Música & Badalo

Nando Reis canta músicas religiosas de Roberto Carlos: “Prestei atenção em interpretar sem ironia ou desrespeito”

O ex-Titãs disse ainda: "'Nossa Senhora' é uma melodia maravilhosa e eu substituí a devoção de Roberto Carlos por Nossa Senhora pela minha por João Gilberto, já que canto inspirado nele"

Publicado em 22/04/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Karina Kuperman

Nando Reis conheceu sua mulher, Vânia Reis, em 1978, quando tinha apenas 15 anos. Coincidentemente, no mesmo ano, Roberto Carlos lançou seu vigésimo primeiro álbum. Foi com essa memória afetiva que o ex-Titãs decidiu regravar algumas das canções do repertório do Rei, relacionando-as com sua própria linguagem como compositor. Mas a escolha de três músicas em especial – “Nossa Senhora“, “Todos estão surdos” e “A guerra dos meninos” – têm temática religiosa. Tudo a ver com RC. Mas e Nando? Declaradamente ateu, ele compôs lá atrás para os Titãs… “Igreja“, que tem em seus versos… “Eu não gosto de padre/Eu não gosto de madre/Eu não gosto de frei/Eu não gosto de bispo/Eu não gosto de Cristo/Eu não digo amém (…)”.

Nando Reis começa a turnê do novo álbum em junho (Foto: Jorge Bispo)

Se o cunho religioso está presente durante boa parte da história de Roberto Carlos… para Nando foi um enorme desafio. “Eu tenho uma maneira diferente de pensar. Não sou um homem exatamente religioso. Mas também, ao meu ver, a grande divindade da música está na forma como ela foi concebida. Roberto é um católico, um homem que escreveu muitas canções sobre Jesus Cristo, religião… é um devoto… Eu não sou, nem creio em Deus. E escolhi essas três canções para cantar. Então, eu tive que prestar atenção em como interpretar sem parecer nenhum grau de ironia, desrespeito ou hipocrisia. É claro que a canção se presta a inúmeras interpretações. No meu caso, ‘Nossa Senhora‘ (Nando apenas cantarola sem utilizar a letra da música) é uma melodia maravilhosa e eu substituí a devoção de Roberto Carlos por Nossa Senhora pela minha por João Gilberto, já que canto inspirado nele”, explicou em um vídeo no seu canal no Youtube sobre o novo trabalho batizado “Não sou nenhum Roberto, mas às vezes chego perto“. E Nando acrescentou: “Lutei muito depois que escrevi ‘Igreja‘, continuo não crendo em Deus, mas aquela acidez, quase hostilidade, hoje é diferente. Respeito a fé de cada um. E o que está por trás é o amor. Eu acredito no amor”.

Outra polêmica do disco recém-lançado é a relação de Nando com Ronaldo Bôscoli. É que o ex-Titãs escolheu “Procura-se”, de 1979, fruto da parceria entre Bôscoli e o Rei, para integrar o álbum. Trata-se de uma espécie de pedido de desculpas. Explicamos: Bôscoli, produtor, compositor e jornalista morto em 1994, foi citado de forma crítica na canção “Nome aos Bois”, dos Titãs, de 1987, que elencava “os piores seres humanos do mundo”, na visão da banda. “Acho que, hoje em dia, eu deixei aquela intolerância juvenil de lado. Ao Ronaldo, peço uma reconsideração por ter incluído seu nome naquela canção tão áspera, reconhecendo a beleza não só desta, mas de tantas outras canções que compôs”, disse no vídeo, referindo-se à letra que causou polêmica por conta da citação de 34 nomes de pessoas que se tornaram famosas pelos males que causaram à humanidade. Ao lado de Bôscoli, Hitler, Stalin, Medici e Franco entre outros nomes integram a letra da música.

Todo o processo de “Não sou nenhum Roberto, mas as vezes chego perto” começou no sítio da família Reis, em Jaú, interior de São Paul. A ideia nasceu de uma inspirada viagem de carro até o local. Uma caixa com mais de 10 CDs do Rei acompanhou Nando e Vânia, na estrada. Foi ali, no caminho que separa a capital paulista de Jaú, o reencontro de Nando com as canções que costuraram tantos momentos com a amada desde o início do namoro.

Nando Reis regravou letras icônicas de Roberto Carlos (Foto: Jorge Bispo)

O trabalho tem produção do baterista Pupillo Oliveira, ex-Nação Zumbi, e direção artística de Marcus Preto, e contém 12 faixas que abrangem 23 anos da obra de Roberto Carlos, de 1971 até 1994 – já que Nando optou por não incluir canções do período da Jovem Guarda. De imediato, o projeto teve o aval do Rei. No entanto, quando submeteu sua lista de músicas pré-selecionadas para aprovação de Roberto recebeu duas negativas: “Detalhes” e “De tanto amor”. “A primeira providência quando tive a ideia desse disco foi ligar para o Roberto. Liguei para o empresário dele, Dodi Sirena, e ele ficou muito feliz. Até o momento que o Roberto me ligou. Foi um choque. Eu estava na estrada e quase bati o carro. Foi a primeira vez que nos falamos sobre esse disco, e haveria show dele duas semanas depois. Fui no camarim e ali conversamos. Foi muito encorajador. Estou curioso para saber a reação dele quando ouvir o disco”, contou. Apesar de não querer abrir mão de nenhuma das músicas, Nando lutou pela segunda – isso porque “De tanto amor” foi parte de toda simbologia do casamento entre ele e sua Vânia. Dito isso, o Rei dos românticos, claro, aceitou, e a canção é a segunda faixa do álbum, que começa com “Alô” – melodia que Nando considera arrebatadora. O músico deu a “Alô”  um arranjo totalmente novo: tirou a cara de anos 90  – com excesso de teclados e estúdio – e colocou-a com a cara dos anos 70. “O Erasmo Carlos também foi incrível. A minha ideia para esse disco era dizer através das regravações a minha admiração por eles e como estão presentes no que eu faço. É uma homenagem aos dois”, afirma Nando Reis.

Me Conte a Sua História”, a terceira música, foi uma das últimas a serem finalizadas no estúdio. “Pupillo foi genial quando sugeriu o arranjo que ficou gravado. E é uma música em que fiz uma intervenção. Durante a gravação, encaixei versos de um poema de minha autoria”, contou Nando. O texto faz alusão a um narrador romântico que descreve a cena de um encontro impactante com a mulher amada.

A ideia de fazer uma releitura da obra de RC surgiu durante uma viagem de Nando com a esposa (Foto: Jorge Bispo)

“Amada Amante” é um marco de Roberto e foi uma das faixas que Nando fez questão de manter com um arranjo semelhante ao da gravação original, de 1971. “Não acho que haja uma necessidade de desfigurar versões originais sempre que se regrava uma música. Muitas vezes, a beleza da música está nela própria, na sua essência tal como está, por isso decidi manter o arranjo da canção original”, afirmou.

 “Abandono” é enredo de uma narrativa poética que assina de forma breve e direta o recado à mulher amada. A seguinte, “Vivendo Por Viver”, por outro lado, fala sobre a distância da tal amada. Essa foi uma das primeiras escolhas definitivas de Nando para o disco. O refrão comovente de “A distância/ Me tira pouco a pouco a esperança/ De ter você comigo novamente/ E reviver aquele nosso grande amor” foi interpretado por Nando de forma sutil e emotiva. “A melodia é incrível, eu amo. Retrata, sobretudo, a beleza, mesmo que haja dor na letra. Foi uma das que mais gostei de regravar”, disse.

Nando Reis e Roberto Carlos (Foto: Reprodução)

“Nosso amor” já era tocada por Nando muito antes da ideia de conceber desse álbum e, claro, não ficaria de fora. Isso porque ele ouviu uma versão de Marina Lima na turnê de seu disco “Olhos felizes”, de 1980, que o encantou. Foi “Você em minha vida”, a décima canção do álbum, o gatilho para que Nando decidisse, na viagem de férias de 2016, dar sua própria versão à obra de Roberto Carlos. “Ela abriu toda a perspectiva para a concepção da obra em si, depois que fui tirando as canções no violão e notando a beleza enorme delas. O arranjo de cordas ficou lindo”, lembrou.

Essa não é a primeira vez que Nando faz homenagens a nomes da MPB. No show de “Bailão do Ruivão”, ele chegou a cantar sucessos de Rita Lee, Roupa Nova e Tim Maia. Apesar disso, é seu primeiro álbum em estúdio fora da seara autoral. O álbum acaba de ser lançado e, desde o último dia 19 – data em que Roberto Carlos comemorou 78 anos -, está disponível em todas as plataformas digitais. A turnê começa dia 12 de junho pelo Rio de Janeiro. E Nando afirma no vídeo abaixo: “Não sou o Rei, mas sou um Reis”.

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