Música & Badalo

Leila Maria mostra seu jazz nada ortodoxo em novo álbum: “Não me vejo mais tendo que provar que sou boa”

A cantora lança músicas originais e em parceria com o pianista Rodrigo Braga no álbum “Tempo”. Com a nova fase, ela abre as portas para o retorno às músicas em português, uma conexão com seu CD de estreia “Da cabeça aos pés”, em 1997. “Amo minha língua e sentia falta de cantar em português, trazendo algo novo”, conta Leila

Publicado em 16/11/2018 | Por Anna Castro

Poucas coisas no mundo são iguais ao canto de Leila Maria. Puro talento e prazer de se ouvir. A artista lança neste mês, depois de muito caminhar nas músicas em inglês, seu novo álbum “Tempo” (gravadora Biscoito Fino), com composições originais e em português. Ao brincar e passear pelo jazz há anos, as novas músicas trazem reflexões sobre sinceridade, as máscaras do mundo atual, identidade e a passagem do tempo. Em uma conversa exclusiva, a cantora contou sobre sua nova fase no mundo da música, o dom de cantar e o motor que nunca a fez desistir. “Eu estou bastante ansiosa para ver como o público que eu consegui conquistar vai reagir ao novo álbum, porque não me vejo mais na situação de ter que provar que tenho um bom material vocal para mais ninguém. A questão maior é querer voltar a cantar em português, porque amo a minha língua. Ao mesmo tempo não queria um disco com mais regravações, porque três dos meus cinco discos possuem esse conteúdo. Queria fazer algo com meu material e de amigos também, agregando uma forma diferente. Eu quis fazer um marco e uma referência do que eu consegui até agora nesse mundo”, comentou Leila.

O novo CD “Tempo” traz a temporalidade e a vida em composições originais e em parceria com Rodrigo Braga

É difícil não ser atravessada pela voz de Leila Maria, seja cantando os sucessos em inglês da cantora norte-americana Billie Holiday (1915-1959) ou interpretando sucessos da MPB. Na época em que ainda não era cantora, a música já estava em sua vida constantemente. Filha de um oficial da Marinha Mercante, era sempre presenteada com discos das viagens do pai e era comum ouvir grandes nomes do jazz com ele, que a apresentou ao gênero que iria marcar sua carreira. Leila tentou jornalismo, mas o ato de cantar a chamava mais forte. Com os dois pés no chão, ela mergulhou nesse mundo jazzístico e continua desde então. “O jazz é algo que eu escuto desde pequena, então não era estranho para mim. Sugeriram que eu investisse no tipo de jazz que eu gostava de brincar informalmente, nunca pensei em transformar isso numa vertente para mim. Mas, com a ideia de aumentar o meu alcance e fazer um jazz que não é comum na noite carioca, principalmente com temas como ‘Get out of town’, eu comecei a pensar nisso. E, então, eu fiquei conhecida como a cantora de jazz, quase uma Billie Holiday do Brasil. Mas isso só aconteceu porque as músicas autorais nesse viés de MPB, que eu me propus a fazer, não foram adiante por causa das circunstâncias envolvendo a gravadora e a minha produção. O jazz abriu uma porta para mim de forma natural e para continuar na música, eu fiquei nela. Eu trabalhei com muita gente incrível, como o saxofonista Paulo Moura. Eu faço com gosto!”, explicou a cantora. Com os CDs que vieram em inglês, Leila fez muito sucesso em países como os Estados Unidos e Alemanha.

Leila Maria lança seu quinto álbum, “Tempo”, com composições em português, depois das temporadas cantando jazz na língua inglesa (Foto: Nana Moraes)

Leila Maria quebra o estereótipo de mulher negra do samba, rompendo com o que a sociedade esperava da cantora. Apesar disso, ela não nega a importância do gênero, ma possui o jazz como prioridade. “Cantar samba é o que se espera, geralmente, de pessoas negras que mexem com música. Infelizmente não sei sambar, mas a expectativa é que esse seria um nicho natural para nós. Só que ninguém acha estranho que uma das maiores cantoras de samba que nós temos é Beth Carvalho, que é branca. Ninguém acha estranho, também, que um grande nome da MPB, como Clara Nunes, também não fosse negra. Então, de todo modo, o contrário causa estranheza. Olhando a história da MPB, principalmente a recente, são poucas cantoras negras que são consideradas como artistas desse ramo. Sempre parece difícil catalogar cantoras negras, principalmente as que ficam entre samba e MPB, como eu e muitas mulheres que vieram antes de mim. É complicado e faz parte da história do nosso país com o racismo… Somos representantes de uma etnia ao fazer um trabalho que não é o esperado por quem dita essas regras. Quanto ao Brasil, eu não acho que seja um país racista, mas acho que existem muitas pessoas assim. E eu, particularmente, não fico preocupada com o que vão achar de mim ou se vou ser mal vista, mas se eu sinto que estou sendo diminuída de alguma forma pela minha cor, eu percebo e reajo. Normalmente eu não fico pensando nisso. Subo ao palco e faço meu trabalho, como sempre fiz. Eu não posso resolver o preconceito racial sozinha. Está na cabeça de cada um”, afirmou Leila.

Com o prestígio já obtido no álbum Off Key (2005), no qual interpreta música brasileira em inglês e que foi distribuído com sucesso na Europa pelo selo alemão Zyx Music, Leila Maria tem a voz apreciada por gente que detecta o domínio do idioma do jazz. No terceiro disco, Canções de Amor de Iguais (2007), como indica o título, ela faz homenagem à diversidade, cantando de Nature Boy (Eden Ahbez) a Sexuality (K.D. Lang), passando por Gatas Extraordinárias (Caetano Veloso), marcada na voz de Cássia Eller. Todo seu talento foi reiterado no álbum anterior, Holiday in Rio – Leila Maria canta Billie. O disco foi gravado em 2012 e efetivamente editado em 2015.

Depois de seu sucesso em inglês, a saudade de cantar na língua nativa surgiu. Após quase dois anos produzindo “Tempo”, Leila traz a brasilidade e o talento de quem sabe a música que faz no DNA. “Quando eu comecei a reunir o material do que eu gostaria de fazer nesse álbum, observei que a maior parte das músicas tinha um traço em comum: abordar sobre o tempo em si ou falar circunstancialmente o assunto. Tudo acontece no tempo e dentro dele, então a maior inspiração acabou vindo por causa dos assuntos das músicas, que giram em torno do momento em que vivemos, que tem se mostrado difícil, aliás”, refletiu a artista.

Entre as canções preferidas, “Personas” marca presença no álbum, retratando as máscaras que se formam na sociedade. A composição é em parceria com o pianista Rodrigo Braga, produtor e arranjador do disco, além de amigo de Leila. “Essa música fala das pessoas que se aproximam uma das outras sem aprofundamento, com muitas máscaras, mentiras ou até mesmo omissões. Isso é algo que estamos vivendo atualmente e as pessoas não dão muita atenção a esse tipo de tratamento falso, que acaba sendo uma questão atômica dos relacionamentos. Essa música é muito emblemática no disco! A origem é de observar que as pessoas são personas. As situações no cotidiano acabam sendo profundamente superficiais. É um paradoxo, mas é real. Essa música chega a ser uma síntese das ideias que eu abordo no álbum”, explicou Leila.

O disco se conecta diretamente com o primeiro álbum da cantora, “Da cabeça aos pés”: cantado em português e trazendo um repertório mais autoral. Leila assina composições inéditas como “Caravançará”, “Os olhos de Alice”, “Resgate” e “Tempo de Rio”. O jazz do novo CD não é o tradicional, claramente. Ao longo das 10 músicas, Leila mostra o poder e a versatilidade de um jazz que não tem idade, nem época: atemporal em todos os sentidos. Fora do espectro autoral, a cantora também dá voz a “Poeira e solidão”, música de Sueli Costa (1975). Com a pauta do tempo em músicas que refletem um amadurecimento e um olhar de quem viveu uma longa história no mundo da música, Leila traz também a música autoral de Rodrigo Braga, “Valsa do Tempo”.

Nessa parceria inteligente, a cantora parece importar-se pouco com o comercial no mundo da música e busca, mais do que nunca, sua identidade. “Depois de ter abandonado tudo para viver de música, não quero apenas fama. O primordial é cantar para quantas pessoas for possível e levar o que eu penso da vida, com o auxílio do dom que Deus me deu, já que eu nunca estudei canto e sou grata por ter nascido assim. De tudo que eu passei, eu lidei com egos diferentes, com inveja, com pessoas diversas. Tudo mexe com o que você é. E então você tem que escolher se vai agir de determinada maneira contra o que você acredita, o que vai fazer nessa profissão seguindo quem você é….”, comentou. Além do seu objetivo, também fica claro seu desconforto com a exposição. “O artista fica no ventilador, extremamente exposto e as pessoas misturam sua vida pessoal com a profissional. Além disso, todo mundo foca no lado glamouroso, mas é muito menor”, frisou Leila.

Leila Maria, que lançou seu primeiro disco em 1997, volta às suas raízes com o novo disco (Foto: Nana Moraes)

A cantora também é sincera quanto aos desafios de sua carreira, desde o princípio, principalmente nas esperanças renovadas sempre que sobe ao palco. “O que nunca me fez desistir é o público. Fora isso eu seria louca! O que me faz continuar é chegar ao palco, cantar e ouvir palavras sinceras de quem foi até ao show me ver. Isso não tem preço, só valor. Preço tem a ver com dinheiro, que você ganha em cima daquilo que você faz, mas o milhão de amigos, gente que você conhece durante a caminhada, vem muito antes de qualquer preço. De todas as dificuldades que eu passo, chegando ao palco eu sou recompensada com esse carinho. Não há show sem plateia! Sou muito agradecida por quem me acompanha e me faz continuar”, comemorou Leila, que reuniu muitos amigos ao longo da carreira.

Com a voz sincera e versátil, Leila Maria conta que o jazz abriu portas que ela não esperava (Foto: Nana Moraes)

Há quase dois anos, quando o álbum “Tempo” ainda estava no plano das ideias, o radialista e um dos maiores especialistas de jazz do Brasil, Nelson Tolipan (1936-2018) conversou com Leila Maria e, ao saber que seu álbum seria em português, afirmou: “Você canta com verdade e vontade de qualquer maneira. Na língua que for. Cantar com prazer é o que faz suas músicas serem boas”. Leila, que viu seus olhos serem abertos naquele momento, já não se importava se suas músicas serviriam ao mercado ou qual seria a opinião pública, mas acreditava no que estava fazendo e na paixão que imprimia em cada verso. “Amo cantar em inglês e em português, mas antes disso eu amo cantar, principalmente quando expresso aquilo que eu penso. Na língua que for, quem ouvir terá o melhor de mim”, revelou.

 

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