
* por Luísa Giraldo
Ícone do rap nacional, Gabriel O Pensador comemora 33 anos de carreira e 30 do segundo álbum, batizado “Ainda é só o começo” – o primeiro foi o arrebatador “Gabriel, o Pensador”. O compositor carioca e escritor foi o primeiro a difundir o estilo de música na língua portuguesa – um movimento que o levou a conquistar países lusófonos em todo o mundo. O artista de 51 anos continua definindo o estilo único de criar músicas: “de forma inteligente, crítica e corajosa”. Gabriel é visto como referência para profissionais da indústria fonográfica e, também, para as gerações mais jovens, cada vez mais ativas politicamente. A celebração das mais de três décadas de estrada na música foi em alta potência e a convite do Festival ID:Rio 25, multiplataforma que impulsiona a identidade/energia criativa da moda e empreendedorismo do estado do Rio de Janeiro. A quarta edição do evento foi realizada na mega estrutura montada na Praia de Icaraí, em Niterói. Artista multifacetado, Gabriel é autor de cinco livros e uma peça de teatro com “Um Garoto Chamado Rorbeto”, título ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantil.
Idealizado por Claudio Silveira e Helena Vieira Gualberto Silveira desde 2021, o ID:RIO propõe uma plataforma de conexões entre moda, capacitação, design, gastronomia, música e jornadas de conhecimento, impulsionando o microempreendedorismo e celebrando a energia criativa do estado do Rio de Janeiro. Em consonância, o músico descreve o festival como “um ambiente muito legal”, que valoriza “ a interação entre todas as pessoas”, de microempreendedores dos polos de moda do estado a todos os artistas e público em busca da pluralidade de iniciativas.
No mundo da música e da moda não há barreiras para a criatividade. É um campo aberto para a busca de novidades e de ideias surpreendentes. É uma conexão interessante. Artistas da música, desde sempre, até involuntariamente, acabam lançando moda com seus estilos de comportamento, de vestuário e de imagem – Gabriel O Pensador
Em entrevista exclusiva ao site Heloisa Tolipan, o rapper avalia que os desafios enfrentados no início da carreira foram singulares. Gabriel precisava “quebrar barreiras” do status quo da cena musical ao popularizar “um gênero que quase ninguém conhecia no Brasil”. Emocionado pelas três décadas de carreira, Gabriel o Pensador abre o coração sobre o objetivo de seu trabalho: “Expressar o que precisava desabafar. Não era um projeto de carreira. Nunca foi. Era um projeto de busca de liberdade de expressão, de conexão com os meus contemporâneos”.

No palco do ID:RIO 25, Gabriel O Pensador (Foto:Divulgação)
O artista descreve ter procurado gravadoras grandes e, como todo profissional em início de carreira, “ter levado alguns nãos até conseguir assinar” com uma. “Assim, pude mostrar o que era rap para quem nunca havia ouvido falar. O rap em português era uma novidade. Cheguei a Portugal e diversos países lusófonos e à África. Tive o prazer de visitar e fazer shows nesses lugares. Foi uma experiência muito importante e espontânea com algo que nasceu de forma muito íntima”.
Nunca imaginei que cantaria para tantas gerações diferentes e que as mensagens continuariam ecoando até hoje, com pessoas cantando letras que escrevi quando elas ainda nem tinham nascido. Era muito visceral – Gabriel O Pensador.
“Tudo aconteceu de forma muito espontânea e natural”, como analisa Gabriel e que segue essa fórmula há três décadas. “O que diria sobre o melhor momento: é o agora. É clichê e forçado, mas estou curtindo cada vez mais fazer shows e escrever. É minha maior dádiva. Agradeço por não enjoar de fazer o que faço. Pelo contrário, as apresentações me arrepiam. Curto cada improviso que os meus músicos fazem e gosto de escutar cada instrumento. Esse sempre vai ser o meu maior prêmio”, emociona-se.
Ele valoriza, evidentemente, os reconhecimentos que teve ao longo da trajetória, como o Grammy Latino 2024, na categoria “Melhor Interpretação Urbana em Língua Portuguesa” com a música “Cachimbo da Paz 2” – que contou com a participação de Lulu Santos e Xamã – uma sequência pós versão de 1998. Trata de temas como intolerância, violência, hipocrisia, descaso com povos originários e atraso social. Gabriel O Pensador tem resultados impressionantes em termos de números; apenas na plataforma Spotify, são 1,2 milhão de ouvintes mensais.
A minha maior conquista é ver a renovação do público. “Quando chega a hora do show e vejo pessoas que escutavam meus discos e hoje estão com os filhos ao lado, professores curtindo as músicas com os alunos, e outras altas histórias…. é a melhor comemoração”, celebra. Com exclusividade ele conta que este ano será a saideira da turnê de 33 anos, que reúne repertório de toda a carreira. A partir de 2026, um novo projeto surpreenderá o público.
Sobre os 30 anos do lançamento do álbum “Ainda é só o começo“, ele compartilhou em suas redes sociais: “Foi um grande desafio lançar um segundo disco após o sucesso e o impacto do primeiro, quando o rap em português ainda era uma novidade para a grande maioria da população lusófona. Este álbum veio para confirmar o meu compromisso com a carreira e com as possibilidades criativas do gênero musical no nosso idioma, com uma exploração bem criativa das métricas/flows e alguns temas inusitados. O single “Estudo errado” gerou polêmica aí questionar alguns conceitos e costumes do nosso sistema educacional”.

Gabriel O Pensador com sua energia contagiante, no palco do ID:RIO 25 (Foto:Divulgação)
Política e arte
É justo afirmar que Gabriel O Pensador se tornou um símbolo político na contemporaneidade.
Como poeta, há tanto para falar. Naturalmente, na minha obra, entram assuntos ligados às questões sociais e políticas de vários tipos. Tem muita força em certos momentos e as pessoas se apropriam dessas letras para expressar também a sua revolta. Há tantas coisas revoltantes na política do Brasil. Temos tantas histórias tristes e vergonhosas de corrupção – Gabriel o Pensador.
Apesar do orgulho de inserir o teor político em seu trabalho, o rapper pontua apenas um incômodo: o partidarismo: “Escrevi letras desse tipo [políticas] em todos os cenários de governos e partidos. Sempre fui um cara que me senti muito livre para ‘cutucar’, questionar e criticar. Não tenho partido político, mas o que está acontecendo atualmente é muito chato. As pessoas costumam “deduzir” que ‘se você critica um é porque apoia o outro’ e puxam para o lado do partidarismo. Desanima aqueles que querem exercer uma postura um pouco mais inteligente sobre política”, opina. Ao apostar em uma postura coletiva relacionada à mente aberta, Gabriel reforça acreditar “que a gente pode ter uma evolução”. Ele sugere se atentar aos perigos das paixões políticas.
O brasileiro pode começar a entender que deve ter cuidado com a polarização. Pode se colocar mais como cidadão e eleitor, exigindo os seus direitos a todos os políticos e de todas as esferas e partidos de uma forma menos apaixonada e mais lúcida. É o que tento fazer, mas neste momento de vida e de carreira, a política não é o tópico principal – Gabriel O Pensador.
Gabriel o Pensador analisa a nosso pedido a crescente presença da Inteligência Artificial (IA) na indústria da música e mapeia desafios para artistas iniciantes. “A gente está em uma fase de muitas novidades na forma de divulgar música, arte e vídeo. E, agora, com a Inteligência Artificial se transformando a cada dia radicalmente e trazendo coisas que a gente demora até a digerir. Mas são oportunidades para quem produz conteúdo artístico. O grande desafio é se destacar pela originalidade”.
De acordo com Gabriel, o mercado da música deve estar sempre ativo: “Sempre encorajo as pessoas que querem começar a criar arte, música de qualquer tipo e de qualquer gênero, a buscarem um diferencial”.

Gabriel O Pensador ganhou o Grammy Latino 2024, na categoria “Melhor Interpretação Urbana em Língua Portuguesa” (Foto: Divulgação)
Moda e música
O ID:Rio 25 valoriza a criatividade, a sustentabilidade e a inclusão como pilares do empreendedorismo. Ciente dos desafios dos microempreendedores, o evento aposta em toda a forma de arte como propulsora de transformação, oferecendo capacitação, visibilidade e conexões para impulsionar uma economia mais inteligente e colaborativa no Rio de Janeiro.
Gabriel O Pensador reflete sobre a sinergia da moda e da música, proposto pelo festival. “O que acho mais interessante no mundo da moda são as inovações, as quebras de paradigma, o surgimento de novos movimentos e novos conceitos. E a música tem muito disso. Sempre há um artista, uma música ou um estilo de vanguarda surgindo, uma experiência nova sendo feita”.

“No mundo da música e da moda, não há barreiras para a criatividade” (Foto: Divulgação)
Relembra ter se interessado pela música aos 11 anos, quando aconteceu a primeira edição do Rock In Rio (RIR), em 1985. Encantado com as memórias, ele detalha ter visto bandas de rock e artistas com estilos inovadores, “como Kiss, com as caras pintadas, e Ozzy Osbourne, que ‘comia morcegos’”. Ele também cita os brasileiros Ney Matogrosso e Carlinhos Brown como ótimos exemplos de artistas visualmente impactantes.
Vi desde criança como cada um trazia uma estética, uma presença marcante e uma personalidade às vezes mais extravagante. Era uma ruptura dos padrões visuais que, na época, chamavam ainda mais atenção. Hoje, é super comum vermos pessoas cheias de tatuagem, piercing e com roupas diferentes. Antigamente, os artistas eram muito importantes para fazerem com que as pessoas mais fora do padrão se sentissem representadas – Gabriel O Pensador
“As gerações dos 1980 e 1990, incluindo a anterior [1970, que é a dele], pegaram artistas que se destacaram demais pela autenticidade e pelas características únicas que cada um”, descreve. O cantor identifica alguns deles: Tim Maia (1942-1998), Raul Seixas (1945-1989) Cazuza (1958-1990), Chorão (1970-2013) e Charlie Brown Jr., Chico Science (1966-1997) Cássia Eller (1962-2001). “E um pouco depois, Renato Russo (1960-1996), o Barão Vermelho e a Legião Urbana”, acrescenta.
Esses artistas e bandas se destacavam tanto que, quando partem, deixam um vazio. Não existem outros parecidos. São insubstituíveis. São marcos e ícones que, por isso, deixam uma memória tão forte. Tem uma força imortal. A representatividade e a força deles é para sempre. Permanecem na memória afetiva de gerações futuras — Gabriel O Pensador
Ligação com Niterói
Além de ter participado da primeira edição do ID:Rio Festival, realizada em 2021 em Niterói, Gabriel O Pensador viveu muitas outras histórias na cidade. As lembranças envolvem amigos, família e apresentações. “Me sinto muito bem aqui, em Niterói, principalmente pela ligação que já tenho com o público. Tenho lembranças do comecinho da carreira que foram marcantes, na Concha Acústica, várias lembranças legais de trabalho e, depois, de amizades e surfe. Gosto daqui”, recorda.
Gabriel destaca ainda as lembranças da bisavó, “Tunica”, que morava no bairro do Fonseca. Com a mãe, a jornalista Belisa Ribeiro, ele “passou muitas férias em São Francisco”. Os dois se consideram “niteroienses de coração”. Nascido em Niterói, o avô materno, Afonsom também era músico e ele relembra: “Herdei o talento dele para a música. Além de outros trabalhos, ele fazia música por prazer. Tocava piano, pandeiro e violão. Era muito fera”.
Outra coincidência que liga o artista à cidade vizinha do Rio de Janeiro é o seu aniversário: 4 de março de 1974, o mesmo dia da inauguração da Ponte Presidente Costa e Silva, popularmente conhecida como Ponte Rio-Niterói. A construção atravessa a Baía de Guanabara e liga as duas cidades. “Sempre penso nisso quando estou passando por ela”, comenta aos risos.
Casamento e relacionamento
Os holofotes se voltaram para Gabriel o Pensador em dezembro, quando ele pediu Gabriela Vicente, de 24 anos, em casamento. Discreto, o casal está junto desde 2020, porém o relacionamento só se tornou público um ano mais tarde. Com exclusividade, o compositor detalha o cotidiano e a dinâmica do relacionamento.Os dois moram juntos há cinco anos, fato que leva o artista a considerar que eles “já tem uma relação de de casal [no sentido de casamento]” há tempos.
“A nossa rotina é muito boa. Estamos sempre viajando juntos nos shows. Ela participa comigo do trabalho, das decisões, das trocas de ideias quando estou criando também. É uma boa opinião sempre de quem não tem medo de fazer críticas construtivas. Posso contar com essa opinião boa e sincera”, explica”.
Essa sensação de ter uma parceira do lado [é boa]. A vida de artista pode ser muito solitária na estrada quando a pessoa fica fazendo muitos shows — Gabriel o Pensador.
Gabriel conta sobre os preparativos do casamento: “A gente vai fazer uma cerimônia para celebrar isso tudo perto da família dela. Vai ser muito emocionante para mim também, porque nunca casei. Já tive outros relacionamentos, mas nunca fiz uma festa de casamento. Vou curtir muito. A gente ainda está começando a pensar nos preparativos”, revela.
O ID:Rio 2025 é apresentado pela Enel com patrocínio do Governo do Estado do Rio de Janeiro, através da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura. O Festival conta com o apoio da Secretaria Municipal da Mulher de Niterói e do Clube Central de Icaraí, com realização da Equipe de Produção.
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