Música & Badalo

Renegado pelo mainstream, Reginaldo Rossi é eterno com sua estética, através da distância que o tempo permite!

Subestimado pela mesma elite que hoje saboreia o brega elevado à condição de Cult, o artista ficará para a posteridade!

Publicado em 22/12/2013 | Por Alexandre Schnabl

A morte de Reginaldo Rossi, nesta sexta-feira (20), vítima de um câncer no pulmão é significativa, não só por sua trajetória musical e pelo que ele representa na recente história da MPB, mas também pelo fato de que sua obra sintetiza, na contramão do sucesso contemporâneo de Gaby Amarantos, a força que a televisão exerce sobre a popularidade na música brasileira, podendo determinar quem faz sucesso ou não na mídia eletrônica. A despeito de suas qualidades, a cantora paraense também é produto midiático apropriado pela Globo, ao contrário de Rossi, que nunca aconteceu para valer na telinha, embora fosse avassalador blockbuster pelas estradas, palcos e puteiros do interior do Brasil. Tanto o percurso do intérprete como o de Gaby são termômetros de momentos distintos pelos quais a televisão nacional passa.

Reginaldo Rossi: um beijo e um queijo para o mainstream! (divulgação)

Reginaldo Rossi: um beijo e um queijo para o mainstream! (divulgação)

Enquanto a carreira do primeiro se consolida nos anos setenta, época em que havia um sopro de renovação na produção televisiva, com gente graúda como José Bonifácio Sobrinho, Walter Clark e Daniel Filho se esmerando para criar o tal “padrão Globo de qualidade” e transformando a emissora do Jardim Botânico em gestora de conteúdo de primeiro time – onde não havia espaço para arremedos popularescos que não se afinassem com as premissas daquilo que era visto como “de bom gosto” pelas elites da ditadura –, a segunda representa o atual status quo da tevê aberta, que se popularizou com a chegada dos canais a cabo no Brasil, na virada dos noventa, quando a programação mais elitizada migrou para estas novas mídias. O sucesso de Gaby, o tecnobrega “Ex Mai Love”, na abertura de“Cheias de Charme”, seria coisa impensável nos anos 1970/1980, e o produtor musical Mariozinho Rocha, à frente daquilo que toca na Globo há algumas décadas, correria o risco de ter a cadeira de seu escritório leiloada pelo alto escalão da emissora, caso aprovasse esse acinte naqueles anos, passando no departamento pessoal em seguida para assinar o termo de rescisão. Aliás, quando que, em gestão com Daniel Filho e Walter Avancini à frente das novelas, e com Boni precisando dar amém em cada beijão-mão, como se fosse um capo da Máfia, poderia se pensar em uma novela cujas protagonistas são três empreguetes que querem o lugar ao sol da patroa, uma cantora de enorme sucesso, mas jeca? Coisa dos tempos atuais, pós-ascensão das classes C e D e de Lula torneiro mecânico-presidente.

Artífices da tevê brasileira como Daniel Filho e Boni, hoje afastados do comando, são categóricos em afirmar, em entrevistas, que era nesse período (que vai do surgimento da Globo, em 1965, até meados os 1990) que se buscava uma programação intelectualizada na emissora carioca, ao contrário das demais. Evidentemente, o boom do caldeirão que se convencionou chamar Música Popular Brasileira – com o escrete composto por estrelas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Chico Buarque, Djavan, Gal Costa, Ney Matogrosso, Maria Bethânia, Simone e Ivan Lins, entre outros – coincide com a elevação da qualidade televisiva promovida pela rede de Roberto Marinho. Nesta, não tinha vez a rapaziada de imenso apelo comercial, porém considerada de gosto duvidoso e, por isso mesmo, tida como persona non grata nas trilhas das novelas e nos estúdios do finado Teatro Fênix, onde se concentrava a produção dos especiais musicais da emissora. A galera que vendia muito disco, fazia show quase todo dia, mas não dava ibope junto às elites – como Reginaldo Rossi, Waldick Soriano, Jane e Herondi, Marcio Greick, Fernando Mendes e Odair José – precisava se contentar em aparecer naqueles programas de auditório voltados para o povão, na Tupi e na Bandeirantes, sob a batuta de apresentadores com camisa de voil aberta no peito cabeludo, tipo Bolinha, Mauro Montalvão, Aírton e Lolita Rodrigues (com seus “Almoço com as Estrelas” e “Clube dos Artistas”) e até Chacrinha, que nessa época ainda não havia retornado às boas graças de Boni. Aliás, coisa que acontece hoje no Projac, em atrações capitaneadas por Luciano Huck e Faustão, ambos originários do elenco da Bandeirantes.

Com a ruptura entre elite e televisão aberta, talentos do calibre de Reginaldo Rossi vão, aos poucos,  até encontrando espaço na Globo, mas, para ele, já era tarde demais. Se ele ganhava atenção do público em quadros de programas como os de Renato Aragão, por outro lado havia uma nova geração de músicos, pronta a estourar, quentinha e bem palatável para os cardápios dos novos tempos. Gente como, mais recentemente, a exuberante Gaby Amarantos, que praticamente se mudou de mala e cuia para a Globo, dando expediente nos mais variados formatos.

Fotos: divulgação

Além disso, com o distanciamento dos anos setenta causados pelo avanço dos anos, a estética brega de outrora ganha releitura cult, própria da galera que não viveu aquela época, mas que se identifica com a aura daqueles códigos de comportamento. Gente como os diretores Maurício Farias, à frente de seriados de sucesso, como “Tapas & Beijos” (2011 a 2013) e de “A Grande Família” (2001 a 2010), ou Guel Arraes, em minisséries e filmes de cinema como “O Auto da compadecida (2000)”, “Lisbela e o Prisioneiro (2003)” e o “Bem Amado (2010)”, todos, por sinal, produções da própria emissora que renegou o brega ou da Globo Filmes, seu braço cinematográfico. Quem negaria que a composição de personagens como o taxista Agostinho (Pedro Cardoso) e o funcionário público Mendonça (Tonico Pereira), em a “Grande Família”, ou as de Fábio Assunção e Vladimir Brichta, em “Tapas & Beijos”, são adaptações que beiram o arquétipo de pilantra mulherengo, cafajeste e romântico imortalizado por Rossi? Ou que o mau-caráter Frederico Evandro, vivido por Marco Nanini em “Lisbela e o Prisioneiro”, não é cópia escarrada e cuspida do cantor? Sim, após décadas renegado pelo mainstream, Reginaldo Rossi permanece entre nós, mais vivinho do que nunca.

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