Maria Bethânia celebra 60 anos de carreira com espetáculo autoral, canções raras e escolhas inesperadas


Fugindo da obviedade, revisitou sua trajetória por meio de canções raras, deixando hits como “Carcará” apenas em citação.
Entre destaques, surgiram inéditas como a parceria póstuma de Rita Lee e Roberto de Carvalho, além de arranjos vigorosos com Pretinho da Serrinha. Com luz, vídeo e emoção em perfeita sintonia, Bethânia reafirmou-se como a própria encarnação da música brasileira.

*por Vítor Antunes

Falar de Maria Bethânia nunca é simples. E não pelo motivo mais óbvio. O que torna a tarefa desafiadora é justamente a abundância de possibilidades, de caminhos e recortes possíveis para abordar sua obra. Essa fartura, que a acompanha desde sempre, certamente também se impôs como desafio aos roteiristas do espetáculo comemorativo de seus 60 anos de carreira – ainda que, no caso, a roteirista e diretora seja a própria Bethânia.

No último fim de semana, a artista apresentou um show de celebração que não poderia ser chamado de outra coisa senão marcante. E, parafraseando uma de suas canções emblemáticas, pode-se dizer sem exagero: trata-se da voz de uma pessoa vitoriosa. A cada número, Bethânia revisitou sua trajetória, recuperando momentos de espetáculos anteriores, mas sempre com a marca que lhe é própria: a recusa à obviedade.

Maria Bethânia revisitou carreira num show original (Foto: Diego Castanho)

O espetáculo é profundamente autoral. A cantora não apenas concebeu o roteiro como também dirigiu a montagem — o que reforça sua coragem artística e sua recusa em se prender a expectativas fáceis. Um exemplo claro disso está na relação com “Carcará”, música que a lançou nacionalmente no histórico show Opinião (1965). O público talvez esperasse ouvi-la integralmente. Mas não: “Carcará” surgiu apenas como citação, sutil e inesperada, quase ao fim da apresentação, quando Bethânia solta, o verso “pega, mata e come”.

O repertório seguiu a mesma lógica. Ao invés de construir um inventário de sucessos, Bethânia preferiu apostar em escolhas raras, que reafirmam a riqueza de sua discografia. Vieram à tona músicas “lado B” de álbuns importantes, como “Gota de Sangue” (Mel, 1979), “Sete Mil Vezes” (Alteza, 1981) e canções de A Cena Muda (1974), espetáculo dirigido por Fauzi Arap, entre elas “Rosa dos Ventos”, “Taturano”, “Encouraçado”, “Gás Neon”, “Demoníaca” , e “Resposta”.

Outro exemplo emblemático: ao evocar o show e álbum “As Canções Que Você Fez Pra Mim, Bethânia não interpretou a faixa-título — hoje redescoberta pela chamada “geração Spotify”. Optou, em vez disso, por “Olha”, de Roberto e Erasmo Carlos, canção que ganhou sobrevida ao ser escolhida recentemente como tema do casal central da novela Vale Tudo (2025).

Maria Bethânia escolheu algumas canções “lado B” de sua carreira (Foto: Diego Castanho)

Também no campo cênico, a cantora evitou os lugares-comuns. Se em muitos shows contemporâneos a troca constante de figurinos virou quase obrigação, Bethânia preferiu a sobriedade: apenas uma mudança de roupa. Nesse intervalo, os backing vocals Fael Magalhães, Janeh Magalhães e Jenni Rocha assumiram o palco em um surpreendente e vigoroso número de cortina, entoando um medley sofisticado que uniu “Caboclinha” (Villa-Lobos), “Maracatu” (Egberto Gismonti) e “Flor de Lis” (Djavan). O momento, tornou-se um dos pontos altos do show. A fusão do popular, do erudito e do sofisticado foi uma decisão certeira — mais um mérito da própria Bethânia, Pedro Guedes e Thiago Gomes.

Outro destaque foi a citação incidental de “Galope”, de Edu Lobo, e “Palavras de Rita“, parceria póstuma de Rita Lee e Roberto de Carvalho. A letra, deixada por Rita, ganhou música de Roberto especialmente para Bethânia – um gesto de afeto e reconhecimento que, inevitavelmente, acrescenta densidade histórica ao espetáculo.

O videografismo e a iluminação foram destaque na apresentação de Bethania (Foto: Diego Castanho)

Os arranjos, assinados por Pedro Guedes, Thiago Gomes e Jorge Helder ePretinho da Serrinha, mostraram inventividade e respeito ao repertório. Pretinho acrescentou vigor rítmico, com uma percussão de presença marcante. Tecnicamente, a iluminação de Maneco Quinderé e o videografismo de Luciana Ferraz trouxeram soluções ousadas e sensíveis, dialogando de forma direta com a dramaticidade da intérprete.

No fim das contas, ouvir Bethânia é sempre mais do que testemunhar um canto: é reencontrar a própria essência da música. São “sete mil vezes”, como em sua canção, multiplicadas por seis décadas de arte, vida e resistência. Uma celebração à menina de Oyá, que continua a nos lembrar — com voz, corpo e alma — que música é existência.