Música & Badalo

“Queremos transmitir e preservar a sabedoria dos povos”, conta Flavio Renegado sobre o projeto ArtSonica

Rapper completa 10 anos de carreira com um projeto de mapeamento de sons urbanos e o álbum Suíte Massi, com a Orquestra de Ouro Preto, que mistura o erudito e a rua

Publicado em 13/06/2019 | Por Heloisa Tolipan

O rapper Flavio Renegado captando as sonoridades urbanas para o Aglomere-se, do ArtSonica (Foto: Monica Ramalho)

*Por Rafael Moura

‘Histórias de um passado ainda recente. Aonde o corpo não é mais forte que a mente’… Trecho da música Renegado, de Flávio Renegado. Esses versos transmitem o projeto ‘Aglomere-se’ do rapper, músico e empreendedor social dentro da residência ArtSonica, um laboratório de experimentação sonora e musical do Oi Futuro. Um mapeamento de sonoridades urbanas. Renegado circulou por lugares históricos do Rio de Janeiro, como Cais do Valongo, Pedra do Sal, Complexo do Alemão, Morro da Serrinha e no Samba do Trabalhador, no Clube Renascença, no Andaraí, captando áudio ambiente desses locais. “Ao longo desse processo fomos descobrindo que todos esses endereços traçavam um retrato da história dos negros – Onde entraram na cidade, foram vendidos e fixaram residência”, explicou o músico ao site HT.

Toninho Gerais, Teresa Cristina, Moacyr Luz e Flavio Renegado

Um encontro de gigantes: Toninho Geraes, Teresa Cristina, Moacyr Luz e Flavio Renegado (Foto: Monica Ramalho)

O ArtSonica foi criado para estimular a criatividade e a inovação no campo do som e da música. O laboratório é o ponto de encontro de criadores e fazedores de diversas áreas e oferece a infraestrutura necessária para que bandas, músicos, produtores, pesquisadores da arte sonora, gravadoras independentes, além de incentivar talentos, estimular criadores e fomentar a produção colaborativa na era digital. Com foco nas artes visuais em diálogo com a música, literatura, artes cênicas e artes urbanas, mixadas com as áreas de moda, design, games e gastronomia.

Rene Silva, do Voz das Comunidades, e Flavio Renegado durante o Papo Sonica (Foto: Monica Ramalho)

Renegado com essa investigação etnográfica irá extrair sons para um novo sample de uma música que marcará o fim da residência artística e os seus 10 anos de carreira. O projeto ‘Aglomere-se’ do rapper foi um dos dez escolhidos, entre quase 400 inscritos, para serem realizados dentro do ArtSonica Residência Artística, dirigido pela Zucca Produções. Ele nasce da necessidade de amplificar e reverberar a historia que os livros de história não contam, e dar voz a quem vive e viveu essas verdadeiras narrativas. A obra audiovisual será exibida ao público em exposição gratuita no Centro Cultural Oi Futuro, no final do mês de agosto. “Queremos transmitir e preservar a sabedoria dos povos, mas agora usaremos as novas tecnologias para preservar o legado ancestral, compartilhando de geração em geração todos os dados e arquivos capazes de libertar nossos corpos, mentes e corações, os enviando por mensagens, áudios ou de boca em boca”, pontua o artista.

O rapper Flavio Renegado fazendo o mapeamento dos sons do Rio de Janeiro (Foto: Monica Ramalho)

Erudito e Popular

Para coroar seus dez anos de carreira, no melhor do estilo mil grau, Renegado une o erudito e o movimento urbano no álbum ‘Suíte Masai’, gravado ao vivo na comunidade do Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte, que contou com a participação da Orquestra Ouro Preto (OOP), sob regência de Rodrigo Toffolo. Com arranjos do maestro Marcelo Ramos, o disco que reúne 15 faixas, sendo 12 composições do próprio artista, que também assina a produção musical, e também três regravações: Para Lennon e Mc Cartney, Maracatu, Nação do amor e Românticos. O lançamento oficial do CD será no dia 21 de junho, em Ouro Preto, na Praça Tiradentes e, no dia 26, no Sesc Palladium, em BH. “Já são 10 anos de carreira e para essa data procurei a melhor orquestra para realizar esse sonho. Foi um rolê muito grande, pois precisei quebrar muitas barreiras, por conta do preconceito. A turma da OOP foi muito parceria e hoje são meu porto seguro”, conta o músico.

O disco propõe uma conexão da música negra-urbana e europeia, sonoridades africanas, brasileiras e caribenhas. “Uma jornada musical oriunda da periferia mineira, acionando a diáspora para desbravar as ancestralidades do Quênia e se materializar com uma orquestração”, ressalta. A apresentação de gravação reuniu 35 músicos, entre componentes da banda do rapper e membros da OOP em show em agosto do ano passado, na comunidade em que Renegado nasceu e onde hoje mantém seu projeto social, Arebeldia. O empreendedor social ressalta que a fusão do universo do rap com a orquestra foi um caminho natural. “Vejo a conexão com a música erudita como ponto alto. Especialmente com uma orquestra como a OOP. Foi muito bom encontrar um grupo de músicos eruditos dispostos a colaborar com a música popular de maneira aberta, generosa e verdadeira”, enfatiza.

O ‘Suíte Masai’ nasceu de um mergulho de Renegado na cultura Masai, um povo seminômade da região do Quênia e do encontro com o Marcelo Ramos, professor de música da UFMG. “Acertamos fazer o show que aconteceu na Sala Minas Gerais. Posteriormente, procurei o Toffolo, lhe mostrei o material, já arranjado pelo Ramos e ele topou fazer o disco. Gravamos na minha comunidade, no Alto Vera Cruz, local onde nasci, fui criado e onde estão minhas raízes. Não poderia ser de outra forma”, conta orgulhoso. A região na Zona Leste, de BH, é uma das mais carentes presenciou uma apresentação inesquecível. “Contamos com a participação de toda a comunidade. Cumprimos o papel da música, que é o de incluir as pessoas. É um disco gravado no calor da emoção, diante do carinho das pessoas. Este é o disco que mais tem o meu DNA presente. Meus amigos de escola estavam presentes, muita gente que marcou em minha vida estava lá. Registramos um momento de vida, no qual a música foi o ator principal”.

Há ritmos como o samba, o reggae, o rock e a música regional, entre outros. Mudança de linha? Não. “Sou autodidata, mas hoje estudo música querendo entender mais de melodia, canto e harmonia. Não tenho a intenção de deixar o rap, mas, sim, de me tornar um rapper melhor. Sou cantor na essência”. O artista se vê mais maduro. “Sinto que botamos pra fora algo que estava para ser dito há bastante tempo. Clube da Esquina, Moacir Santos e Vander Lee fazem parte não só da minha formação musical e profissional, mas também afetiva e de identificação.”

Ouça o álbum Suite Masai, que comemora os dez anos de carreira, do rapper Flavio Renegado com a Orquestra de Ouro Preto:

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