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Paula Lima faz show sexta-feira no Blue Note, no Rio, e afirma: “Acredito na minha arte e hoje não faço concessões”

O repertório engloba 15 músicas de letras fortes e com histórias a serem contadas sobre amor, fé e empoderamento, caso de "Mutante", "Clariô", "Zé do Caroço", "As Rosas Não Falam", "Olha", "Mil Estrelas", "Me Deixa em Paz", entre outras canções que estão personificadas no inconsciente coletivo e que ajudam a revelar meandros da história do país

Publicado em 23/08/2018 | Por Heloisa Tolipan

* Por Ana Paula de Assis

Paula Lima (Foto: Rogério Mesquita - Divulgação)

Paula Lima (Foto: Rogério Mesquita – Divulgação)

Nina Simone dizia que “Liberdade é viver sem medo”. “Arte não combina com medo”, acrescenta a diva Paula Lima, 47 anos, que faz apresentação única no Rio, sexta-feira, no Blue Note. Considerada uma das vozes mais impactantes de sua geração, a artista está mais livre do que nunca. Desde que a paulistana da Vila Mariana deixou o canudo de Direito na Universidade Mackenzie para abraçar a trilha musical, quase duas décadas atrás, e firular elegantemente por uma MPB contemporânea que flerta com gêneros como o soul e o jazz, a jornada vem sendo bastante frutífera. “Minha raiz é a música negra”, explica, acrescentando: de Ella Fitzgerald, Chaka Khan, Elza Soares e Aretha Franklin. “Me encanta como elas transformaram o complexo na naturalidade de estarem cantando na própria sala de estar”, emenda.

Paula Lima vai cantar sexta-feira no Blue Note (Foto: Lucas Fonseca - Divulgação)

Paula Lima vai cantar sexta-feira no Blue Note (Foto: Lucas Fonseca – Divulgação)

A presença exuberante e politizada de Paula também se faz valer muito além dos palcos da vida: “O Brasil vive uma situação triste, uma falta de empatia generalizada, então é necessário explicar o motivo de precisarmos de cotas, fazer as pessoas entenderem o seu lugar de privilégio e compreenderem que só estão ali porque elas não tiveram os seus caminhos ocultados pelo fantasma da escravidão”, ressalta a filha de uma família de classe média, que ainda hoje sente na pele uma certa dificuldade aqui e acolá em termos de projeção em gravadoras ou patrocínios. “Acredito na minha arte e hoje não faço concessões”, arremata. Com toda essa determinação, ela defende, se posiciona e acredita (sem temer os haters) na bandeira do feminismo e, sobretudo, na mulher negra.

"Acredito na minha arte e hoje não faço concessões", diz Paula Lima (Foto: Lucas Fonseca - Divulgação)

“Acredito na minha arte e hoje não faço concessões”, diz Paula Lima (Foto: Lucas Fonseca – Divulgação)

O show “Voz e Piano” promete arrebatar os corações dos cariocas no Blue Note. “Sou fã de carteirinha da aura carioca, adoro a cidade, que me foi apresentada pelo Seu Jorge“. É a quarta vez que a artista se apresenta nesse formato mais intimista que começa a rodar o Brasil, sempre bem acompanhada pelo pianista Naldo Ramos, num espetáculo que explora toda a potencialidade vocal da musa do soul brasileiro e leva a plateia ao êxtase em 70 minutos de repertório marcante, sem fugir do compasso. “Este formato me permite colocar a voz a serviço da música. São canções feitas para o canto à capela, o que exige uma concentração. A interpretação ganha um lugar destacado por conta da intimidade e da aproximação estabelecida com o público”, explica.

"Sou fã de carteirinha da aura carioca, adoro a cidade, que me foi apresentada pelo Seu Jorge", afirma Paula Lima (Foto: Lucas Fonseca - Divulgação)

“Sou fã de carteirinha da aura carioca, adoro a cidade, que me foi apresentada pelo Seu Jorge”, afirma Paula Lima (Foto: Lucas Fonseca – Divulgação)

O repertório engloba 15 músicas de letras fortes e com histórias a serem contadas sobre amor, fé e empoderamento, caso de “Mutante”, “Clariô”, “Zé do Caroço”, “As Rosas Não Falam”, “Olha”, “Mil Estrelas”, “Me Deixa em Paz”, entre outras canções que estão personificadas no inconsciente coletivo e que ajudam a revelar meandros da história do país. Com cinco álbuns na bagagem (o sexto chegará no início de 2019 com composição afiada do rapper Emicida), Paula é do tipo que faz e acontece – já atuou no musical Cats, foi jurada de carnaval na Rede Globo e do vlocbuster reality Ídolos. Desde 2013 comanda o “Chocolate Quente”, programa musical na rádio Eldorado com pérolas da black music de outros tempos. “Só toco o que eu gosto e na última edição não poderia ser diferente: foi toda dedicada ao legado da rainha do soul, Aretha Franklin“, diz referindo-se  à estrela maior da constelação da black music, que nos deixou na semana passada, aos 76 anos, com um legado que que inclui desde  cantar no funeral de Martin Luther King até a cerimônia de posse de Barack Obama. “Não tem como não se emocionar com “Respect”, o hino da Aretha encampado pelos movimentos dos direitos civis que entrou para a história ao exigir respeito para a condição da mulher, algo ainda tão atual nos dias de hoje. Prezo muito pela liberdade da mulher, nunca acreditei no casamento como salvação. As minhas brincadeiras na infância jamais foram de arrumar a casa e sim com profissionais liberais, uma referência espelhada na minha mãe. Lá no passado, ela já era super feminista: trabalhava fora, dirigia o seu próprio carro, a militância não era uma bandeira, acontecia no cotidiano. Por isso fiquei tão estarrecida com o triste episódio Marielle Franco. Muita coisa ainda precisa mudar para conquistarmos o nosso lugar de fato. Marielle virou ícone, mártir e guerreira e sobrevive dentro de cada mulher, sobretudo, na mulher negra”, analisa Paula. Palmas para ela!

"Marielle virou ícone, mártir e guerreira e sobrevive dentro de cada mulher, sobretudo, na mulher negra", analisa Paula (Foto: Lucas Fonseca - Divulgação)

“Marielle virou ícone, mártir e guerreira e sobrevive dentro de cada mulher, sobretudo, na mulher negra”, analisa Paula (Foto: Lucas Fonseca – Divulgação)

 

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