*por Vítor Antunes
“Karaokê da Xuxa”, lançado em novembro de 1987, depois de quase quatro décadas fora do alcance do público — e de uma única reedição em CD, em 1996 —, o álbum enfim reaparece no streaming. O disco retornou agora na última quinzena de novembro, com uma particularidade que movimentou colecionadores e historiadores: a presença de “Nos Somos o Amanhã”, corte original de 1987 que jamais havia sido disponibilizado digitalmente nas plataformas – e assim segue. A faixa, ausente dos streamings em sua gravação original, ressurge no “Karaokê” apenas em versão instrumental — coerente com o conceito do álbum, mas que evidencia uma lacuna na discografia da loura. Em sua forma cantada, a música continua inédita nas plataformas. Do álbum original, falta a música “O Circo”.
A história editorial do disco é um labirinto de idas e vindas. Em 1996, quando a Som Livre decidiu relançar o primeiro LP da série Xou da Xuxa em CD, parte do repertório do “Karaokê” foi incorporada como bônus. Foi assim que “Parabéns da Xuxa” e “Papai Noel dos Baixinhos”, originalmente integrantes do álbum instrumental – embora fossem cantadas- , migraram para o Xou da Xuxa (1986) na versão em CD. A manobra seguiu em 2006, quando novas tiragens consolidaram essas faixas como parte oficial do LP, alterando retroativamente o escopo do disco de estreia da apresentadora na Globo.
Na ocasião, o “Karaokê” funcionava como um apêndice de dois discos: o Xou da Xuxa e o Xegundo Xou da Xuxa (1987). Quatro faixas completavam esse ecossistema — “Beijinho Beijinho”, “Papai Noel dos Baixinhos”, “Estrela Guia (Natal)” e “Parabéns da Xuxa” – as únicas cantadas de todo o repertório, no disco original. Há imprecisão, contudo, no relançamento no streaming: a Som Livre indica que “Parabéns da Xuxa” e “Beijinho Beijinho” aparecem em versões karaokê, o que não corresponde ao conteúdo real.

Xuxa em fotos posadas para o Karaokê da Xuxa (Foto: Andre Wanderley)
“Karaokê da Xuxa” foi o primeiro e único LP da artista lançado pelo selo Globo Discos — tentativa da organização, em 1987, de unificar suas frentes editoriais (e recém-comprada Rio Gráfica Editora) sob o nome Globo. O projeto durou pouco. A força comercial da marca Som Livre abafou a iniciativa, e o selo acabou desativado antes mesmo de consolidar catálogo. A própria reedição do “Karaokê”, em 1994, já saiu com o carimbo da Som Livre.
O álbum, que vendeu cerca de 700 mil cópias em seu lançamento, ocupou nos anos 1980 um lugar curioso: disco infantil, produto televisivo e ao mesmo tempo artefato de participação — uma espécie de ritual doméstico para milhares de crianças, que vinham munidas de um microfone de papel para montar, incluído no encarte do LP original. Esse brinde, hoje peça de culto entre colecionadores, talvez seja o testemunho mais literal da função social do disco: permitir que o público assumisse a voz da apresentadora, que agora poderão cantar ao ouvirem pelo Spotify, Deezer ou Apple Music.

Capa de Karaokê da Xuxa, com o microfoninho de brinde (Foto: Reprodução/Instagram)
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