Naldo Benny, do novo disco “Sarniô” à polêmica do cachê baixo: “A crise do país e os formatos de shows diferentes estabeleceram outros valores”


Dois dias antes do novo show estrear no palco do Barra Music, no Rio de Janeiro, Naldo conversou com HT e falou sobre o álbum recém-saído do forno: “Tenho a sensação de começar do zero, porque é um disco de inéditas e isso mexe muito com o emocional”

*Por Karina Kuperman e Lucas Rezende

De “desandou das idéias (sic)”, passando por “tanto criticava esses cara que rebola e pintava o cabelo, daqui a pouco vc tah (sic) igual a eles” a “os guardinhas do rap vão ter um AVC”. Foram daí para baixo os comentários que Mano Brown, vocalista do Racionais MC’s, teve de ler quando aceitou o convite de Naldo Benny para deixar a quebrada paulistana e juntos caírem no pop-funk carioquíssimo para uma faixa do disco “Sarniô”, segundo de estúdio do funkeiro. As críticas, para Naldo, vieram dos que “são novos, mas de cabeça velha”. “Estou perpetuando uma situação que nunca existiu, é histórico. A nossa historia é isso. O negro e o menos favorecidos sempre sofrem. Temos a obrigação de quebrar paradigmas e estamos quebrando mais um”, disse em entrevista exclusiva ao HT dois dias antes de lançar o álbum com show no Barra Music, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Naldo Benny

(Fotos: Washington Possato)

Comentários parecidos também atingiram o trabalho quando a capa, com o rosto de Naldo feito pelo artista plástico pernambucano Romero Britto, veio à tona. “Cada país tem o POPART que merece” e “imagina se Romero Britto fosse seu amigo” foram alguns deles. O que Naldo achou? “Muito bom. Polêmica sempre vai existir e eu respeito. A minha opinião é que o Romero Britto é incrível e merece todo o respeito. Ele é um artista pop e eu também sou. Somos amigos de se falar no telefone, de se encontrar. Ele já pintou pessoas consagradas e sou muito feliz por estar nesse meio”, falou. Palavras, aliás, de quem deseja ser conhecido pelo lado 1001 utilidades: “Quero que entendam que eu sou um artista, um cantor, um intérprete, compositor e posso cantar desde Frank Sinatra a Cidinho & Doca (de “Rap das armas”).

Com tom de voz calmo, beirando a meiguice, sem se exaltar nem quando a reportagem toca em assuntos delicados como a queda de seu cachê (segundo o jornal Extra, o valor despencou de R$ 120 mil para R$ 15 mil) e a contratação para shows, Naldo transparece a tranquilidade que, segundo o próprio, sua vida pessoal imprime na profissional. Nessa entrevista, Naldo Benny fala a verdade sobre os boatos de uma carreira gospel (tudo começou após ele participar de um show do cantor gospel Thalles Roberto), a vida com Ellen Cardoso, o nascimento de sua filha (Maria Victória, que veio ao mundo em fevereiro deste ano), os rumos internacionais de “Sarniô” e o possível adeus à libertinagem em suas canções. Será o fim do “falar besteiras no seu ouvido até você gozar?”. A seguir, nada como a sinceridade.

HT: O que muda, musicalmente, do “Na veia”, seu último grande trabalho, para o “Sarniô”?

NB: Musicalmente o que muda é que quando eu fiz o DVD “Na veia” algumas músicas já eram conhecidas, já tinha trabalhado algumas canções por três anos como “Chantilly” e “Na veia”. O “Sarniô” chega muito fresquinho, com músicas novas que não podemos nem medir ainda, já que começamos a trabalhar o Brasil todo agora. Tenho a sensação de começar do zero, porque é um disco de inéditas e isso mexe muito com o emocional. Fico emocionado, lembro do início da minha trajetória, da ausência da minha mãe e do meu irmão. Bem no começo eu os tinha como pilar e eles desejavam muito isso. É uma mistura de alegria e concentração porque requer energia, positividade e carinho com a obra. O disco é até mais dançante do que o “Na veia”, tem três músicas românticas. Depois que descobrirem o álbum vão ver que é pra frente. A própria “Sarniô” é um funk. Se ouvirem todas as faixas, as 17, a grande maioria, uns 80% é de funk, do som que nasce no Rio de Janeiro.

HT: O Naldo que cantava “pega o chantilly na hora de sentir prazer” e “quando o fogo lamber, te puxar, te agarrar” continua aí ou a libertinagem foi deixada de lado?

NB: Se você ouvir as letras tem isso também. É uma vertente minha, uma identidade. Mas não me prendo a isso, mudo os temas porque se não fica repetitivo. Não teria porque ficar só falando “chupar” e “lamber”. Por isso achei legal a “Meu bem”, onde falo de amor, romance. Fiquei mais pop e musical.

HT: Quanto tempo o disco demorou para sair?

NB: No total oito meses. Comecei a compor para o disco e não tinha a ideia de gravar agora.  Queria esperar um ano, mas aí analisei o DVD “Naldo Benny Multishow Ao Vivo” e vi que foi em 2013. Já estava no tempo exato. E passa muito rápido. Quando eu vi já estamos em 2016 quase.

HT: Enquanto o “Sarniô” era feito, esses oito meses se passavam, como estava o Naldo homem, marido e pai? O que a vida pessoal reflete no disco?

NB: Minha tranquilidade. Hoje eu vivo um momento mais maduro com a Maria Vitoria (sua filha com Ellen Cardoso) que me enche de alegria todo dia, com a minha mulher feliz, a carreira continuou com shows, projetos. Tinha feito meu estúdio em casa e isso facilitou porque fiquei criando dentro de casa, clima de leveza de uma criança chegando (Maria nasceu em fevereiro deste ano). Romero Britto me deu a capa que também tem esse colorido, a alegria.

Naldo Benny

HT: Ouvimos por aí que seu cachê baixou e que seu ritmo de shows diminuiu. O que tem de verdade nisso?

NB: Isso é por causa do formato de shows diferentes. É só usar raciocínio lógico: se eu cobro o cachê para uma prefeitura, não tem como cobrar igual numa casa de shows. A realidade do país mudou pra todos, não só para o artista. A crise do país e os formatos diferentes de shows estabeleceram outros valores de cachê. A casa noturna nem nos comporta às vezes. Tocar num palco grande e numa casa de shows para 500 pessoas é diferente. Então, lógico que o valor vai mudar.

HT: E aquela história de carreira gospel? De onde saiu esse boato? O que aconteceu naquele momento?

NB: É verdade. Fui criado na igreja, não é boato. Sou amigo do Thales (Roberto, cantor gospel), ele é padrinho da minha filha. Tenho maior carinho e amor, falamos das mesmas coisas. Temos uma verdade na amizade e fiquei amarradão em escrever o som com ele. É minha religião. Não sou cristão assíduo, mas é o Deus que eu creio. Mas meu trabalho é meu trabalho. Poderia ser umbandista, budista. Não misturo o trabalho e a religião. Pensaram isso porque gravei a música com o Thales. Mas eu continuo com a minha carreira normal.

HT: O que pode adiantar de carreira internacional? Você tem shows marcados já né?

NB: Tenho! Mas agora estou muito concentrado na quinta-feira no Barra Music. Sei que ano que vem tenho turnê pela Europa e Estados Unidos. Esse ano fiz quatro shows na Europa. Estou concentrado nesse disco que é um trabalho incrível. Tenho recebido elogios da crítica, diretores de gravadora que tenho amizade já me mandaram e-mail, me deram parabéns. Isso é um ponto a favor pra mim.

HT: E o que podemos esperar para daqui dois dias no Barra Music?

NB: A galera vai se surpreender. Estou pensando em tudo com cuidado e carinho, há alguns dias dormindo pouco e ensaiando muito. Tenho muita vontade de fazer as coisas pelo meu trabalho. Sei que tem uma galera que curte meu som e respeito eles. Sou perfeccionista, inovador. É show novo! Literalmente novo: repertório, ballet, figurino, cenário e luz. Não vou colocar todas do disco, porque está acabando de chegar nas lojas. Estou inserindo as novas aos poucos e coloquei os hits. Fora as que já tem o clip, que estão na rua, não tem como deixar de fazer, mas não dá para fazer o disco todo.