fizesse música com o cara do pagode e por aí vai e se surgisse um grande movimento de união nacional, da cultura nacional, né? Que a cultura brasileira sempre foi diversa. A valorização da música dos anos 80 acontece justamente porque esse público que curtia FM, não escuta mais, então ele ficou órfão. Tem gente fazendo música muito boa hoje em dia, mas são poucos os que conhecem. Não há difusão do que está rolando agora. Muito se deve à nostalgia, à saudade e à memória afetiva”.
Ícone de uma era em que as canções românticas reinavam nas rádios, Biafra mantém o espírito crítico e o olhar atento para o futuro da música brasileira. Sua estreia no cinema reforça essa vitalidade artística: um artista que carrega consigo a herança afetiva de uma geração, mas continua disposto a se reinventar.
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