*por Vítor Antunes
No ano em que Gal Costa (1945-2022) completaria oito décadas de vida, um lançamento musical surgiu no streaming quase que de surpresa: um disco recém-subido ao Spotify, construído a partir de uma apresentação raríssima da cantora. Em condições normais, o episódio renderia entusiasmo — afinal, trata-se de um registro captado na Argentina, em 1978, período em que Gal atravessava uma de suas fases mais afiadas. Mas aquilo que poderia ser celebrado como brinde ao passado transformou-se, quase instantaneamente, em matéria incômoda: a publicação pode estar atravessada por impasses legais e éticos.
A responsável por disponibilizar o material no ar é uma gravadora do Uruguai que, de alguma maneira, obteve a matriz sonora da performance e a colocou no streaming no dia 20. O gesto surpreendeu os detentores dos direitos autorais do repertório de Gal e também a gravadora que administrava sua obra naquele fim dos anos 1970, a então Philips/Polygram — incorporada, nos dias atuais, ao guarda-chuva da Universal Music. Segundo relatado por uma fonte procurada pelo Site Heloisa Tolipan, em 1978 Gal era artista exclusiva da Polygram, o que implica dizer que qualquer álbum relativo àquele ano precisa ter a anuência da gravadora de então, ou seja, a atual Universal. O direito é retroativo.

O álbum de Gal Costa disponibilizado no Spotify (Foto: Reprodução)
O lançamento tampouco chegou à família da artista. Guto Burgos, irmão de Gal, só veio a saber do lançamento quando foi procurado pela reportagem. A empresa que assinou a distribuição — Montevideo Music Group, sediado na Uruguai — foi acionada, mas não retornou às tentativas de contato. Até o fechamento desta reportagem, a Universal também não havia respondido aos nossos contatos.
O álbum que agora circula pelas plataformas digitais deriva da apresentação de Gal em Buenos Aires, realizada em outubro de 1978. Antes do surgimento oficial do registro, pequenos indícios já tinham vazado para o subsolo da internet: trechos de ensaio e de passagem de som, publicados no YouTube por um perfil denominado MrOldtapes.
À época, o canal postou três fragmentos. No primeiro, Gal interpreta “Falsa Baiana”, de Geraldo Pereira, número emblemático de “Fa-Tal” (1971). No segundo, aparece “Antonico”, de Ismael Silva (1905-1978), também incorporado ao repertório do mesmo show. O terceiro vídeo traz “O Leãozinho”, composição de Caetano Veloso que Gal jamais registrou oficialmente, embora a canção integrasse o roteiro do espetáculo “Com a Boca no Mundo” (1977).

Gal Costa lançou um álbum na Argentina que é inédito no Brasil, e pela Philips/Polygram. As músicas são totalmente diferentes daquelas lançadas no Spotify (Foto: Reprodução)
Essas captações foram realizadas no Hotel Bauen, durante o ajuste de som que antecedeu a temporada portenha. Naquele período, Gal encontrava-se no limiar do lançamento de um disco no Brasil. Gravou o material, embarcou para Buenos Aires e ali apresentou ao público argentino um outro LP — até hoje inédito no mercado brasileiro — dedicado a obras de Caymmi e Caetano. Durante a estada, a cantora ocupou o palco do Teatro Coliseu e, paralelamente, fez apresentações na boate Crazy House, situada dentro do próprio Bauen, onde ocorreram as gravações que agora ressurgem.
O jornal O Globo publicou, à época, parte do repertório planejado para a viagem. Entre as faixas, estavam “Deixa Sangrar”, “Baby” e “De Onde Vem o Baião?”. A formação que acompanhava Gal, segundo o jornal, reunia Perna Fróes ao piano, Moacir Albuquerque no baixo, Perinho Santana na guitarra, Charles na bateria e Marcos Zamma na percussão.
Agora, mais de quatro décadas depois, essas gravações voltam à superfície não como relíquia consensual, mas como objeto de disputa — um eco tardio de Gal que reaparece ao público por vias tão tortuosas quanto fascinantes.
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