Mirian Martins resgata hit com Latino depois de três décadas sem o seu crédito na música e diz: “Fechando a ferida”


Trinta e dois anos após estourar ao lado de Latino em ‘Só Você’, Mirian revisita uma história marcada por ausência de crédito, confusão com dublagem e falta de reconhecimento. Hoje ela relança a própria voz em ‘Só Você Que Me Fascina” e fala da relação atual com o cantor: “Latino entendeu meu propósito de fazer algo autoral com o resgate da música que cantamos juntos e nunca fui creditada. Está tudo bem entre nós”. Revela ainda o incentivo dos filhos para não deixar sua trajetória se perder, enquanto transforma memória, autoria e reparação em um movimento de fazer as pazes com o passado e ocupar, enfim, o centro da própria narrativa. “Hoje sei o que eu quero e não aceito mais ser podada. A Mirian de hoje não permite mais imposições, nem na vida pessoal, nem na profissional. Entendi que não posso viver a história dos outros. Preciso viver a minha”

*Por Brunna Condini

Por anos, uma das músicas mais populares dos anos 1990 ecoou nas rádios, programas de TV e memórias de uma geração, com uma ausência que só agora começa a ser reparada. Mirian Martins resgata a própria voz, literal e simbolicamente, ao relançar ‘Só Você Que Me Fascina’, releitura autoral do hit que a consagrou ao lado de Latino, mas que, por muito tempo, não levou seu nome nos créditos. Trinta e dois anos após o lançamento original de ‘Só Você’, parceria que também marcou o início da trajetória do cantor com a participação decisiva de Mirian, ela revisita a canção com um novo olhar, agora assumindo o protagonismo de uma história que, como ela mesma diz, “não foi mal contada, simplesmente não foi contada”.

Por décadas Mirian viu sua interpretação ser confundida com a dublagem de outra artista (Angélica), enquanto o reconhecimento público e os créditos oficiais seguiam em outra direção. “Sou eu que canto, mas não apareço em nenhum registro da obra”, diz, sem rodeios. Ainda assim, ao falar do passado, ela evita transformar a experiência em ressentimento. Também afirma que nunca pensou em levar a questão para a justiça e faz questão de destacar a gratidão pela trajetória construída ao lado de Latino. “Esse é o legado que ele me deixa”, diz, ao lembrar do carinho dos fãs que acompanham sua carreira desde os anos 90, e que hoje apresentam a música a outras gerações: “De alguma forma, fiz parte da vida dessas pessoas”.

A relação com Latino, segue em outro lugar: de respeito, afeto e reconhecimento mútuo. “Nossa relação é de irmãos. Já tivemos momentos difíceis, ficamos afastados, mas nos resolvemos”, esclarece. Segundo Mirian, o reencontro também se refletiu diretamente no novo projeto. Latino não só foi consultado, como autorizou o uso do refrão original, essencial para a releitura, e apoiou a iniciativa:

Latino entendeu meu propósito de fazer algo autoral com o resgate da música que cantamos juntos e nunca fui creditada. Está tudo bem entre nós – Mirian Martins

Mirian Martins revisita, 32 anos depois, o hit ‘Só Você’, resgata a própria voz e transforma memória, autoria e reparação em narrativa própria (Foto: João Wesley)

Mirian Martins revisita, 32 anos depois, o hit ‘Só Você’, resgata a própria voz e transforma memória, autoria e reparação em narrativa própria (Foto: João Wesley)

Mirian prefere revisitar o episódio através da arte, e não pela via jurídica. “Estou trazendo minha história de volta para os streams, para as plataformas digitais, para o YouTube, para o Spotify. É assim que estou resolvendo isso”, resume. Mais do que um relançamento, o movimento carrega um peso simbólico: o de reposicionar uma memória coletiva, e ao mesmo tempo, devolver à artista o lugar de fala dentro de um dos maiores hits da música pop brasileira dos anos 1990, agora sem apagamentos, e com a própria voz ocupando, enfim, o centro da narrativa. Aos 56 anos, ela também fala sobre o etarismo sem romantizar o tema, mas sem permitir que ele a paralise. Hoje, apresentadora de um programa da rádio Tupi, direcionado ao público feminino (‘Mulher Mil’), a cantora afirma que esse retorno à música não nasce exatamente da necessidade de retomar uma carreira, mas de um reencontro consigo:

Minha vida estava organizada, mas sem me realizar de verdade. Esse trabalho vem muito desse encontro com a minha própria história – Mirian Martins

Em um dos registros dos anos 1990, Mirian Martins e Latino cantam a romântica 'Só Você' (Reprodução/YouTube)

Em um dos registros dos anos 1990, Mirian Martins e Latino cantam a romântica ‘Só Você’ (Reprodução/YouTube)

O resgate da trajetória também atravessa a vida pessoal de Mirian. Casada há 12 anos com o advogado Décio Freire, ela revela que parte do afastamento gradual dos palcos e da televisão aconteceu justamente nesse deslocamento de prioridades ao longo dos anos em que se dedicou mais à família. “Até por isso a minha vida artística não caminhou como eu gostaria. E essa volta vem muito disso, de eu concretizar a minha história, deixá-la aí”.

Mãe de Henrique Martins Bugarim, de 26 anos, diretor do videoclipe da nova música — composta e cantada por Mirian em parceria com Anderson Nem, músico e produtor ligado ao universo de Xamã —, e também de Rodrigo, de 15, a artista conta que foi justamente a relação com o filho mais novo que despertou nela a urgência de revisitar seu passado artístico. O assunto surgiu e acabou funcionando como um gatilho emocional para o projeto que agora amplia seu alcance ao público. “Me deixou muito mal quando o meu filho Rodrigo, que não vivenciou muitas das minhas participações na TV Globo (ela também ficou conhecida pela personagem Rosinha no extinto humorístico ‘Zorra Total’), nem na música, disse: ‘Poxa, mãe, queria tanto ter vivido você atuando, você nos palcos, cantando, você vivendo a sua vida artística. Não peguei isso, não peguei a sua história’”, relembra.

Mirian Martins entre os filhos Rodrigo e Henrique (Foto: Reprodução/Instagram)

Mirian Martins entre os filhos Rodrigo e Henrique (Foto: Reprodução/Instagram)

Foi então que Mirian percebeu que grande parte dessa memória não estava registrada oficialmente. “Quando vi, eu não tinha isso para mostrar para ele. Cadê o meu nome? Cadê as coisas? Isso me assustou”, diz. A partir dali, começou uma busca pessoal por imagens antigas, gravações de programas de televisão e registros da época em que cantava ao vivo com Latino. “Tive que garimpar registros dos 10 de trabalho na TV, dos anos de trabalho com o Latino”, completa Mirian, que também foi intérprete de ‘Te Namorar‘ ao lado do cantor: “Esse relançamento vem como uma forma de cicatrizar isso, fechar essa ferida”.

A retomada da música, no entanto, não vem acompanhada de uma fantasia nostálgica sobre o tempo. Mirian fala do envelhecimento com honestidade desconcertante, especialmente ao abordar o etarismo e as transformações físicas e emocionais trazidas pelo climatério.

Não estou preparada para envelhecer. Acho que ninguém está – Mirian Martins

"Tento perpetuar dentro de mim essa cabeça cheia de sonhos e não deixar que esse peso da idade venha me assolar" (Foto: João Wesley)

“Tento perpetuar dentro de mim essa cabeça cheia de sonhos e não deixar que esse peso da idade venha me assolar” (Foto: João Wesley)

Ao longo da conversa, ela evita discursos prontos sobre aceitação e faz questão de expor as contradições, tão comuns, sentidas diante da própria idade. “Para os 60, não me sinto preparada ainda. Não assumo a idade que tenho. No meu pensamento, nos meus posicionamentos, a minha vida não condiz muito com a de uma mulher de 56 anos, porque eu tento manter essa juventude, essa cabeça cheia de sonhos, de desejos”, diz.

Mirian também relata o impacto da menopausa em sua rotina e critica a superficialidade com que o tema ainda é tratado socialmente. “Quem não entrou não vai conseguir entender jamais uma mulher que esteja vivendo o climatério, porque é algo impressionante, surreal, desesperador”, desabafa. Embora destaque o acompanhamento médico que recebe de especialistas, ela afirma que existe uma dimensão emocional impossível de ser resolvida apenas com tratamentos hormonais. “Tem toda uma questão que não existe remédio que ajeite totalmente”, pontua, sobre a complexidade do tema.

"Minha vida artística não caminhou como eu gostaria. E essa volta vem muito disso, de eu concretizar a minha história, de deixar a minha história aí” (Foto: João Wesley)

“Minha vida artística não caminhou como eu gostaria. E essa volta vem muito disso, de eu concretizar a minha história, de deixar a minha história aí” (Foto: João Wesley)

Ao refletir sobre o preconceito ligado ao envelhecimento feminino, ela identifica formas sutis de violência naturalizadas no cotidiano. “Quando as pessoas falam ‘Nossa, nem parece a idade que tem’, isso já é uma forma absurda de preconceito com a idade”. Ainda assim, Mirian insiste em preservar uma ideia de futuro distante do lugar de resignação geralmente imposto às mulheres maduras. “Tento mesmo perpetuar dentro de mim essa cabeça cheia de sonhos e não deixar que esse peso da idade venha me assolar”.

Ao revisitar a música que marcou sua trajetória ao lado de Latino, afirma que a principal diferença entre aquela jovem dos anos 1990 e a mulher de hoje, está justamente na autonomia que conquistou sobre a própria voz, artística e pessoal. “Hoje sei o que eu quero e não aceito mais ser podada”, avisa. Embora mantenha respeito pela versão original de ‘Só Você’, ela diz que agora finalmente consegue contar a própria história da forma que gostaria: “A Mirian de hoje não permite mais imposições, nem na vida pessoal, nem na profissional”.

Existe alguma mágoa ou frustração daquele período de auge com Latino que ainda te atravessa hoje? “Existe. E também foi dessa mágoa que veio a vontade de contar minha história. A falta de reconhecimento me afetou muito. Me cobrei muito por não ter me posicionado. Hoje entendo que isso faz parte da minha trajetória. Mas tenho o direito de resgatá-la e dizer: faço parte disso. Essa música se eternizou na minha voz”.

A artista lembra ainda,  que no auge da parceria com Latino, sentia que não tinha espaço para se expor. “Naquela época, eu não podia falar, não podia dar entrevistas. Minha vida foi muito guiada pelo que os outros queriam”, divide. E frisa que o impulso definitivo para mudar essa lógica veio dentro de casa, através dos filhos. “Eles me ajudaram a enxergar isso. Eles disseram: ‘Não deixa sua história se perder’”. Mais do que revisitar um sucesso dos anos 1990, Mirian parece determinada a ocupar, sem intermediários, o centro da própria narrativa.

Entendi que não posso viver a história dos outros. Eu preciso viver a minha – Mirian Martins

"Tenho o direito de resgatar essa história e dizer: fui eu que cantei, eu faço parte disso. Essa música se eternizou na minha voz" (Foto: João Wesley)

“Tenho o direito de resgatar essa história e dizer: fui eu que cantei, eu faço parte disso. Essa música se eternizou na minha voz” (Foto: João Wesley)