“O funk é cultural. Tem erotização, mas também mensagem. E é natural falar de sexo”, diz FP do Trem Bala


O funkeiro lança até o final deste mês seu EP “Brotei – Da Favela Pro Mundo”, e fala com exclusividade ao site HT sobre o projeto, que junto com a primeira parte do documentário homônimo, traz o ritmo com foco na mensagem, e na história do artista de 23 anos, que saiu de Ilheús, na Bahia, e chegou no Rio de Janeiro com apenas 14 anos, em busca do sonho de uma vida melhor. “Na real, esse trabalho já é a transformação. Eu quis reunir minhas vivências pessoais, minha carreira na música, experiências de ser um jovem preto, pobre e favelado, aprender com tudo e colocar para fora, espalhar pro mundão de alguma forma. Acho que tem muita gente comigo nessa”, diz

*Por Brunna Condini

Bem mais que uma batida envolvente. Há dois anos, um Projeto de Lei reconheceu o funk como manifestação popular cultural digna do cuidado e proteção do Poder Público. Mas o fato é, que para os artistas que produzem o ritmo, isso já não era sem tempo. A luta sempre foi para que o Estado reconhecesse todas as formas de manifestações culturais e as incentivasse, tirando o preconceito da frente, e deixando de criminalizá-lo ou diminuí-lo.

Esse desejo se mantém presente no trabalho de um dos mais “bombados” representantes do ritmo no momento, FP do Trem Bala, dono do hit “Vamos pra Gaiola’, com o cantor Kevin O Chris. E foi durante a pandemia que o funkeiro colocou a mensagem como foco em seu som. Com a quarentena e os bailes suspensos, ele lança até o final deste mês, seu novo EP, “Brotei – Da Favela Pro Mundo”, que também conta com a primeira parte de um documentário homônimo sobre a vida do artista, lançado em agosto.

Em ‘Brotei’, FP transita pelo funk, o rap e o trap nas seis faixas que levam inspiração e esperança para jovens negros da periferia do país. “É um projeto muito especial que nasceu de uns pensamentos que eu tive sobre minha história de vida e artística. Estou botando muita fé e amor nesse trampo, creio que muitos irmãos vão se identificar com as letras, com os clipes que estão demais!”.

“É um projeto muito especial que nasceu de uns pensamentos que eu tive sobre minha história de vida e artística” (Foto: Cassia Azevedo)

Aos 23 anos, o artista que popularizou o funk 150 bpm (com batida acelerada) do baile da favela Nova Holanda, em Manguinhos, bairro da Zona Norte do Rio, segue na onda do funk consciente e mostra que continua antenado às sonoridades da cidade, fazendo referência até ao samba carioca. No trabalho novo, destaque para a letra de “Todo de N1k€”, uma parceria com CH, em que a ostentação é colocada no lugar de crônica sobre sua conquistas pessoais: “tô pisando fofo / quem me olha assim acha que eu não passei sufoco / mas quem vem da rua sabe que o bagulho é doido”. É nessa vibe, que FP do Trem Bala ou Luiz Felipe Pereira, fala com exclusividade ao site sobre a criação do novo projeto e seus significados, e também sobre a estrada até aqui e o futuro.

Como esse novo trabalho te transformou?  “Na real, esse trabalho já é a transformação. Eu quis reunir minhas vivências pessoais, minha carreira na música, experiências de ser um jovem preto, pobre e favelado, aprender com tudo e colocar para fora, espalhar pro mundão de alguma forma. Acho que tem muita gente comigo nessa.  Meu EP e o documentário são trabalhos que antes mesmo de estarem na pista já eram uma transformação. Um revolução na minha vida por ser a minha história real, saca?”.

“Quis reunir minhas vivências pessoais, experiências de ser um jovem preto, pobre e favelado” (Foto: Cassia Azevedo)

O baiano que chegou no Rio aos 14 anos deseja desde sempre, além de refletir a realidade da periferia, apontar para uma saída de paz e união dentro das comunidades. Com a pandemia, que realidade vê na periferia hoje? “De injustiça total, mano. Várias pessoas que já viviam do pouco, tá ligado, agora estão vivendo com quase nada. E ainda vivem no meio de operação, guerra nas favelas, é tudo muito injusto com esse povo que trabalha pra tentar sobreviver”, desabafa ele, que mora em Niterói, mas já viveu na comunidade de Rio das Pedras quando chegou com a família na cidade.

O que o baiano tem?

De cara já dá para identificar que tem borogodó, muita criatividade e determinação. Tanto que quando veio de Ilhéus, na Bahia, com a mãe, FP já tinha como meta proporcionar uma vida melhor para a família. “Minha irmã já morava aqui, eu e minha mãe viemos depois. Minha mãe era professora em Ilhéus. Quando a gente chegou no Rio, ela não conseguiu nada na área dela e foi trabalhar para sustentar a gente com salário de empregada doméstica. Foi osso!”, recorda. “Mas quando cheguei por aqui, eu posso dizer que o mais me surpreendeu foi a vida social das pessoas. Aqui a galera não para. Na favela onde eu fui morar, Rio das Pedras, é agito o dia e a noite toda. É só tu procurar que tu acha!”.

‘Quando cheguei por aqui, posso dizer que o mais me surpreendeu, foi a vida social das pessoas. Aqui a galera não para na favela onde eu fui morar, Rio das Pedras” (Foto: Cassia Azevedo)

Quando percebeu que a música poderia transformar a sua vida? “Quando meu set bombou no meu primeiro canal do Youtube, que foi quando a galera reconheceu o 150 b.p.m. como uma parada maneira pra embrazar, só que na época, eu não chamava assim, né? Eu chamava de “Ritmo Louco”. Foi aí que comecei a fazer shows e me apresentar para mais pessoas. O dinheirinho começou a cair na conta e a minha realidade mudou. Me orgulho de ter conquistado com o meu trabalho melhoria de vida para a minha família. Deixar minha mãe, minha irmã, filha, geral mesmo fortão, dá o maior orgulho e vontade de continuar”.

O “Trem Bala” do nome artístico tem a ver com a batida acelerada, mas bem que poderia ter a ver com a força que o artista coloca no trabalho para que as coisas aconteçam. No entanto, FP também sabe a hora de desacelerar ou melhor, de olhar por outro ângulo e se reinventar, como agora na pandemia. “Tô repensando tudo, mano. No que a minha carreira se transformou até aqui, nos lançamentos futuros, onde eu quero chegar… E o que vai ser da gente pós essa quarentena”, divide.

Seguido por artistas como Anitta, Djonga, Matue e Ludmilla entre outros, ele que um dia também sonhou em ser jogador de futebol, aproveita para mandar um recado para os que “torcem o nariz” para o funk, até por apontar uma erotização exagerada em muitas de suas letras: “Acho que eles têm que ouvir o novo EP consciente do FP do Trem Bala! (risos). Mas falando sério agora, ia dizer para relaxarem e olharem ao redor para perceberem que a erotização também pode estar na novela, nos filmes, nos grupos de whatsapp… e o funk é cultural e muito rico, tem erotização, mas também tem mensagem, tem ostentação, tem de tudo! Dança e escuta quem se identifica, e pelo sucesso que faz, todo mundo se identifica! É natural do ser humano falar de sexo”.

E finaliza, mandando um papo reto: “Tenho sonhos infinitos. Quero conquistar o mundo!”