Música & Badalo

“Na minha infância, eu não tinha acesso ao ‘mundo’ da expressão cultural”, revela o músico Marcelo Jeneci

Em conversa com o site HT, ele nos conta detalhes sobre o processo de produção de Guaia, que durou um ano, reflete sobre o uso das redes sociais, o trabalho da cantora Maya e o Projeto Mapa

Publicado em 13/08/2019 | Por Heloisa Tolipan

Guaia de Marcelo Jeneci mistura referências paulistanas e nordestinas em uma sinfonia brasileira (Foto: Marina Benzaquem)

*Por Rafael Moura

Depois de um hiato de seis anos sem lançar um disco novo (De Graça é de 2013), Marcelo Jeneci traz ao mercado ‘Guaia‘, um álbum que vai além da linha do horizonte cruzando referências nordestinas e paulistas em uma sinfonia plantada, germinada e colhida no Brasil. “Eu nasci em Guaianases (SP), construído por trabalhadores do Brasil profundo que espalham afeto, resistência, dança, dores e cores. Lá, eu recebi a chama e o chamado para romper com música o escuro do futuro. É um trabalho que vem contar a minha história, as minhas raízes.”, explica o cantor, em entrevista ao site Heloisa Tolipan. A semente vinda da infância foi adubada quando, aos sete anos, Marcelo se mudou para o agreste de Pernambuco, onde cresceu trazendo essa mágica que é uma perfeita alquimia entre a calmaria e a grande metrópole que se fundiram gerando frutos bem frondosos. “Eu cresci numa região em que eu não tinha acesso ao mundo imaterial da expressão cultural, mas eu tinha um pai que me incentivava muito e me fazia sonhar”, revela.

A capa do álbum 'Guaia', do cantor Marcelo Jeneci que faz uma homenagem as suas raízes

A capa do álbum ‘Guaia’, do cantor Marcelo Jeneci que faz uma homenagem às suas raízes

O músico nos conta que o intervalo de seis anos entre o último álbum e esse “revelou uma desconstrução muito necessária na passagem entre velho e novo, menino e homem e toda precocidade que me habitava de ter começado tão novo, desde os sete anos, a tocar”. Uma reflexão importante para um processo de desaceleração em que vem buscando para lidar com a vida de maneira mais orgânica. “Eu pude mergulhar numa ‘terra desconhecida’, que muitos temem tanto, e nós chamamos de mistério necessário, porque é onde mora o tesão”, ressalta o artista. O processo de imersão do disco foi de um ano, mas os “afluentes” já vinham em grande ritmo em todos esses tempos de intervalo. “Hoje estou presente e em co-criação com novos autores e amigos que constrõem imagem, cenário e clipe, como foi o caso do primeiro filme feito por Chloë de Carvalho, ‘Aí Sim‘, e da capa com ensaios em Guaianases e em minha casa no Rio assinados pela Lucia Koranyi“.

O florescer desse trabalho aconteceu quando Marcelo convidou o produtor musical Pedro Bernardes que teve a missão sinfônica e imagética para produzir o disco “e traduzir minha história em um novo território sônico. Nessa busca, encontramos Lux Ferreira, produtor musical e programador que coproduz, aperfeiçoa e dá contorno ao todo”, comenta. O álbum todo é tocado pelo artista, gravado por Lux e regido por Pedro. E potencializado pelas pontuais participações de Lucas dos Prazeres na percussão, mestre Adelson Silva na bateria de frevo, Robinho Tavares no baixo de ‘Vem Vem’, e a Filarmônica de São Petersburgo nas cordas de ‘O Seu Amor Sou Eu‘. “Em ‘Vem Vem’, eu faço dueto com a encantadora e potente Maya, uma nova estrela da música brasileira que queremos que seja ouvida. E celebro as bandas de Pífano de Caruaru com a participação de Joao do Piff, Marcos do Piff e Zé Gago. Na hora da criação em trio, eu, Pedro e Lux nos entregamos e foi isso que construiu sonoridades como a de ‘Redenção‘ que une canto gregoriano, bateria de frevo e guitarra western, ilustrando o conflito entre dogmas cristãos e a força do engajamento de seguir”, contou. O disco ainda tem o pulso dançante dos sintetizadores com ‘Ritos‘, uma melodia sem letra gravada com sanfona, piano e voz, que faz parte de uma série de “mantras-pop” inéditos que Marcelo compôs nos últimos anos. A faixa sintetiza o abrigar que busco nas melodias. “Música pra mim é abrigo”, celebra.

Imagem do clipe ‘Aí Sim’ de Marcelo Jeneci que faz parte do álbum Guaia (Foto: reprodução Instagram)

Falando na jovem Maya, ela acaba de lançar o clipe “Made in Brasil”, logo após cantar a voracidade das relações, indo do amor ao ódio em forma de R&B no EP ‘Love’. Produzido pela JO!NT, a faixa é um trap politizado que antecipa o lançamento do EP “Anger”. “‘Made in Brasil’ fala sobre diversos assuntos sociais e políticos que ocorrem no Brasil, mas que por diversas experiências pessoais com pessoas estrangeiras, eu tinha chegado à conclusão de que os problemas eram mascarados. Essa música vem para tirar a máscara de paraíso tropical brasileiro e mostrar a verdadeira face de um país extremamente desigual”, explica MAYA sobre a composição.

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A última pétala se abriu quando Jeneci embarcou para Los Angeles e chegou ao estúdio do produtor musical Mario Caldato para acompanhar todo o processo mixagem. “Foi o fecho necessário ao disco e a mim como músico e profissional. O Mário é um professor e amigo que o disco me deu”. Em geral os artistas gravam seus álbuns em poucas semanas, mas para o compositor esse tempo foi necessário para “entender a força de cada elemento sonoro, para que cada música brotasse e mostrasse a sua força”. Segundo o músico, o processo desse trabalho foi não foi demorado, ele teve o tempo de maturação, um tempo orgânico e fora do relógio.

Com a frase do filósofo Mário Sérgio Cortella – “Na internet tem gente que navega e tem gente que naufraga” -, o músico nos contou sobre a sua relação com as plataformas de streaming e com as redes sociais. “Eu valorizo muito as tecnologias. São uma conquista, porque estamos vivendo em um mundo conectado, sem fronteiras, e é uma maneira horizontalizada de divulgação que dá oportunidade para todos. O diferencial é a matéria-prima que cada artista vai entregar para o seu público. As plataformas digitais e as redes sociais foram de extrema importância para acabar com o monopólio das gravadoras, mas é preciso entender a melhor forma de uso para não criar uma dependência. Eu tenho usado apenas o necessário para manter o link com os meus fãs”, reflete Jeneci.

Marcelo Jeneci em São Paulo durante lançamento do disco Guaia (Foto: reprodução Instagram)

O músico nos contou que está integrando o ‘Projeto Mapa’ que faz levantamentos sobre os valores femininos e masculinos atuais, com o objetivo de provocar mudanças na visão pessoal e profissional desses formadores de opinião multiplicando esses novos conceitos através de ações sociais, empresariais e políticas. “Cada um tem a chama e o chamado para o que tem que fazer. Eu acho fundamental que como sociedade possamos integrar esses movimentos, ainda mais no meu caso sendo artista em que eu posso a ajudar a divulgar e refletir sobre esse mapa de ressignificação do Brasil”, explica.

Reunindo lideranças de 18 a 70 anos de diferentes regiões, classes sociais e áreas de atuação o projeto Mapa inicia sua jornada de cinco dias – entre 12 e 16 de agosto -, através de uma investigação livre de preconceitos, que represente a sociedade em seu processo de transformação, sob a orientação da sul-africana Marian Goodman, líder do Innovation Leadership Labs, do Presencing Institute (MIT).

Entre os 34 participantes há nomes como o de Viridiana Bertolini, Gerente de responsabilidade social da Rede Globo, responsável pela Globo Universidade, Rosa Alegria, pioneira em futurismo no Brasil, Carlo Pereira, secretário executivo da Rede Brasil do Pacto Global da ONU, Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta, Maria José Tonelli, professora do Departamento de Administração Geral e Recursos Humanos na Fundação Getúlio Vargas, a artista, designer e escritora Mana Bernardes, Adriana Carvalho, gerente de projetos da ONU Mulheres, e Kaká Werá, escritor e político de origem indígena.

Marcelo Jeneci conta que Guaia reflete suas raízes, é como um processo de redescoberta da sua essência (Foto: reprodução Instagram)

Marcelo Jeneci conta que Guaia reflete suas raízes. É como um processo de redescoberta da sua essência (Foto: reprodução Instagram)

Durante as diversas atividades – que incluem uma visita à Terra Indígena Rio Silveira, em Bertioga -, os participantes foram convidados, a partir do seu interesse, compreensão e envolvimento na discussão proposta pela jornada, a reservarem cinco dias das suas agendas para uma imersão em um processo de reflexão sobre a dinâmica dos valores femininos e masculinos, apontando novos posicionamentos em relação ao futuro do trabalho, ao consumo, à natureza e à tecnologia em uma sociedade cada vez mais inclusiva e justa.

O resultado das conversas e descobertas vai se transformar em um documento que deve ser apresentado no final de novembro, apontando caminhos que inspire processos de inovação e amplie a consciência de forma a estimular maneiras mais poderosas e conjuntas de promover impactos positivos na sociedade.

A ‘Teoria U’, desenvolvida por Otto Scharmer, do Massachusetts Institute of Technology (MIT) é a metodologia de inovação social escolhida para guiar a jornada, abordando desafios coletivos pautados em princípios que observam que a qualidade da mudança proposta depende diretamente da consciência e da disposição dos agentes envolvidos no processo, que são orientados a deixar de lado ideias do passado para capturar o futuro confiando nas inteligências da mente, do coração e da vontade mais profunda para provocar mudanças dentro de si.

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