Ante toda emoção que costuma acompanhar o nome de Gilberto Gil, vê-lo sobre o palco – e diante do “Palco”, que não é apenas o título de uma de suas canções, mas uma metáfora de sua própria vida — é tal qual testemunhar uma epifania e também observar um homem inteiro. Mas paralela aquela ideia de que ele seria “um orixá vivo”. Gilberto é humano, humaníssimo. E é justamente dessa humanidade que ele compartilha com o público um fragmento de vida e memória — dele, mas também do Brasil.
“Tempo Rei — A Última Turnê” marca sua despedida das grandes apresentações, aquelas que cruzam o país e o mundo e reúnem multidões. O show realizado no último fim de semana de outubro, na Farmasi Arena, no Rio de Janeiro, teve o peso simbólico de um rito de passagem. Não apenas para o público, mas também para quem tornou o espetáculo possível.
“Não me iludo/Tudo permanecerá do jeito que tem sido/Transcorrendo, transformando/Tempo e espaço navegando todos os sentidos (…) Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei/Transformai as velhas formas do viver/Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei/Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei (…) – “Tempo Rei”

Gilberto Gil: 43 anos de estrada levando sua música pelo Brasil e o mundo (Foto: Agnews/Webert Belicio)
Diretora Regional Venues da GL events, Silvia Albuquerque analisa a dimensão do momento: “É um orgulho recebermos Gilberto Gil aqui, na Farmasi Arena. Dessa turnê “Tempo Rei“, nós recebemos os primeiros shows do Rio de Janeiro e este último show de Gilberto Gil. Então, ficamos extremamente sensibilizados. Gil é um artista completo. E todos os outros shows, assim como este, lotados. É uma energia – as pessoas cantam as músicas do início ao fim. Sempre canções que lembram toda a sua trajetória de vida e profissão”.
Agente global do setor dos eventos, a GL events gerencia uma rede de 60 locais em França, Europa, América do Sul e Ásia. Centros de convenções, centros de exposições, locais de recepções, salões multiusos, etc. A empresa foi fundada em 1978, na cidade de Lyon, França. Instalada no Brasil desde 2006, a GL events Brasil consolidou-se como uma das maiores empresas do setor nacional, contribuindo de forma decisiva para o fortalecimento do turismo de negócios e eventos. A companhia é responsável pela gestão de importantes equipamentos, como Farmasi Arena, por exemplo, e a realização de eventos de grande porte que impulsionam a economia e a cultura.
Silvia Albuquerque conta que, a parceria com a produtora 30E, responsável por organizar e promover a turnê com a Gegê, foi decisiva para que o espetáculo fosse realizado na Farmasi Arena, no Rio de Janeiro. “A gente teve, graças a Deus, a sorte de ser escolhido por Gilberto Gil — a casa ser escolhida por ele e pela 30E, uma empresa que é super parceira nossa. Farmasi Arena é um lugar bem preparado para receber um grande show como o de Gil, grande, completo”. Segundo Silvia, o peso histórico e emocional do evento tocou também a equipe. “Parte do nosso time fez uma entrevista com ele e se emocionou. As pessoas realmente se sentem conectadas com um artista como Gilberto Gil”.
EMOÇÃO À FLOR DA PELE
“Tempo Rei – a última turnê” abriu com “Palco”, canção do álbum Luar (A Gente Precisa Ver o Luar) — disco que ainda renderia outras três faixas ao repertório da noite: “Se Eu Quiser Falar com Deus” e a própria “Luar”.
De Um Banda Um, vieram a música-título e outros clássicos do período. A sequência trouxe “Andar com Fé”, “Drão” e “Esotérico” — cada uma recebida como um reencontro entre velhos conhecidos.
O passeio de Gil por sua própria carreira tem a estrutura de um mosaico: há pelo menos uma canção de cada um de seus álbuns. Inclui, claro, “Bat Macumba”, do primeiro disco lançado ao lado da turma da Tropicália — como um lembrete de que o futuro da música brasileira começou ali, e que ele esteve no olho do furacão.
Mas o espetáculo não é só retrospectiva. É também uma construção visual. O conceito videográfico, talvez um dos mais perfeitos entre os shows recentes, está em sintonia com a narrativa musical. Daniela Thomas assinou o cenário-instalação de memória e movimento, um painel que convoca artistas, momentos e inspirações que atravessaram a trajetória de Gil, transformando o palco em experiência imersiva e delicada.
E Daniela contou com a parceria do estúdio Radiográfico, fundado por Olívia Ferreira e Pedro Garavaglia, – que, ao longo de 10 anos, construiu uma linguagem própria, na qual arte, design e colaboração se entrelaçam, propondo novas formas de criar, ver e sentir imagens. A turnê “Tempo Rei”, de Gilberto Gil, talvez seja a síntese dessa filosofia: a imagem como extensão do som, do corpo e da memória. “Desde o início, entendemos que as imagens não estariam ali apenas como fundo, mas como uma camada a mais da música”, contam. “As animações foram pensadas como canções gráficas – construídas camada a camada, como se também tocassem junto com ele”. No projeto, há também uma homenagem à própria ideia de imagem e à sua potência original, tantas vezes diluída no fluxo incessante de rolagens, curtidas e estímulos superficiais. Cada quadro foi pensado para ter papel narrativo, expressivo e transformador – compondo um audiovisual expandido que só se revela plenamente no encontro físico com o público”.

Gil e Jorge Ben Jor no cenário fantástico e pura arte (Foto: Agnews/Thiago Andrade)
Há ainda o fator família especialmente presentes nas produções videográficas, assim como no palco, numa extensão natural do gesto que sempre fez de sua arte uma conversa repleta de afeto em família ampliado para o público.
No sábado, o palco se abriu também para convidados: Iza e Zeca Pagodinho. Ambos trouxeram o tempero 021 a essa grande geleia geral brasileira proposta pelo baiano do Bonfim – o mesmo que o Brasil acostumou-se a ver, ouvir e sentir. E é justamente isso que faz dos deuses — como Gil — inesquecíveis.

Gilberto Gil e Iza cantaram “Não chore mais”, música de 1979 (Foto: Agnews/Webert Belicio)

Gil e Zeca Pagodinho cantando “Aquele abraço”, de 1969 (Foto: Agnews/Webert Belicio)
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