*Por Brunna Condini
Jimmy Cliff partiu aos 81 anos, mas deixa no Brasil muitos capítulos fortes e afetivos de sua história. Um deles foi vivido com a jornalista, consultora de comunicação, ex-BBB e ex-namorada Harumi Ishihara, hoje com 73 anos, morando em São Paulo, que falou com o site Heloisa Tolipan sobre sua relação com o artista. Harumi, que participou do clipe de ‘We All Are One’, gravado no Rio em 1984, relembra o homem por trás da lenda e conta que conviveu de perto com o músico em um período em que o Brasil não era apenas destino de turnê, mas extensão natural da vida de Cliff. Poucos artistas estrangeiros construíram, ao longo de décadas, uma relação tão orgânica, duradoura e calorosa com o país quanto ele. Aqui, Jimmy Cliff não era apenas o músico consagrado internacionalmente: era trilha sonora, lembrança, cena de novela, refrão conhecido de cor. Um desses nomes que o público brasileiro adota com facilidade, como quem reconhece de longe uma energia familiar.
Além da carreira que tantas vezes passou por palcos brasileiros, ele também tinha um vínculo íntimo com o país: uma filha brasileira, Nabiyah Be, fruto de seu relacionamento com a brasileira Sônia de Macedo. Era comum vê-lo circulando pelo Rio com naturalidade, gravando, se apresentando, participando de festivais, sempre reafirmando uma conexão que nunca soava protocolar. Soava casa. A presença de Cliff também se escreveu pela televisão. Sua primeira música a entrar em uma novela da Globo foi ‘Love I Need’, em ‘Água Viva’ (1980), abrindo caminho para uma série de faixas que, ao longo dos anos, ajudaram a dar textura e clima a diferentes tramas. Vieram depois ‘Reggae Night’ em ‘Voltei pra Você’ (1983), ‘Hot Shot’ na primeira versão de ‘Ti Ti Ti’ (1985), ‘Now and Forever’ em ‘Brega & Chique’ (1987) e ‘Rebel In Me” em ‘Rainha da Sucata’ (1990), atualmente reprisada no Vale a Pena Ver de Novo. Sucessos que aproximaram ainda mais o público brasileiro do reggae e transformaram o artista em uma presença familiar no horário nobre.
Essa intimidade nunca foi só simbólica, foi literal. Depois das gravações de ‘We All Are One’, suas visitas ao país se tornaram tão frequentes que virou até brincadeira entre os fãs: bastava circular pela Zona Sul carioca para, quem sabe, cruzar com ele caminhando pela praia ou entrando em algum estúdio. Jimmy Cliff não apenas gostava do Brasil, ele o viveu. É dessa matéria viva, cheia de encontros, desencontros e afetos reais, que Harumi Ishihara nos fala.

Jimmy Cliff: o artista que transformou o Brasil em casa, trilha e afeto, numa relação que atravessou palcos, novelas e histórias pessoais (Foto: Reprodução/Instagram)
“Em 1980, eu era gerente de comunicação da WEA e organizei toda a divulgação da tour dele com o Gilberto Gil pelo Brasil. A primeira coletiva foi no Rio de Janeiro, no Mistura Fina, e lá o conheci. Namoramos durante a excursão e depois fui passar uns dias na Jamaica. Continuamos nos falando. Em 1983, ele voltou ao Brasil e ficamos juntos por alguns meses. Ele ficou no meu apartamento no Jardim Botânico”, lembra.
Eu era muito jovem, 29 anos, quando o conheci. Foi um marco na minha vida. Namorar um homem preto, enfrentar o preconceito, o racismo. Quebrar regras de uma sociedade racista. Foi uma grande paixão. Mudei minha vida por ele, enfrentei minha família, fui execrada por colegas de profissão. Mas, no final, ficou uma linda lembrança. Não falava com Jimmy há muitos anos, mas guardo boas recordações – Harumi Ishihara

Jimmy Cliff e Harumi Ishihara (Foto: Reprodução/Instagram)
Harumi lembra com carinho da convivência com o artista. “Nós ‘namoramos’ por três anos… tínhamos uma vida normal, caseira. Ele compôs duas músicas na minha casa. Íamos a shows, fomos a ensaios de escola de samba, jogo do Flamengo no Maracanã. Vimos Tim Maia (1942-1998) no Morro da Urca. Ele era excelente companhia. Afetuoso. Ensinou-me que a ganja é uma erva medicinal e que, como qualquer remédio, perde efeito quando você já está ‘curado’, no caso, com a mente expandida”. Ela também relembra como acabou participando do clipe de ‘We Are All One’ (gravado em locações no Rio de Janeiro). “Fui eu que arranjei com a Tizuka Yamasaki para dirigir o clipe. E durante as filmagens acabei participando, em uma cena rodada em Grumari”.

Jimmy Cliff partiu aos 81 anos (Foto: Reprodução/ Instagram)
A jornalista revela ainda por que a relação chegou ao fim. “Em um momento, Jimmy se envolveu com o candomblé, e um pai de santo carioca não gostou que ele tivesse me dado uma procuração para cuidar da carreira dele na América Latina. Jimmy então falou comigo por telefone, tinha levado o pai de santo para a Jamaica. Não gostei e interrompi a relação pessoal e profissional. Deixei de lançar ‘The Harder They Come’ (filme jamaicano de 1972, dirigido por Perry Henzell, roteirizado por Trevor D. Rhone e estrelado por Jimmy Cliff), que na época já estava bem encaminhado com uma distribuidora. Achei um despropósito ele ir atrás de um pai de santo que tinha conhecido há 20 dias e colocar nossa relação em xeque”. E conclui sobre o episódio: “Jimmy era muito simplório, um buscador da espiritualidade. Já tinha adentrado o islamismo, adotado o nome El Hadj Naïm Bachir. Ia fundo. No Rio, foi fazer a cabeça com o tal pai de santo. Nesse ponto, era muito influenciável. Mas foi um ser humano muito especial”.
Por que o Brasil abraçou Jimmy Cliff
A relação entre Jimmy Cliff e o público brasileiro sempre foi marcada por uma combinação rara: identificação, afeto e espontaneidade. Seu som, mesmo nas faixas mais energéticas, carregava um tipo de serenidade que dialogava com o brasileiro. Um olhar luminoso para o mundo, sem negar sua dureza. De uma alegria resistente. Cliff cantava sobre esperança sem ingenuidade. Sobre espiritualidade sem dogma. Sobre luz, mas sem ignorar as tempestades. E o Brasil encontrou nessa vibração um ponto de aconchego, com muito swing. Não por acaso, suas turnês sempre foram bem recebidas, seus DVDs gravados aqui se tornaram sucessos, e sua presença, tanto artística quanto pessoal, construiu raízes que vão além da música.
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