Música & Badalo

‘Gosto demais das nove faixas, eu e o disco estamos vivendo um romance’, diz Clarice Falcão sobre seu novo álbum

Depois de uma ausência de três anos, Clarice Falcão lançou, na quinta-feira (13), seu terceiro álbum de estúdio, “Tem Conserto”. Quer dizer, o disco digital não é exatamente “de estúdio”, uma vez que foi 99,9% gravado na casa da artista: “Esse trabalho foi feito no tapete da minha sala. Eu e o Lucas (de Paiva, produtor) gravamos sem pressa e sem prazos. Levamos um ano nisso. Ficamos muito amigos e nos divertimos trabalhando”, conta Clarice

Publicado em 14/06/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Jeff Lessa

Depois de uma ausência de três anos, Clarice Falcão lançou, na quinta-feira (13), seu terceiro álbum de estúdio, “Tem Conserto”. Quer dizer, o disco digital não é exatamente “de estúdio”, uma vez que foi 99,9% gravado na casa da artista: “Esse trabalho foi feito no tapete da minha sala. Eu e o Lucas (de Paiva, produtor) gravamos sem pressa e sem prazos. Levamos um ano nisso. Ficamos muito amigos e nos divertimos trabalhando”, conta Clarice, acrescentado que está apaixonada pelo resultado. “Gosto demais das nove faixas, eu e o disco estamos vivendo um romance”.

Capa de ‘Tem Conserto’, terceiro álbum de estúdio de Clarice Falcão

As canções que deixaram a cantora, compositora e atriz de 29 anos tão enlevada são todas inéditas. E têm uma “pegada” eletrônica que se choca com o teor de uma narrativa inspirada na ansiedade e na depressão profundas com que Clarice lida desde a adolescência. Em “Tem Conserto”, ela se nutre da própria vulnerabilidade para fazer arte e não titubeia ao expor sua intimidade em público. “Eu me conecto bem com as minhas fraquezas. Acho importante. É muito melhor se apresentar inteira, você se dá mais. É mais verdadeiro”, opina.

Não poderia ser diferente com uma artista que não se vincula a rótulos e procura expressar o que sente sem buscar um estilo ou uma linha definida. Seu primeiro álbum, “Monomania” (2013), era permeado por um folk leve em formato acústico. “Era o que eu ouvia na época”, ressalta Clarice. Em “Problema Meu”, o segundo, produzido por Alexandre Kassin em 2016, ela resolveu experimentar linguagens diferentes. “Cantei rock, brega, carimbó… foi bem eclético. Fiz o disco que eu queria ouvir”. “Tem Conserto”, claro, também segue o caminho da independência. “Faço o que sinto no momento. Mudei muito nesses seis anos desde ‘Monomania’ e o disco novo reflete o que sou agora.”

Capa de ‘Monomania’ (2013), o primeiro álbum, influenciado pelo folk

Para chegar ao resultado final, o entrosamento entre autora e produtor foi fundamental. E não teria dado certo se não tivesse sido assim. Nos encontros de trabalho, sempre na casa de Clarice, em Botafogo, Lucas abriu as portas do universo eletrônico e suas milhares de nuances e possibilidades para a moça. Ela, por sua vez, revestiu com alma e vida as batidas sintéticas com as quais o produtor sempre lidou.

Em ‘Problema Meu’, seu segundo disco, Clarice decidiu experimentar ritmos diferentes

Apesar de, para expor essa alma, tenha sido necessário tocar em assuntos como depressão, morte e outras tristezas, o disco não é baixo astral. Longe disso. A sonoridade eletrônica dá um up que faz de “Tem Conserto” um disco “de pista”, na definição da própria artista.

O disco foi gravado na casa da cantora e compositora, em Botafogo (Foto de Pedro Pinho)

Mal pra Saúde” é um bom exemplo desse mix de emoções. A canção, que fala com bom humor de um amor que deu muito errado, é deliciosamente dançante, num clima leve que remete ao synthpop dos anos 1980. O clipe dá o tom de brincadeira a uma história que, na vida, deve ter sido um pesadelo:

Cola um aviso / Do ministério

Na sua testa / Feito cigarro

Advertindo / Pra geral

Você faz mal / pra saúde

Você faz mal pra

Você faz mal pra

Saúde

Já “Esvaziou” lida, de forma sensível e tocante, com a questão da morte de alguém muito querido. É a única faixa que não é exclusivamente eletrônica: ela traz o baixo de Vinicius Paranhos.

Você era coisa demais

Pra ficar por aqui

Onde só cabe quem

Se desdobra em um só

A personalíssima “Só mais seis” lembra bastante o Cazuza de “Por que a gente é assim” (do álbum “Maior Abandonado”, 1984) para falar dos exageros cometidos pela náite e do indescritível pavor da solidão:

Da boca pro beco do rato pro after de alguém

Pra casa do amigo do primo de não sei bem quem

Pro bloco até esse bloco não ter mais ninguém

Sou livre sou livre sou livre até ser refém

“Tem Concerto”, a faixa que dá nome ao disco, é a última. É barra pesada, mas sinaliza com a famosa luz no fim do túnel:

Quem me quebrou / já não importa / e se fui eu

Peço desculpas / a quem já se machucou com os cacos

Deixa que eu limpo

Minha bagunça

Tô quebrada mas tem conserto

Não parece mas tem conserto

Para quem só se lembra da Clarice folk-fofa de “Monomania”, o novo trabalho vai surpreender. Vai mostrar uma compositora madura e segura, de humor ácido, bem distante da menina que começou apresentando composições cheias de tiradas humorísticas na internet, em plena flor dos 20 anos. “Quando eu comecei, só recebia elogios. Só comentários bons, era ótimo. À medida que fui ganhando fama, começaram a vir os comentários negativos. Muitos”, conta. “Eu não estava preparada, ficava triste. Chorava. Queria que gostassem de mim, que soubessem que eu era uma pessoa boa. Mas a gente fica cascuda e aprende a dar o tamanho que os comentários merecem. Tem dias em que estou muito equilibrada. Em outros bate mal, é assim mesmo”.

A Clarice de 2019 acha graça na iniciante que foi um dia. E conta que, mesmo com toda a agressividade de que são capazes os internautas, jamais sentiu sua vida ser invadida por fãs e detratores. “Nunca entrei para o rol das celebridades. Ninguém se interessava pelas minhas fofocas, não havia paparazzi correndo atrás de mim”, diverte-se. “Eu tinha um nicho que consistia de pessoas jovens que frequentavam a internet. Era um pessoal que gostava do ‘Porta dos Fundos’.”

O programa entrou na vida de Clarice meio por acaso. (Ou ela entrou na vida do programa meio por acaso, vejamos.) “Eu namorava o Gregório (Duvivier, fundador, roteirista e ator do “Porta dos Fundos”). Ele, o (Antonio) Tabet, o João Vicente (de Castro) e o (Fabio) Porchat viram meus vídeos no Youtube, gostaram e me chamaram para atuar. Assim, do nada, não quiseram saber se eu tinha experiência como atriz, não fizeram teste. Quando me dei conta, estava no elenco”, conta. “Foi o melhor ambiente de trabalho que já experimentei. Nunca me diverti tanto trabalhando”.

‘Mudei muito nesses seis anos desde ‘Monomania’’ (Foto de Pedro Pinho)

A saída do programa foi estratégica, para poder focar na carreira musical. ”Fiquei com pena por causa da galera. Mas eu precisava me renovar e o ‘Porta’ também. Aquele público que me acompanhava por causa do programa já não me segue mais”, diz.

Não sabe o que está perdendo.

CLARICE FALCÃO

“Tem Conserto”

Lançamento: Independente

Distribuição digital: Ditto Music

Junho de 2019

 

Ouça o álbum nas plataformas digitais 

http://ditto.fm/claricefalcaotemconserto

 

Clipes

https://youtu.be/ejTgc3mHcTQ

https://youtu.be/dZnKYPEJyk8

https://youtu.be/QicpVC9zJyA

 

Turnê “Em Conserto” – Shows Confirmados

28/06 – Cultural Bar – Juiz de Fora

07/07 – Sesc Pompeia – São Paulo

20/07 – Circo Voador – Rio de Janeiro

26/07 – Sesc Palladium – Belo Horizonte

02/08 – Bar Opinião – Porto Alegre

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