Música & Badalo

Na entrega do 3º Prêmio Contigo! MPB FM de Música, um brinde à diversidade sonora e ao popular. Nosso papo com os artistas

Noite misturou ritmos e gerações em premiação que consagrou nomes como Ney Matogrosso, Marisa Monte e Djavan

Publicado em 23/09/2014 | Por Alexandre Schnabl

*Por João Ker

Nesta segunda (22), o espaço do Miranda, na Lagoa, ferveu com alguns dos mais brilhantes nomes da música nacional, graças à entrega do 3º Prêmio Contigo! MPB FM de Música. Com 13 indicações, onde três recebiam a ajuda do voto popular, a noite foi comandada pela simpatia e jogo de cintura de Marisa Orth que, mesmo confundindo um nome aqui e ali, executou com estrelinha dourada o papel de mestre-de-cerimônias, com direito a cover afinadíssimo de Vingança, de Lupicínio Rodrigues (1914-1974),  o grande homenageado da noite dos nomes do samba e da Música Popular Brasileira.

Marisa Orth e Monarco no palco (Foto: Divulgação)

Marisa Orth e Nelson Sargento no palco (Foto: Divulgação)

Espalhados pela pista, palco, plateia, artistas brasileiros tomavam conta do local, em uma profusão de gêneros que iam do rap de Emicida, ao rock dos Titãs, passando pelo funk de Ludmilla e o samba de Zeca Pagodinho. E a diversidade não ficava só nos ritmos, uma vez que a mistura de gerações também impressionava, com nomes já consagrados pelos anos como Ney Matogrosso e Monarco, sentados lado a lado com o sangue novo do panorama musical brasileiro, como Tiago Iorc e Ana Cañas.

Toda essa miscelânea reflete tanto o país quanto sua música popular que, fazendo uso da palavra literal, nada mais do que o som que cai no gosto do povo. Logo, uma mistura sem fim. Como bem explicou Paulo Miklos, “a MPB é plural e democrática como o próprio país”. O vocalista do Titãs ainda foi mais longe ao falar dessa variedade rítmica: “Hoje existem diferentes rádios para todos os segmentos. E o caminho é esse. Com a internet, não há carência de espaço: desde que você desperte o interesse do público, as pessoas vão começar a buscar mais coisas sobre o seu trabalho. Tudo o que é bom consegue permanecer; agora, o que não é, passa rápido”, disse o fã de declarado de Emicida e Renegado e o responsável pela entrega dos dois prêmios de Melhor Cantora (júri e voto popular) para Marisa Monte. O amigo de banda Tony Bellotto, que estava muito bem acompanhado da mulher, Malu Mader, também comenta: “Não há nada que eu não goste na música. Eu só acho que poderia haver mais espaço para o rock”. Ele ainda se confessou fã do rap e do jeito como o ritmo ocupa o lugar de contestação antigamente dominado pelo rock. Mas a frase sobre espaço nas rádios parece ser uma sintoma generalizado, já que Zeca Pagodinho fez a mesma queixa a HT: “Há uma garotada nova e boa por aí, muita gente legal. Mas eu acho que falta tocar mais samba na rádio. Samba de verdade”.

Zeca Pagodinho entrega o prêmio de Melhor Álbum de Samba para Monarco (Foto: Divulgação)

Zeca Pagodinho entrega o prêmio de Melhor Álbum de Samba para Monarco (Foto: Divulgação)

Um dos grandes vencedores da noite (e da vida, diga-se de passagem), Ney Matogrosso, que faturou o prêmio de Melhor Cantor pelo júri oficial, diz que vê uma clara diferença entre a geração que começou junto com ele e a que está vindo agora: “O romantismo. Na minha época, a gente fazia as coisas por fazer, porque sentia vontade de se expressar daquela maneira. Hoje, eu vejo muita gente com o foco na fama e no sucesso”, disse. Preta Gil, que entregou o troféu para Ney, comenta: “Cada geração foca na sua própria verdade, claro. Mas hoje é destaque na rádio, e eu gosto dessa diversidade na MPB, de ser algo popular e que engloba todas as diferenças e segmentos. Sempre fui a favor dessa mistura de gêneros, mas, infelizmente, a indústria sempre divide tudo em categorias pré-estabelecidas”. Emicida, que faturou o troféu de “Destaque do Ano”, mostra o seu ponto de vista sobre as novas gerações: “Todas as gerações têm em comum o amor à música. Os mais antigos falam o que o espírito deles pede e eu tento fazer o mesmo com a minha arte”, declara. Assim como disse Paulo Miklos, Djavan, que recebeu o prêmio de Melhor Cantor por voto popular, acredita que o avanço tecnológico é a diferença primordial entre as gerações: “Hoje o músico tem que ser dinâmico, tem que atender a essa demanda midiática da internet”.

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A sempre eloquente e elegante Vanessa da Mata, que concorria na categoria de Melhor Álbum pelo aclamado “Segue o Som”, acredita que a mistura no atual panorama musical é latente e que, sim, há muita coisa de qualidade sendo produzida: “Ao contrário do que gostam de dizer, o cenário brasileiro não é tão aberto a novos artistas assim, mas ele consegue se renovar de tempos em tempos. Eu estou um pouco por fora das bandas e vozes ‘novíssimas’, mas sei que por São Paulo a produção é grande e há muitos artistas começando lá, já que a noite é muito forte nesse quesito e gera uma demanda. Acredito que os SESCs também têm ajudado bastante nesse impulsionamento de novos artistas”, comenta. Tiago Iorc, que foi eleito o Artista Faro do Ano (revelação) e se apresentou com música inédita na premiação, acredita que os momentos são diferentes, mas a base para os artistas de todas as gerações é a mesma: “É impossível analisar música sem considerar o cenário político. Música é cultura, logo, é um reflexo daquilo que está acontecendo. Agora nós estamos passando por um momento mais pacífico – mesmo que no ano passado tenha havido certa truculência -, mas a música manifesta aquilo que você está vivendo. No caso das gerações anteriores, havia esse viés de protesto, mas eu também não sei até que ponto isso era intencional ou apenas uma form natural de refletir sobre a própria vida. Acho que tudo é válido, desde que seja verdadeiro para o artista”.

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Todas as declarações apontam para aquilo que, hoje, parece uma verdade óbvia e absoluta: a música está em constante transformação e, quanto mais diferenças houver, melhor. Afinal, em um país que abriga tantas raças e etnias, nada melhor do que uma música plural que atenda a essa demanda tão diversificada. E, como ficou provado no Prêmio, há gente de sobra para cumprir esse papel. Confira abaixo a lista completa de vencedores:

Voto Popular

Melhor Cantor: Djavan (Rua dos Amores – Ao Vivo)
Melhor Música: “Rumo ao Infinito” (Maria Rita)
Melhor Cantora: Marisa Monte (Verdade, Uma Ilusão – Tour 2012/2013)

Juri Oficial

Melhor Cantor: Ney Matogrosso (Atento aos sinais)
Melhor Música: Purabossanova (Sérgio Britto e Rita Lee)
Melhor Cantora: Marisa Monte (Verdade, Uma Ilusão – Tour 2012/2013)
Melhor DVD: Verdade, Uma Ilusão – Tour 2012/2013 (Marisa Monte)
Melhor Álbum de Pop/Rock: Velocia (Skank)
Melhor Instrumentista: Dadi (Verdade, Uma Ilusão – Tour 2012/2013)
Melhor Álbum MPB: Atento aos Sinais (Ney Matogrosso)
Melhor Álbum de Samba: Passado de Glória (Monarco)
Melhor Destaque: Emicida (O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui)
Melhor Projeto Musical: Sambabook (Zeca Pagodinho)
Artista Faro: Tiago Iorc

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