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Na The Week, com Preta Gil: bloco da cantora faz seu primeiro ensaio e ela é coroada como Rainha do Carnaval Gay

Em entrevista exclusiva, cantora fala sobre o afeto com o público, o posto de diva LGBT, os preparativos para a folia de fevereiro e o casamento de véu e grinalda

Publicado em 09/01/2015 | Por Heloisa Tolipan

*Por João Ker

Hoje em dia é fácil afirmar que o Bloco de Preta Gil é um dos mais populares durante o Carnaval carioca, arrastando mais de 500 mil foliões pelas ruas do Centro em 2014. Desde que começou a existir em 2010, a folia caiu tanto no gosto do público gay – como era de se esperar – quanto no das pessoas que se contagiam com a energia e carisma impressionantes da cantora. Acostumada a se apresentar regularmente na boite LGBT The Week, Preta estava afastada de “sua casa”, como ela mesma chama, desde fevereiro de 2013, quando o estabelecimento fechou as portas para uma reforma geral, atravessando a Rua Sacadura Cabral e inaugurando seu novo espaço no última dia 29 (como você viu aqui). Na noite desta quinta-feira (8/1), a cantora de “Sinais de Fogo” fez a volta triunfal ao seu lar na noite do Rio e, com a casa lotada, deu início às comemorações com o primeiro ensaio do “Bloco da Preta” em 2015. HT esteve por lá e conta tudinho sobre o aquecimento.

Preta Gil no camarim, momento antes de subir ao palco da The Week para o primeiro ensaio do Bloco da Preta em 2015 (Foto: João Ker)

Preta Gil no camarim, momento antes de subir ao palco da The Week para o primeiro ensaio do Bloco da Preta em 2015 (Foto: João Ker)

“Eu estou super feliz de voltar aqui. Com vocês, eu me sinto em casa! Posso até falar palavrão, apesar de eu não falar mais tanto como antigamente. Como as coisas mudam com a idade, né? Vou até falar um palavrão forçado: APLAAAAAUDE, C****!” É assim que Preta Gil se relaciona com seu público em cima do palco: descontraída e à vontade,  praticamente íntima das milhares de pessoas ali dentro. “É uma sensação muito gostosa de voltar aqui onde tudo começou. Um retorno às origens. O bloco nasceu aqui, bem pequenininho, tanto que ensaiamos o verão todo de 2009. Ele acabou não saindo na rua, porque eu nem sabia que precisava de autorização, achava que era só juntar todo mundo e ir”, comenta animada.

Preta Gil apresenta “Sinais de Fogo” na The Week

Essa popularidade que Preta carrega entre o público gay a acompanha desde o início da carreira, quando a a artista era uma das poucas que defendiam em alto e bom som os direitos LGBT, colocando a cara à tapa na mídia. E é com orgulho e afeição que ela diz carregar essa bandeira de diva gay: “A minha identificação com esse público é natural e espontânea por uma questão de afinidade. Eu sou muito livre, estimulo o amor e as pessoas serem felizes. O que não existia antes era um lugar específico para gays como a The Week. O legal da “Noite Preta”, que costumava ser aqui, é a quantidade de héteros que começaram a frequentar o lugar . O que eu prego de verdade é a diversidade e a inclusão. Eu mesma, particularmente, nunca fui de gueto. Sempre convivi em todos os lugares, com todas as classes sociais, raças e credos. Sou muito sem preconceitos e isso é algo que eu estimulo. Meus amigos perguntam: ‘Ah, mas é show em boite gay?’. É em boite. Quem vai, eu não pergunto. Eu não consigo olhar para uma pessoa e dizer se ela é gay, entende?”.

E continua: “Eu olho e vejo homens, mulheres, casais héteros, casais gays, senhores, senhoras, crianças… É tudo muito diverso. O que eu acho mais importante é: todo mundo conviver em harmonia. Nunca ouvi falar de um caso de homofobia no meu bloco ou em algum dos meus shows”, explica. Durante sua apresentação na The Week, Preta assume mesmo o seu lado de defensora do público LGBT, gritando: “Somos todos contra a homofobia!!!”. A casa noturna, claro, urra em resposta. Ela é realmente a Rainha do Carnaval Gay carioca. O fato de estar à frente de um show regular por mais de seis anos em uma das maiores noites desse segmento no país é apenas mais um item em uma extensa lista de motivos para a sua coroa brilhar. Preta carrega carisma, irreverência, atitude, bom humor, talento, rebolado e carinho genuíno por sua legião de fãs. E não como ídolo intocável e inatingível no palco, mas sim como uma amiga conselheira que é idêntica a eles. Ela sabe muito bem conjugar o pajubá (vocabulário usado pelos gays e travestis), grita coisas como “Bicha truqueeeeira” ou “Agora agarra na neca do bofe e faz a desentendida” e consegue mostrar simpatia até para as novatas que invadem seu palco. Em determinado momento da noite, ela pergunta ao público: “Tem algum hétero aqui?”. Uma quantidade surpreendente de pessoas levanta a mão e ela responde: “Sejam bem-vindos entre a gente”. Pois é, quando Preta diz que seu público é eclético e ela abraça essa diversidade, não é apenas um daqueles discursos da boca para fora.

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Até entre as próprias nuances do arco-íris gay, Preta Gil parece ser unanimidade. Não é por menos, já que ela é praticamente onipresente nos programas de TV, já passou por novelas e agrega milhares de seguidores em redes sociais, fora todos esses motivos que você leu acima. Ali, na The Week, grupos de rapazes com shortinho acima do joelho fazendo coreografia na frente do palco se misturam com gente na casa dos seus 40 anos usando camisas com estampas de São Jorge. Camisetas da Versace para Riachuelo se mesclam com tênis da Osklen e sociais da Dudalina, da mesma forma que é possível encontrar senhoras, um casal de lésbicas, no qual uma calça salto alto com vestido vermelho colado e decotado e a outra usa tênis com macacão além de, claro, as “Barbies” marombadas que sempre amarram a camisa no cós da calça em meio ao vuco-vuco da boite.

Um grupo de amigos da capital mineira, curtindo as férias de verão no Rio de Janeiro, diz que ama Preta Gil e já foi ao bloco tanto em Belo Horizonte quanto em Cabo Frio. Luiz Hermeto, advogado de 24 anos, concorda que a cantora é a Rainha Gay do Carnaval, e explica: “Ela libera a galera. Incentiva todo mundo a se divertir. Quando a vi ao vivo, foi o dia mais gay da minha vida”, comenta entre risos. Bernardo Azevedo, carioca de 26 anos, diz que já foi ao show umas quatro vezes e que também acha merecido o posto, porque se identifica com a personalidade de Preta. Seu amigo Alisson da Silva (19), que é de Manaus e está conferindo a performance da artista ao vivo pela primeira vez, também acha o posto merecido: “A energia dela é incrível!”, declara.

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O amor que Preta Gil prega em seus shows e na sua vida parece estar saindo de seus poros. Isso por que ela já está com casamento marcado para maio, o primeiro em que ela subirá ao altar de véu e grinalda com Rodrigo Godoy, que estava bem ali ao lado da cantora no camarim, sob seu olhar atento. Ao falar sobre o assunto, os olhos da mulher brilham mais que seu vestido reluzente e seu microfone prateado: “Eu estou louca com tudo. Nem durmo, né? Imaginando ver a igreja, entrando de noiva com meu pai, depois a festa…”, vai comentando super empolgada. Apesar de este ser o sonho de grande maioria das mulheres, ela diz que é a primeira vez que pensou no assunto: “Foi depois que eu o conheci. Sabe aquele homem que você vê e fala ‘esse aí é para casar’? Foi isso, só com ele. Eu digo que tenho 40 anos, mas estou vivendo um momento em que tudo é muito novo e eu estou muito eufórica. Nunca senti isso antes”.

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Neste Carnaval, Preta Gil fará 22 apresentações entre os 8 e 20 de fevereiro, uma maratona de quatro shows a mais que a do ano anterior, para a qual ela se prepara intensificando os exercícios e fortalecendo os músculos das pernas. “Eu não sou muito a favor de ficar assim no osso. O físico e a cabeça são essenciais para aguentar o tranco. Já teve muito Carnaval que eu fiquei na mão e passei mal logo no fim. A meta deste ano é ir além. Como o Rodrigo diz: ‘vamos sempre progredir, nunca regredir'”, comenta. Devido ao grande número de pessoas que devem comparecer à essa folia, o trio elétrico de Preta Gil ficará estacionado na Avenida Rio Branco em 2015. Mas, dado seus antecedentes, a única parada por lá será o próprio trio. A conferir!!

Preta Gil no primeiro ensaio do Bloco da Preta para o Carnaval 2015 na The Week

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