Música & Badalo

Mart’nália canta Vinicius de Moraes em noite histórica repleta de alegria e nostalgia no Circo Voador

O show, no Circo Voador, ainda teve abertura da cantora revelação Majur, que trouxe muita energia e axé para a famosa lona da Lapa

Publicado em 27/08/2019 | Por Heloisa Tolipan

‘Mart’nália canta Vinicius de Moraes’ é um álbum da sambista inteiramente dedicado ao Poetinha (Foto: Michelle Castilho)

*Por Rafael Moura

Nada poderia representar melhor o coração inflamado do carioca do que unir a obra de Vinicius de Moraes (1913-1980) e de Mart’nália. Os dois sempre injetaram paixão em todas as suas obras que falam desse sentimento único que aquece os corações. No álbum ‘Mart’nália canta Vinicius de Moraes‘, a sambista apresenta a riqueza do Poetinha com um vislumbre essencial da alma do Rio. “Eu me lembro na minha infância meu pai (Martinho da Vila), assoviando ‘Insensatez’ e embalando nossas noites. Minha mãe (Anália). quando ficava brava. manda eu e meus irmãos irmos para a ‘Tonga da Mironga do Kabuletê’. Essas memórias afetivas ficaram muito vivas quando comecei a pensar nesse trabalho”, revela a cantora. Já profissionalmente gravou os sambas ‘Sei lá‘, para o documentário ‘Vinicius’, de Miguel Faria Jr. e ‘Pra que chorar‘, para a trilha sonora da novela ‘Babilônia‘, de Gilberto Braga.

Mart’nália encheu o Circo Voador de paixão com o show em homenagem ao poetinha (Foto: reprodução Instagram)

E mesmo com uma noite fria e ameça de chuvas, os termômetros prometiam subir porque as cantoras Mart’nália e a convidada, baiana, Majur incendiariam a lona do Circo Voador, no fim de semana, com uma mistura de dendê e feijão. Nascida e criada na periferia de Salvador, Majur é o novo rosto da cena musical brasileira. É negra, não-binário e carrega um nome curto e forte. Dona de timbres e uma voz potente é formada em design de moda, foi a grande estrela do Afro Fashion Day, o evento de moda afro mais importante da Bahia, além de divulgar ser tiete de Liniker, Jorge Ben Jor e Tim Maia. A cantora que no fim da apresentação se jogou com seus hits ‘Africaniei’, ‘Náufrago’ um feat com o rapper baiano Hiran, ‘AmarElo‘ que canta com Pabllo Vittar e Emicida, ‘Detalhe‘ e ‘20ver‘ que deu o start na noite, afinal a música é um belo cartão de visita, por conta do refrão: ‘Eu sou Majur, hã’.

A baiana Majur abriu a noite histórica e incendiou o Circo Voador como convidada de Mart’nália (Foto: Michelle Castilho)

‘Causando sempre reboliço por onde passa e descendo mais redonda do que a cachaça’ a cantora Mart’nália apresentou no palco do Circo Voador um show em homenagem a Vinicius de Moraes. A lona da Lapa foi só amor e poesia, em um show que se encheu de nostalgia e alegria, afinal a sambista de Vila Isabel mostrou todo o suave balançar da Bossa Nova misturado a ginga da Azul e Branco da Terra de Noel. Logo no início a artista dialoga com o Poetinha nos suaves versos ‘é melhor ser alegre que ser triste’, de ‘Samba da Benção/ Saudação a Vinicius de Moraes’. A sambista que tem a música pulsando nas veias traduziu a bossa, a carioquice e a devoção à beleza feminina que pautaram boa parte das canções do poeta e compositor. Vinicius de Moraes deixou uma rica obra que naturalmente se ajusta à voz de Mart’nália. “O Poetinha sempre esteve presente no meu repertório, então eu resolvi fazer um disco inteiro de homenagens a ele”, revela. No encarte do disco faz uma dedicação a Arthur Maia (1962 – 2018), baixista e produtor, que faleceu logo depois do lançamento do álbum ‘Mart’nália canta Vinicius de Moraes‘. “Dedico esse CD ao meu irmão e parceiro Arthur Maia pelo último trabalho que fizemos juntos aqui nesse planeta Terra!”, escreve. “Eu e Marcinha (Alvarez, empresária da cantora) escolhemos umas 30 músicas. O Arthur, que resolveu agora passar para o outro palco, foi a primeira pessoa que chamei para integrar esse time. Sempre começava meus discos com ele. Foi dele a ideia de dividir a produção, de eu convidar outra pessoa, para ter outro som. Aí puxei o Celso Fonseca, que produziu meu disco ‘Pé do meu samba’ (2002). O Arthur Maia trouxe o subúrbio e o Celso, a Zona Sul, deu uma roupagem mais chique. Veio pra dar um toque no nosso black, para ficar uma coisa mart’naliada”, explica.

Mart’nália arranca gritos da plateia logo no início do show com o sucesso ‘A tonga da mironga do kabuletê‘ e o site Heloisa Tolipan viu um Circo Voador emocionado, com pessoas de diferentes gerações e com as letras na ponta da língua. Sucessos como ‘Deixa‘, ‘Um pouco mais de consideração‘, ‘Minha namorada‘ e ‘Eu sei que vou te amar‘ foram cantados em uníssono. “Eu não queria gravar ‘Eu sei que vou te amar’, mas o Arthur me perturbou tanto e fez um arranjo com aquele baixão acústico, me apresentou, tomamos umas cervejas, ele fez a cama para me convencer”, lembra. Apesar de sua ‘habilidade de convencimento’, Arthur Maia não conseguiu emplacar a ‘parte dois’ de sua ideia, que era fazer a cantora declamar um poema durante a faixa. “Ele queria que eu falasse no disco, mas não sei declamar, minha dicção é péssima. Então chamei Bethânia, minha cabocla. Encontrei ela numa festa e perguntei se ela queria ler um poema no meu disco. Ela apenas perguntou se podia escolher. E gravou comigo ‘Soneto do Corifeu‘ em ‘Eu sei que vou te amar’. Ficou diferente, porque normalmente declamam o ‘Soneto da fidelidade’.

‘São demais os perigos desta vida

Para quem tem paixão, principalmente

Quando a lua surge de repente

E se deixa no céu, como esquecida…’

Mart’nália segue seu ‘namoro’ com o Poetinha com as músicas ‘Sabe Você’, ‘Onde anda você‘, ‘Você e Eu’, ‘Insensatez’, ‘Tarde em Itapoã‘, ‘Maria vai com as outras‘, ‘Canto de Ossanha‘ e ‘Samba da benção/ Agradecimento à Vinicius de Moraes‘. Com um canto suave, a sambista transforma a lona histórica da Lapa num reduto da bossa com uma mistura de samba. O álbum é derivado de um show feito pela artista em 2013, em um apresentação no festival Back2Black, comprimindo suas raízes black que pulsam de maneira intensa nesse disco cheio de malemolência do samba que se encaixa muito bem na voz marota da cantora. No bis, ela embalou o público com sucessos de sua carreira como ‘Entretanto’, ‘Cabide‘, ‘Chega‘, ‘Pé no meu samba’ e ‘Don’t worry, be happy‘, transformando o Circo Voador numa verdadeira roda de samba. “Foi um presente cantar Vinicius no Circo Voador, eu amor estar aqui. É sempre uma delícia cantar aqui, porque o público me recebe muito bem. Fora que estamos na Lapa, berço da boemia carioca e reduto do samba. Foi um prazer e até breve”, concluiu. Destaque para a Analimar Ventapane, irmã da cantora, que além de presidente da escola mirim Herdeiros da Vila, arrasou no coro e mostrou todo o gingado do bairro de Noel, e para o percursionista, Macaco Branco, que também é o mestre da bateria Swingueira de Noel. Em tempo: a plateia estava recheada de nomes estrelados como os cantores Caetano Veloso e Teresa Cristina, a apresentadora Fernanda Gentil e o stylist Felipe Veloso.

Caetano Veloso foi uma das estrelas presentes no show da Mart’nália (Foto: reprodução Instagram)

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