Música & Badalo

Jorge Vercillo desabafa sobre os direitos autorais e royalties de reprodução e prevê o pior: “quem vai reinar são os imbecis, os medíocres”

Em entrevista franca antes de cantar no Vivo Rio, no dia 5 de setembro, Jorge Vercillo também falou do cerco fechado da TV aberta: "vão sempre levar nos programas mais populares os artistas que estão atendendo ao número maior de pessoas. Mas não necessariamente esse número é o mais qualitativo”

Publicado em 12/08/2015 | Por Lucas Rezende

Jorge Vercillo estava cantando em uma praça pública desse Brasil afora quando avistou um camelô em meio à multidão vendendo um de seus DVDs em versão pirata. Eis que o carioca de 46 anos começou a questionar alguns presentes. Primeiro um médico. “Você pode me consultar de graça? ”, lançou. Ele disse que sim. “Mas e minha família inteira? ”, retrucou Vercillo. O médico já trocou o discurso e disse que não, já que depende daquilo para viver. Na sequência, um advogado. “Você poderia me defender em um processo gratuitamente? ”, pediu. “Meu tempo é precioso”, recebeu como resposta. A mensagem que Vercillo quis passar naquele episódio foi um aviso bem claro: “a gente [os artistas] é extorquido no nosso trabalho”.

Jorge_Vercilo_fotoWashington Possato

E, em entrevista ao HT, direto de Salvador (BA), ele mantém o mesmo discurso já que a problemática vai além da pirataria física. Baixar músicas gratuitamente na internet também é uma forma de sedimentar esse mercado negro, segundo Vercillo. Discurso, aliás, de quem está adentrando com força no mercado do streaming musical. “Extra Físico”, seu novo projeto, está sendo lançado aos poucos, mensalmente, pela internet. “Eu ganharia mais vendendo em CD, mesmo ele estando em declínio. Mas ainda que o retorno financeiro seja pequeno, ele é válido. Grandes transformações acontecem onde o retorno financeiro não é bom. No meio da crise, é o momento em que você pode se aventurar”, se explicou.

As gravações estão à venda nas principais plataformas como Itunes, Onerpm e Spotify, serviços que Vercillo aposta como aliados em “transformar o mundo para algo inovador”. “A maneira como as pessoas estão se comunicando mudou. Temos que incentivar as pessoas a comprar música de uma forma barata na internet. Essas plataformas são o futuro da indústria musical”, apostou. Mas nem tudo são flores. O repasse financeiro desses serviços e também do Youtube, por exemplo, não “fecha a conta”, garantiu o músico. “Os percentuais de royalties precisam melhorar muito. O público tem uma noção um pouco equivocada de que um artista pouco conhecido precisa do Youtube. Na verdade, são eles que precisam muito do acervo da música popular brasileira. Sem conteúdo, ele passa a ser um mero vídeo blog. Ele precisa do conteúdo de um grupo grande de artistas. Até porque esses artistas sempre sobreviveram sem o Youtube”, pontuou.

E se a situação não é da mais amistosa e justa, por que Jorge Vercillo continua apostando nas plataformas? “Pela questão ideológica. Não é por dinheiro que estamos fazendo isso. É para reforçar a prática de baixar uma faixa a faixa, ou um álbum inteiro pago. A gente precisa criar um novo formato musical”, justificou. Aliás, os royalties de reprodução na internet não são o único problema. O pagamento nas rádios é mais complicado ainda. “Hoje em dia já é sabido que mais de 40% das rádios no Brasil estão inadimplentes com direitos de execução. E rádio é concessão pública que está nas mãos de políticos. Essa nova lei do direito autoral, que o Procure Saber [associação de artistas] vem implementando junto do [Ministro da Cultura] Juca Ferreira, quer tirar a concessão de rádios que estejam há mais de quatro meses inadimplentes. Isso precisa entrar em vigor, porque se não a conta não fecha. A gente fica prejudicado”, desabafou.

Jorge Vercillo_Lucas Soares_externa

É com a mesma sinceridade e com a bagagem de 21 anos de carreira que Jorge Vercillo também avalia o outro lado da moeda: os próprios artistas. “Hoje em dia você não precisa assistir a um programa chato de TV no domingo. Você tem a TV paga. E música é igual: você só ouve a ruim se quiser. Você pode ouvir um funk ou um sertanejo de boa qualidade. O que precisa é de ingredientes corretos: melodias com criação de bom gosto, letra, conteúdo poético razoável, com criatividade e uma plasticidade bonita. E também tem que ter uma originalidade, um arranjo, uma harmonia”, deu a dica. Mas e se a fórmula não for seguida? “Aparecem essas porcarias de músicas de dois minutos que ganham mais espaço que autores que levam meses para compor”.

E o que Vercillo aqui fala pode ser comprovado nas ruas. “Os sons automotivos altos não tocam música boa, já percebeu? E isso é independente do estilo. Você pode fazer um forró e um axé de ótima qualidade. Tudo na vida é bom senso”, opinou, recorrendo à polêmica que rondou o começo da conversa: “Se você não paga corretamente pessoas dotadas de um ouvido harmônico mais completo, essas pessoas ficam desestimuladas e quem vai reinar são os imbecis, os medíocres”. Aliás, é essa espécie de falta de filtro qualitativo que atinge a TV, por exemplo. Vercillo explica: “Nós vivemos em uma ditatura financeira. Quem trabalha em mídia vive através do lucro. Todos estão atrás de audiência. Só que eles se esquecem que, para quem trabalha com cultura, você tem que educar o povo e oferecer qualidade. Eles não podem visar um lucro imediato, e sim uma transformação”.

Vercillo_foto_Lucas Soares

A tal “ditadura”, segundo ele, é velada. E a culpa está no IBOPE. Aliás, não só dele. “O programador da TV está sujeito a estar escravo de um padrão chamado audiência. Ele precisa de pontos para vender seu produto mais caro para os patrocinadores. Ele vai sempre levar nos programas mais populares os artistas que estão atendendo ao número maior de pessoas. Mas não necessariamente esse número é o mais qualitativo”, refletiu. Se o próprio Vercillo sofre com essa peneira movida por cifrões? “Não, porque o grande revés disso é que cada vez mais o mercado está pulverizado. Os meus sobrinhos nem veem mais [“Domingão do”] Faustão há anos, por exemplo. Isso reflete a nossa realidade. Existe produção musical de grande quantidade. O que falta é espaço na grande mídia”, opinou.

Com show marcado para 5 de setembro no Vivo Rio, Vercillo vai mesclar sucessos antigos com os que acabaram de sair do forno. No repertório, logicamente, “Que nem maré” e “Monalisa”, hits que o marcaram há duas décadas. Se até hoje ser lembrado por versos tão antigos o incomodam? Ponto para quem disse sim. “Se eu estou ouvindo rádio e toca ‘Que nem mané’ eu troco. Eu tenho muito orgulho dessas músicas, mas eu, como público, me reservo ao direito de trocar. Quando eu ouço a mesma música do Caetano Veloso eu também troco. E ‘Oceano’ do Djavan? É uma obra prima mas eu não aguento mais”, confessou.

Mas a postura tem um motivo: fomentar a produção contemporânea. “Tem que dar uma variada. A gente, como autor, sempre quer privilegiar as mais novas. Eu estou muito entusiasmado com as minhas novas ‘Talismã sem par’ e ‘Quem’. E as rádios têm que acompanhar isso, porque senão cada um monta seu repertório no MP4 e não precisa mais de rádio. As estações estão lá para somar, e continuar passando apenas as antigas é desestimulante para mim”.

Serviço

Show Jorge Vercillo – 20 anos

Data: 05/09/2015

Horário: 22h00

Local: Vivo Rio – Avenida Infante Dom Henrique, 85 – Parque do Flamengo (21) 2272-2901

Pesquisas relacionadas