Música & Badalo

Mr. Giant, banda de jazz liderada por brasileiro, faz sucesso em Los Angeles

Além do paulista Bruno Neves, o grupo é formado por membros de diversas nacionalidades e gerações: “É essencial para a existência da banda mantermos a ideia da pluralidade cultural”

Publicado em 17/01/2019 | Por Leticia Sabbatini

Bruno Neves, brasileiro atualmente radicado nos Estados Unidos, é uma das provas de que a música é uma linguagem universal. Comandando a big band de jazz Mr. Giant, o músico se prepara, junto aos seus companheiros de projeto, para lançar o primeiro disco do grupo, já consolidado em Los Angeles. Em conversa com o site HT, o paulista falou sobre a trajetória da banda e o desejo de trazer a Mr. Giant para a sua terra natal.

Como acontece com muitos talentos mundo afora, Bruno não tinha o sonho de viver pela música, mas esteve, desde muito cedo, inserido nela. “Sempre foi apenas um hobby, sabe? Meu pai era baterista de uma banda e eu gostava de estar ao redor deles, consumindo aquilo tudo. Apesar de curtir muito, eu não enxergava a música como uma possibilidade de trabalho, tanto que fui para outro caminho. Cursei comunicação e marketing, trabalhei na área, minha vida era outra”, contou ele, que viu a música se transformar em realidade depois de algum tempo. Em 2013, o jovem decidiu arriscar e apostou no que realmente amava: “A possibilidade de não ser apenas um passatempo foi tomando forças e eu decidi tentar algo novo”. Muito dedicado, Bruno chegou a conclusão que imergir no universo musical seria a melhor opção e por isso, foi para Los Angeles, cursar música em uma escola que funciona 24 horas por dia, durante os sete dias da semana. “O fato de você estar estudando aquilo, rodeado de pessoas que também estão é muito surreal. Na sala de aula, você tem conteúdo. Almoçando com os amigos, você tem conteúdo. E sozinho, eu passava de 10 a 12 horas praticando”, admitiu.

Bruno Neves (teclado e sintetizador), Alan Bailey (bateria), Jacob Argueta (baixo), Elijah Kai (guitarra), Edgar Paiva (guitarra), Benjamin Fortin (guitarra), Renny Goh (piano, orgão e sintetizadores), Matthew Mitchell (tenor saxophone) e Kyle Stolz (saxofone barítono).  (Foto: Abbey Williams e Daniel Zamora)

Nesse cenário, depois de muito ensaiar, o brasileiro começou a sentir falta de interagir musicalmente com outras pessoas. Por isso, ele iniciou uma prática que algum tempo depois, passou a ser uma tradição. “Comecei a fazer Jam Sessions com uma galera e acabou tendo um sucesso enorme. Toda sexta feira a gente já sabia que teríamos a ‘Jam Sessions do Bruno’, era um jeito de colocar em prática o que tínhamos aprendido durante a semana e também relaxar, improvisar”, informou. Essas reuniões, que não eram antecipadas por nenhum ensaio e aconteciam na improvisação, foram chamando mais e mais pessoas. Até que Bruno percebeu a frequência e dedicação de alguns desses músicos e decidiu tocar o projeto para frente. “Eu estava de olho em algumas pessoas que poderiam se juntar a mim, para trazer algumas músicas para a realidade. Eles não eram só habilidosos, mas compatíveis com o meu jeito de ver esse universo. Até que eu consegui um estúdio da escola para a gravação e convidei alguns nomes para gravar comigo. No fim, estávamos todos muito animados com a possibilidade desse projeto ser real e eu percebi que poderia se tornar algo mais sério”, narrou ele, o início da Mr. Giant.

Na estrada desde então, a Mr. Giant, formada por Bruno Neves, Alan Bailey, Jacob Argueta, Elijah Kai, Edgar Paiva, Benjamin Fortin, Renny Goh, Matthew Mitchell e Kyle Stolz, se consolidou no fim de 2016 e começou a trabalhar na gravação do seu EP Face to Face. As gravações aconteceram ao vivo no icônico estúdio East West, em Hollywood, onde também foi gravado o Thriller de Michael Jackson, entre outros clássicos. Para Bruno, esse primeiro projeto pode ser considerado como uma porta de entrada do grupo. “Nós utilizamos esse EP como um cartão de visitas. Los Angeles é uma cidade muito competitiva musicalmente e para você ser visto como uma banda séria, precisa ter músicas publicadas. Nosso foco foi realizar esse lançamento para que conseguíssemos marcar os primeiros shows. E acabou sendo essencial para conquistarmos um primeiro público, que começou com os nossos amigos, depois com os amigos dos amigos e assim, nossa mensagem foi se espalhando”.

Durante o processo de gravações, a banda acabou conhecendo um dos vencedores do Grammy, Dave Isaac, que já trabalhou com grandes nomes como Bruno Mars, Prince e David Sanborn. “Ele acabou ouvindo uma das músicas e disse ‘nossa, isso é muito legal!’. Nós nos conhecemos, eu mostrei mais algumas ideias e ele muito sincero nos desafiou dizendo que era muito interessante, mas que nós ainda não estávamos preparados para trabalhar com ele”, assumiu. Depois desse primeiro contato, o músico afirmou que toda a banda levou muito a sério o desafio e procurou ao máximo melhorar. Muito animado com a grande parceria no mais novo trabalho, Bruno explicou esse processo: “Nós mantivemos o contato, até que eu mostrei as músicas novas e ele finamente disse que gostaria de trabalhar conosco. Ele é uma pessoa muito inteligente, que já gravou com pessoas em um nível musical muito alto. Tem mesmo que saber escolher com quem vai trabalhar”. E concluiu orgulhoso: “Fizemos ele acreditar no projeto e hoje está produzindo as canções do novo disco”.

Depois de seguir no Brasil com a carreira de comunicação social e marketing, Bruno resolveu se dedicar à música em Los Angeles (Foto: Divulgação)

Reunindo 8 músicos de diferentes nacionalidades e idades, o recente projeto está sendo construído trazendo esse caldeirão étnico da banda para a pluralidade metropolitana californiana. “Temos pessoas de outros continentes, pessoas de outras gerações, desde um cara com mais de 30 anos, até um com 18. É uma oportunidade de além de interagir com essa diversidade, incluir isso na banda, unindo isso às minhas verdades, de quem cresceu cercado pelos ritmos brasileiros. É uma junção de influências do Brasil, com Ásia, Estados Unidos. É essencial para a existência da banda mantermos a ideia da pluralidade cultural”, contou. Para ele, essa diversidade de membros não é o único grande diferencial para a Mr. Giant: “Estamos muito animados porque diferentemente do EP, tivemos a oportunidade de escrever enquanto amadurecemos como banda. Levávamos, por exemplo, algumas ideias que tínhamos para os shows e víamos a reação das pessoas. Esse disco, além de ser escrito por nós, é moldado pela nossa interação com o público, o que gera algo muito legal, já que é um bate e volta mesmo”.

Apesar de não conhecer na pele a realidade dos artistas brasileiros, Bruno afirmou que investir na música é difícil independentemente do lugar: “Conseguir fazer com que a sua música seja ouvida, gerando um público que te respeite, te siga é muito desafiador. É preciso ser muito consistente e quase que teimoso, continuando sempre. A maioria das pessoas que vem para cá estão perseguido sonhos, então é preciso muito esforço para conseguir um espacinho na cabeça do consumidor. Não é uma carreira fácil, não é fazer só a música que você ama”. Ainda que só tenha investido na carreira musical depois de sair do Brasil, ele revelou o desejo de trazer o seu trabalho para o país que nasceu: “O Brasil nem sabe, mas tem muita influência em tudo que eu crio. Quero levar esse resultado de volta para esse lugar lindo e conseguir fazer com que gostem também. Não vejo a hora de poder realizar mais esse sonho”. O músico revelou também que existe a possibilidade de uma turnê em 2019. Será esse o momento em que a Mr. Giant pisará em solos brasileiros?

Bruno lidera a big band e têm planos de trazê-la ao Brasil (Foto: Abbey Williams e Daniel Zamora)

 

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