Lucy Alves lança novo álbum, relembra novelas e sobre diversidade diz: “O preconceito é muito presente”


Lucy Alves surgiu na TV com uma identidade marcante, destacando-se no The Voice Brasil com seu sotaque paraibano e sua sanfona. Doze anos depois, consolidou sua trajetória artística ao protagonizar a novela Travessia e, agora, lançar o álbum “Gato do Mato”, que reflete sua jornada pessoal e experiências. A cantora, que busca equilibrar raízes nordestinas com novas sonoridades, aponta desafios no cenário musical, como a remuneração baixa em plataformas digitais. “Ao mesmo tempo que temos bastante espaço para artistas independentes se projetarem, temos um mar de lançamentos que acontecem aos montes diariamente. Quantidade tem significado mais que qualidade… A remuneração das plataformas é baixa, então vamos trabalhando de várias maneiras para fazer a máquina girar!”

*por Vítor Antunes

Quando Lucy Alves surgiu na TV, trouxe consigo uma identidade única e marcante: além do forte sotaque paraibano, a sanfona, que se tornou sua companheira inseparável. Foi assim que ela se destacou no cenário nacional, participando do The Voice Brasil. Incrivelmente, já se passaram 12 anos desde aquele momento. Hoje uma atriz e cantora consolidada, que lança seu novo álbum “Gato do Mato“. Mais recentemente, Lucy fez sua primeira protagonista, Brisa, na controversa novela das nove Travessia (2022/2023). Esses trabalhos foram transformadores em sua trajetória. Dentro de Lucy há Lucyane, seu nome de batismo. Para a artista, se alinham e dão personalidade à sua arte. “A Lucy compõe e canta músicas que estão guardadas dentro da Lucyane. Por isso, para mim, é tão especial colocar no mundo um trabalho autoral. Nesse disco eu conto um pouco sobre como eu vejo o amor, as minhas raízes – sempre presente nos meus trabalhos”. Atravessando desafios e abraçando mudanças, Lucy Alves vive intensamente cada fase de sua jornada. Seu novo álbum é mais do que um projeto musical: é um reflexo de sua coragem, sua história e sua constante reinvenção. Ela nos mostra que mudar é uma forma de permanecer fiel a si mesma, reinventando-se sem jamais esquecer quem é – e seguido o seu caminho.

Porém, Lucy destaca o quanto a remuneração das plataformas digitais ainda é errática, diante de um panorama musical em transformação. “O cenário da música vem mudando bastante. Isso é bom e também tem seu ônus. Ao mesmo tempo que temos bastante espaço para artistas independentes se projetarem, temos um mar de lançamentos que acontecem aos montes diariamente. Quantidade tem significado mais que qualidade… A remuneração das plataformas é baixa, então vamos trabalhando de várias maneiras para fazer a máquina girar!”

Não faz muito tempo, a atriz tornou pública a sua bissexualidade. Para ela, ainda que tenha encontrado algum acolhimento, esse não é o reflexo da maioria das pessoas LGBT como ela. “A minha realidade não condiz, infelizmente, com a realidade do nosso país. O preconceito existe e isso é muito presente, em especial, nas áreas mais pobres e periféricas. Uma intolerância que se torna um crime cada vez mais presente nas estatísticas. Mais do que falar sobre mim, acredito que esse assunto mereça uma lupa enorme para que possamos deixar de ocupar o lugar vergonhoso de um dos países mais homofóbicos do mundo”.

Por muitos anos, a sanfona e o sotaque eram vistos como barreiras para artistas no Sudeste do Brasil: não se podia tê-los. Sotaque era considerado limitador, algo que restringia possibilidades. Felizmente, essa mentalidade tem mudado com o tempo. Há, hoje, uma maior aceitação da diversidade linguística do Brasil. Contudo, um ponto permanece inalterado: a ideia de “música regional”. Enquanto o samba, associado ao Rio de Janeiro, é reconhecido como música nacional, o forró é rotulado como nordestino, portanto regional. O calypso, o carimbó e a aparelhagem são identificados como paraenses, e também tratados como regionais – ignorando, por exemplo, a existência de escolas de samba no Pará. Para Lucy, esse pensamento ainda carece de renovação. “Uma pessoa de São Paulo que faz música em São Paulo é regional! E cada região tem sua particularidade. Esse é o nosso país, né? E tudo é música brasileira. Acho que esse pensamento precisa ser atualizado”, defende.

Acredito que hoje há um pensamento que inclui uma diversidade de sotaques e uma diversidade de elenco. Estamos em um caminho que vem quebrando várias barreiras que impediam um olhar mais diverso e inclusivo em quase todos os campos da sociedade. Ver atores nordestinos que não precisam ignorar seus sotaques, por exemplo, é algo que nos fortalece, que nos encoraja. É um processo. Ainda temos muito a percorrer. Mas o pontapé inicial foi dado –  Lucy Alves

Álbum novo de Lucy Alves, Gato do Mato, já está chegando ao streaming (Foto: Divulgação)

TRAVESSIA

Um dos maiores sucessos de Milton Nascimento carrega o mesmo nome da novela que alçou Lucy Alves ao posto de protagonista: Travessia. Coincidentemente – ou talvez não –, esse também é o título de uma das músicas do novo álbum da artista, “Gato do Mato“. Contudo, sua escolha vai além dessas associações. “Esta é uma referência à minha travessia pessoal, à busca pelo meu sonho e por quem quero me tornar a cada dia. Sair da minha terra natal e me lançar nesse mundo em busca do que quero. Esse álbum reflete meu cotidiano, minhas experiências, amores, perdas… Minha vida e tudo ao meu redor segue me inspirando. Esse trabalho traz o que quero falar agora, reflete o meu momento”, explica Lucy.

Voltada às suas atividades de musicista e atriz, Lucy tem se dedicado mais à sua carreira solo. O seu grupo, Clã Brasil, está em um hiato. “O Clã deu um break e temos o desejo de um dia fazer uma apresentação para matar a nossa saudade e a doa nossos fãs. Mas por enquanto não temos atividade”, pontua.

Com o álbum marcado pela diversidade de ritmos e sentimentos, Lucy já traça seus planos para o próximo ano, reafirmando o compromisso com sua carreira musical. “Estou animada para seguir com meus shows e com as músicas que estou preparando para 2025. Sempre estou aberta às coisas boas que a vida trouxer também, mas meus shows e minha música seguem como minha prioridade.”

“Sempre estou aberta às coisas boas que a vida trouxer também, mas meus shows e minha música seguem como minha prioridade” (Foto: Fred Othero)

Ao tentar traduzir o momento atual de sua vida em uma única obra, Lucy escolhe Mutante, de Rita Lee (1947-1923). A canção encapsula o espírito de uma artista em constante transformação, que equilibra com maestria a fidelidade às suas raízes nordestinas e a ousadia de explorar novas sonoridades. Assim como Rita Lee, que reinventava a própria arte sem perder sua essência, Lucy segue expandindo sua linguagem artística, sem deixar de carregar consigo os ritmos, sons e cores da Paraíba que a moldaram.