Luedji Luna estreia no cinema, faz novo show e reflete sobre liberdade: “Não preciso ser perfeita, a diva que não erra”


Vivendo uma fase de entregas potentes e transformações pessoais, Luedji Luna estreia como atriz no filme ‘A Melhor Mãe do Mundo’ e está nos palcos com a nova turnê ‘Um Mar Pra Cada Um, Antes Que a Terra Acabe’. Em entrevista exclusiva, ela fala sobre maternidade, amadurecimento, independência artística e a escolha de viver com mais verdade e menos performance: “Já banquei a personagem da diva. Fiz coreografia, investi em figurino, brilho. E não fui tão feliz. Então, agora, estou sendo só eu. Meus shows refletem isso. Até meu canto está diferente. Mais maduro, mais técnico, mais livre”

*Por Brunna Condini

Do cinema à música, da maternidade à estrada, Luedji Luna atravessa agosto vivendo uma potente conjunção de estreias, entregas e transformações. Nesta quarta-feira (7), a cantora fez sua estreia nas telonas com o filme ‘A Melhor Mãe do Mundo’, novo longa da premiada diretora Anna Muylaert. E, dois dias depois, em 9 de agosto, sobe ao palco do Vivo Rio com o show ‘Um Mar Pra Cada Um, Antes Que A Terra Acabe‘, de sua nova turnê. “Estou muito à vontade no palco, muito feliz com esse show. Espero que as pessoas sintam o que sinto: contentamento e plenitude”, diz a artista, em entrevista exclusiva ao site.

A conversa acontece por videochamada, enquanto Luedji se divide entre exames médicos, compromissos profissionais e os cuidados com o filho Dayo, de 5 anos. Com voz serena e palavras potentes, ela compartilha não apenas os bastidores desses dois lançamentos, mas também a travessia pessoal e artística que tem vivido, marcada pela maturidade, pela busca por liberdade e pela recusa em performar personagens que não a representam:

Hoje, a arte que faço está completamente alinhada com quem sou. Com a mulher que já vestiu a personagem da diva pop, já dançou coreografias, brilhou no palco com figurino de grife… e não foi exatamente feliz. Não preciso mais performar para agradar expectativas externas. Estou mais madura, mais inteira e mais honesta comigo mesma. Não quero mais provar nada para ninguém, nem para mim mesma – Luedji Luna

Luedji Luna estreia no cinema, lança nova turnê e reflete sobre maternidade, liberdade e maturidade artística (Divulgação)

Luedji Luna estreia no cinema, lança nova turnê e reflete sobre maternidade, liberdade e maturidade artística (Divulgação)

O cinema como outra forma de expressão artística

Luedji estreia no cinema dando vida à personagem Valdete, prima da protagonista Gal (vivida por Shirley Cruz), em ‘A Melhor Mãe do Mundo’, que narra a jornada de uma mãe solo fugindo de um relacionamento abusivo. “É uma história importante, urgente. Fala de violência doméstica, mas também de acolhimento, de afeto. Por mais pobre que a minha personagem seja, ela tem uma casa, tem comida, consegue dar amparo”, conta.

O convite surgiu após um teste para o papel principal. Ela não foi escolhida para a protagonista, mas impressionou a diretora. “A Anna gostou muito do meu teste e me chamou para fazer a Valdete. Trabalhar com ela foi uma sorte. É uma diretora muito aberta ao improviso, que acolhe o agora”, diz. Uma das cenas do filme, inclusive, nasceu de um imprevisto real: o pequeno Benin Ayo, que interpreta Benin, o filho da protagonista, perdeu um dente durante as gravações. Isso entrou no roteiro. “Esse tipo de liberdade me deu coragem. Me joguei em um abismo, mas me senti muito acolhida”.

E revela que a experiência pode abrir outras frentes como atriz: “Tive amparo e também fui muito acolhida pelos atores, foi um set com muita generosidade. Então, acho que se eu tiver a sorte de estar em um contexto como esse novamente, adoraria fazer outros filmes. De uma maneira não tão engessada”.

Luedji Luna como atriz em filme de Anna Muylaert (Divulgação)

Luedji Luna como atriz em filme de Anna Muylaert (Divulgação)

O palco como casa: uma artista em seu momento mais inteiro

No próximo sábado (9), Luedji leva ao Vivo Rio o show de sua nova turnê. O repertório traz músicas dos dois últimos discos e reflete sua fase mais alinhada com quem é. “É o show que fala do meu momento mais maduro, como artista e como pessoa. Estou com 38 anos, com mais clareza do que quero para mim, do que não quero mais, do que estou disposta a renunciar”, afirma. “As pessoas vão ver uma artista feliz no palco. Meu canto também está mais maduro, minha presença. É um momento bonito.”

‘Um Mar Pra Cada Um’ navega pelo íntimo da cantora e compositora, enquanto nos revela, pouco a pouco, seus desejos, disfarces para questões mais profundas que permeiam e justificam sua busca incessante por amar e ser amada. Ele passeia por ritmos como jazz e neo-soul, contando com as participações de Nubya Garcia, Liniker, Tali, Takuya Kuroda, Isaiah Shaker, Beatriz Nascimento. Luedji explica que, nesta nova fase, não está preocupada em agradar o mercado ou seguir tendências.

O que construí desde o início (seu primeiro álbum ‘Um Corpo no Mundo’ (2017) a consagrou na cena nacional), até aqui me dá liberdade. Quero fazer algo sólido e atemporal. Que a minha música seja para além de mim – Luedji Luna

"Estou mais madura, mais inteira e mais honesta comigo mesma. Não quero mais provar nada para ninguém, nem para mim mesma" (Divulgação)

“Estou mais madura, mais inteira e mais honesta comigo mesma. Não quero mais provar nada para ninguém, nem para mim mesma” (Divulgação)

E completa: “É um disco muito alinhado com a minha pesquisa, com o que gosto de ouvir, com o que gosto de dançar, independente se isso vai ser conferido ou não pelo mercado. Estou muito respeitosa comigo, com a música e o caminho que ela está me levando. E entregando para o mundo exatamente aquilo que quero e o que sou”.

Ser mãe e ser artista: a conta (quase) impossível

Com o filho ainda pequeno, a maternidade segue presente e desafiadora. “Hoje saí de casa para resolver umas coisas, e meu filho disse: ‘Você já vai sair de novo?’. A culpa vem. Mas eu me desdobro. Brinco quando volto. Tento compensar”. Apesar dos desafios, Luedji reconhece o privilégio de ter uma rede de apoio, especialmente o marido, o rapper Zudizilla, com quem está casada há oito anos. “Graças a Deus, ele é um filho com pai. Minha rede é pequena, mas existe. Meus pais, quando vem de Salvador ou quando vamos, também me ajudam muito. O mais difícil é lidar com a culpa, não é nem com quem deixar. É o lugar de se fazer presente mesmo na ausência”.

O desejo de ter mais filhos existe, mas está suspenso até que a vida permita mais estrutura:

Se eu fosse a Rihanna ou a Beyoncé, teria três. Mas, do jeito que eu trabalho hoje, não acho justo. Só teria mais filhos se pudesse viver de publis e shows escolhidos a dedo. Amo ser mãe, mas precisaria ter mais tempo, tranquilidade – Luedji Luna

"Quero fazer algo sólido e atemporal. Que a minha música seja para além de mim" (Divulgação)

“Quero fazer algo sólido e atemporal. Que a minha música seja para além de mim” (Divulgação)

A desconstrução da diva

Ao longo da entrevista, uma reflexão forte se impõe: a sobreposição da artista Luedji Luna à mulher Luedji Gomes Santa Rita, seu nome de nascimento. “A Luedji Luna teve tudo o que quis. Me endividou, me enlouqueceu, me cansou, me adoeceu…mas agora é hora de equilíbrio. Quem criou e sustentou essa artista fui eu, e não o contrário”. Hoje, ela escolhe não mais performar para caber no que esperam dela. “Já banquei a personagem da diva. Fiz coreografia, investi em figurino, brilho. E não fui tão feliz. Então, agora, estou sendo só eu. Meus shows refletem isso. Até meu canto está diferente. Mais maduro, mais técnico, mais livre”.

Essa liberdade também se reflete na relação com a exposição e as redes sociais:

Não vou fazer dancinha X, nem expor minha rotina. Me respeito demais. Meu crescimento nas redes é lento, mas é real. Prefiro assim. Sou muito bem criticada, preciso reconhecer isso. Então, esse lugar que conquistei me dá tranquilidade para ser quem sou e fazer o que quero. E não estar ainda disputando espaços que não fazem sentido pra mim. Espaços que às vezes são próprios daquele tempo – Luedji Luna

"Estou muito respeitosa comigo, com a música e o caminho que ela está me levando" (Divulgação)

“Estou muito respeitosa comigo, com a música e o caminho que ela está me levando” (Divulgação)

Ao ser questionada sobre qual é o seu sentido de liberdade hoje, a resposta é direta e profunda: “Poder ser genuinamente. Sem máscaras, sem performance. Reconhecer meus defeitos, minhas potências, estar no mundo de maneira honesta. Só quero ser humana. Não preciso ser perfeita, a diva que não erra. Isso é desumanizante”.

Por uma vida mais leve

Apesar do sucesso e da aclamação da crítica, Luedji segue independente. “A Som Livre já me sondou, mas nunca recebi uma proposta que valesse a pena. Estou em uma distribuidora boa, mas ainda cuido da minha própria carreira. Só tenho trabalho, não tenho capital político. Agora preciso de ajuda”. A maturidade traz também a urgência de cuidar de si. “Tenho sentido o tempo passando. Me sinto cansada. Quero cuidar da minha saúde, da minha família. Ter mais tempo. Ter uma vida mais leve”.

A artista, que um dia teve vergonha de sonhar com a música, hoje sonha alto, e com os pés no chão. “Quero consolidar minha carreira internacional. Circular mais pelos Estados Unidos, pela Europa. Levar minha arte mais longe”. Mas tudo no tempo certo. Porque como ela mesma diz:

As pessoas vão ver uma Luedji diferente, mas sendo mais Luedji do que nunca – Luedji Luna

"Só quero ser humana. Não preciso ser perfeita, a diva que não erra. Isso é desumanizante" (Divulgação)

“Só quero ser humana. Não preciso ser perfeita, a diva que não erra. Isso é desumanizante” (Divulgação)