Música & Badalo

“O cenário musical é um entreposto entre cansaço e investimento em apenas um dos lados”, diz Vanessa da Mata

Em entrevista exclusiva ao site HT, a cantora falou sobre o lançamento do seu recente disco, “Quando Deixamos Nossos Beijos na Esquina”, a turnê e o atual cenário musical e político do país

Publicado em 06/06/2019 | Por Heloisa Tolipan

(Foto: Rodolfo Magalhães)

*Por Iron Ferreira

Provando que é uma das maiores vozes da MPB atual, Vanessa da Mata lançou dia 31 de maio o mais novo disco. Intitulado “Quando Deixamos Nossos Beijos na Esquina”, o projeto contém 11 faixas e é, segundo a cantora, o mais autoral de seus 22 anos de carreira. Se arriscando como produtora pela primeira vez, Vanessa acredita ter sido necessário evoluir como artista para ter coragem de se desafiar por novos caminhos. Com o intuito de divulgar o novo trabalho, ela entrou em turnê e pretende rodar o país levando os seus maiores sucessos para o grande público.

Capa do disco “Quando Deixamos Nossos Beijos na Esquina” (Foto: Rodolfo Magalhães)

Em um papo exclusivo e descontraído com o site Heloisa Tolipan, a cantora opinou sobre a atual realidade política do país e comentou sobre o cenário da música brasileira. Detalhes do novo álbum, participações e as novidades que irão compor suas futuras apresentações também ganharam destaque. Confira!

Heloisa Tolipan – Quais as inspirações que levaram você a produzir o disco?

Vanessa da Mata – Mais do que nunca o amor foi a grande inspiração nesse disco. É o mais autoral dos meus trabalhos. Fiz a produção, propus arranjos diretamente aos músicos, criei a dinâmica sonora do álbum como captação de voz, mixagem, acentuando ou reduzindo as intenções dos instrumentos em função de cada canção. ‘Quando Deixamos Nossos Beijos Na Esquina’ traz personagens separados, mas que fazem parte de uma exposição, de um beijo cheio de sentimento, em um momento em que as pessoas não dialogam. As pessoas se matam por ideais diferentes e tentam colocar outras em ‘caixinhas’ compatíveis com as delas. Não suportam que o outro pense diferente, como se isso fosse até uma ofensa pessoal. É um disco sobre isso, junto com uma comemoração do amor, um pedido de paixão, crônicas de um cotidiano brasileiro que me incomodam e me aliviam. Essa é a ideia do disco.

A cantora deu detalhes da produção do seu mais recente trabalho (Foto: Rodolfo Magalhães)

HT – O disco tem uma parceria com o Baco Exu do Blues. Como foi trabalhar com ele?

VM – Baco Exu do Blues me impressionou muito nas letras, na juventude dele, de saber o que quer, nas brincadeiras de ser um rapper diferente, de poder sorrir e falar de coisa sérias ao mesmo tempo. Ele tem um discurso político interessante, fortalecedor, empreendedor do negro brasileiro que é extremamente necessário, mas também tem a molecagem dele viva ali. Acho que eu tenho essa molecagem também muito forte. Ouvi ele tocando, vi o discurso e curti muito. Quando conversamos e mostrei tudo, ele quis fazer e imediatamente fomos ao estúdio. Ele é como eu, fazemos letras meio freestyle. Fico feliz que a parceria deu certo.

HT – Esse é o seu sétimo álbum de estúdio. Como você mudou, enquanto artista, desde então?

VM – Acho que existem vantagens excepcionais em amadurecer e ter experiência no que diz respeito a esse tipo de carreira. Tive fortes e talentosos produtores que escolhi e músicos que admiro. Isso foi me dando chance de opinar, entender e perguntar. Quando fiquei mais segura, assumi a produção, e não só ela como o disco todo é autoral. São coisas muito sensíveis, pois o produtor dá o limite ao artista em muitos momentos e em raras vezes volta atrás em uma música. Em duas canções que quase estiveram de fora, acreditei no potencial da melodia e dei uma segunda chance nos arranjos. Com isso, o trabalho ficou mais coeso. São elas: ‘Quando Deixamos Nossos Beijos Na Esquina’ e ‘Vá Com Deus’.

HT – É a primeira vez que você se aventurou como produtora musical do trabalho. Como foi essa experiência?

VM – Acho que como eu tive que ser prática e ao mesmo tempo dissociar a artista da produção em muitos momentos, consegui andar logo no processo. Ao todo foram dois meses de produção. Isso é muito pouco para o mercado. Para você ter ideia, normalmente uma produção dura, do início ao fim, no mínimo três meses. Entramos em um estúdio que tinha acabado de trabalhar com outro artista por nove meses. Para mim, tudo isso significou um desafio e, ao final, uma vitória, inclusive na minha organização em compor, agir e produzir.

Vanessa falou sobre a evolução musical que aconteceu em sua carreira com o passar dos anos (Foto: Rodolfo Magalhães)

HT – Qual a sua opinião sobre o atual cenário musical brasileiro?

VM – O cenário musical brasileiro é um entreposto entre cansaço e muito investimento em apenas um dos lados. A MPB perdeu muito o público mais jovem e precisa ser reconquistado. Há um mundo perdido entre os investimentos das gravadoras ao que vende mais facilmente e não mais no duradouro. Uma parte do público não sabe mais aonde achar o artista mais jovem da MPB, que hoje em dia tem vários nomes. Pra mim, pode ser MPB de música poética popular brasileira ou música contemporânea brasileira, mas existem muitos artistas maravilhosos tentando sair do alternativo e se manter no mercado que dê para sobreviver após o terceiro disco.

Precisamos de mais interesse do público por letras melhores e produção na própria música. Vejo muitas pessoas pagando mais de mil reais em artistas internacionais e não querendo pagar o mínimo para levar uma boa equipe para artistas que dão emprego aqui, e que estão começando, que falam a própria língua, que falam do seu cotidiano e o representa num sentido ampliado. Ainda vejo pessoas com uma ‘síndrome de vira-lata’ enorme, achando que artista internacional tem leds enormes, 30 dançarinos, jatos, marketing e videoclipes caríssimos, são bons e mais importante. Me lembro que as pessoas achavam que “Boa Sorte” era do Ben Harper, e quando eu dizia que ele tinha acrescentando a parte dele na música já pronta e que a letra em inglês era exatamente a minha letra em português, elas se decepcionavam.

O artista americano, por exemplo, tem ajuda financeira para montar seus shows com leis de incentivo fortíssimas. Isso acontece no começo e mesmo depois de famosos, pois eles movimentam turismo. Quando vejo artistas grandes brasileiros lotando estádios numa produção brasileira erguida na raça, sem ajuda e com brasileiros pagando 1/3 do valor que seria uma grande produção internacional, fico orgulhosa deles. A música brasileira é uma das melhores, e quem diz isso é o mundo, não sou eu. O que me causa dor é ver artistas de terceira idade, sambistas maravilhosos, que não conseguiram seguir de maneira abrangente na imprensa. Embora continuem ótimos, compondo e cantando.

No segmento sertanejo, por exemplo, muitos do agronegócio se juntam e investem em artistas de início. Quando o artista grande começa a mudar o público, eles já trazem outro para formar outro. Isso é manipulação e esperteza de mercado também. Infelizmente na MPB não temos essa produção, nem essa aposta. Se por acaso pessoas intelectuais ou admiradores com grana tivessem tido essa ideia há dez anos, o mercado teria sido mais propício a outro tipo de música. O mercado é de quem investe com inteligência.

Segundo a artista, os cantores brasileiros merecem mais prestígio por parte do público (Foto: Rodolfo Magalhães)

HT – Atualmente as músicas são consumidas de maneira muito rápida. Artistas de um hit aparecem e somem. Como você avalia esse consumo efêmero?

VM – Acho que é a mesma coisa de sempre. A diferença é que agora existe o artista de internet, que ganha alguma grana com a curiosidade e outras coisas. Não são artistas de carreira e isso é perigoso para eles. O mercado está acostumado a dragar, causar e cuspir. Sempre foi assim. Antes mesmo já existiam mulheres e homens que cantavam ou atuavam e falavam mais de sexo e menos assuntos variados de maneira a construir ideias. O sexo vende muito, é rápido e não julgo quem o use. O problema é que quando começar a não ter para onde ir, isso se tornará enjoativo, e tudo o que é demais é jogado fora e substituído em seguida. O público percebe. Estou falando isso porque o que vejo nos meninos e meninas da música é desesperado e competitividade demais, e isso é uma armadilha. Torço pelos artistas brasileiros, porque sei o quanto é duro, mas não espero apenas cinco anos de história tendo eles investido todo o dinheiro que ganharam em videoclipes e/ou tentativas desesperadoras de se firmar aqui ou lá fora. Hoje em dia muitas conquistas são pagas e vendidas como reais, mas não são nem nunca foram. Essas mentiras custam muito. A geração da internet compra seguidores, visualizações e não comporta as curtidas com a falta de público ou de shows. Tem muita mentira chamada marketing.

HT – O que mais toca no seu Spotify atualmente?

VM – O Terno, Tulipa Ruiz, Baco Exu do Blues e Emicida, sempre procurando rap nacional, pois acho que eles estão investindo em letra e isso me agrada. Também tem a galera que curte violão, guitarra e poesia, como Mahmundi, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Maria Bethânia, Rita Lee e Chico Buarque. Internacionais como Miguel, Oumou Sangare, Habib Koité, Ali Farka Touré, Janara e Buika.

Caetano. Gil, Bethânia e Emicida são alguns dos artistas  brasileiros que ela mais escuta (Foto: Rodolfo Magalhães)

HT – Quais as novidades que você trouxe para a atual turnê? Qual a sensação de poder rodar o país e encontrar seus fãs?

VM – Acho que tudo é novidade. Além do show, temos cenário, que são meus também, a parte musical, e a direção. A liberdade de criar e recriar foi total. É maravilhoso poder transmitir um trabalho tão autoral ao público. Estou muito ansiosa para cada apresentação, acho que vai ser muito bom. Espero que gostem.

HT – Qual a sua visão perante o atual cenário político e social do país?

VM – Acho tudo muito manipulador de todos os lados. Sou o tipo de pessoa que acha inocente demais colocar o meu nome em qualquer político, ainda mais no cenário brasileiro de sempre. Por outro lado, também acho ridículo dizer que não gosto de política, pois isso influi em absolutamente tudo. Acho que nesse momento estamos vivendo uma guerra de egos e manipulação, perseguição política artística e pessoal de qualquer cidadão que esteja do lado contrário de quem esteja no poder. O cidadão precisa estar em alerta, pois não somos íntimos deles. Há uma clara pressão de empresários para aprovar leis de acordo com interesses privados. Eles agem como se fossem donos do Brasil, das terras, do meio ambiente, de tudo. No mais, temos que lutar pelo que nos interessa. Isso não é jogo de futebol e não pode ser encarado com paixão e febre. A falta de investimento na educação me adoece. A instrução é essencial para o cotidiano de qualquer indivíduo. Saber falar, se entender, se reinventar e não permanecer primitivo sem saber sequer se pronunciar. Atacar o outro por ele ter opinião diferente é, com certeza, gerado pela falta de limites. Ainda mais em um país como o nosso, onde quem tem poder acha que pode tudo. Até fazer coisas erradas sabendo que não pagará por isso. A ética também vem com educação e espero que isso seja levado priorizado.

Vanessa admite estar insegura com a atual realidade política do país (Foto: Rodolfo Magalhães)

 

Pesquisas relacionadas