Depois de quatro singles que reacenderam a memória recente de sua voz, chega às plataformas, nesta sexta-feira (17), o álbum “As Várias Pontas de uma Estrela (Ao Vivo no Coala)”, registro do último show de Gal Costa (1945-2022), realizado em 17 de setembro de 2022, no Coala Festival, no Memorial da América Latina, em São Paulo. O lançamento ganha uma coincidência simbólica: acontece no mesmo dia da exibição do capítulo final de “Vale Tudo”, remake cuja abertura tem a voz de Gal interpretando “Brasil” como na novela original de 1988. A canção, naturalmente, integra o repertório do novo disco.
Além do lançamento digital, a Biscoito Fino apresenta também o audiovisual do show, na mesma sexta-feira. A pós-produção ficou a cargo de Andre Wainer, da Vudoo Filmes, que trabalhou sobre o material captado pela equipe da Noize, parceira do Coala Festival. “Só existia o arquivo extraído da transmissão ao vivo: a essência estava lá, mas era fundamental recuperar a força visual das imagens. Com recursos de inteligência artificial, trabalhamos a imagem, eliminamos as marcas da compressão e recuperamos a densidade necessária para uma boa correção de cor e finalização. É uma satisfação poder contribuir para devolver o material à altura da importância que ele tem”, explica Wainer.
O audiovisual estreia simultaneamente no canal da Biscoito Fino no YouTube, permanecendo disponível na íntegra até segunda-feira (20). Depois, retorna ao ar em formato de videoclipes, faixa a faixa.
As homenagens aos 80 anos de Gal Costa também chegam às redes sociais. No dia 1º de outubro, foi lançado o perfil oficial da cantora no TikTok, administrado pela Biscoito Fino em parceria com a Bliss Digital. A iniciativa busca aproximar o legado de Gal de uma nova geração — majoritariamente jovem — e reforça o ecossistema digital já expressivo da artista: mais de 1 milhão de seguidores no Instagram, 220 mil no YouTube e 2,6 milhões de ouvintes mensais no Spotify.

Novo disco de Gal Costa, póstumo, lançado em outubro (Foto: Divulgação)
Com áudio especialmente mixado e masterizado, o registro do Coala captura uma Gal Costa em plena vitalidade, como lembra Marcus Preto, diretor do espetáculo e produtor de seus últimos trabalhos. “Este show teria acontecido dois anos antes, em 2020, mas foi adiado um par de vezes por causa da pandemia. Essa volta para a vida, para a rua, deixou Gal com um gás danado, e a apresentação no Coala estava coroando tudo isso, de alguma maneira. Ela saiu do palco empolgadíssima com o público, predominantemente jovem, e com a própria performance naquela noite.”
O repertório de “As Várias Pontas de uma Estrela (Ao Vivo no Coala)” traduz a intenção de Gal de cantar Milton Nascimento — inspiração para o título do show — e seus contemporâneos mineiros, intercalando essas homenagens com clássicos revisitados no álbum “Nenhuma Dor”, de 2021, lançado em comemoração aos 75 anos da artista.
O roteiro de “As Várias Pontas de uma Estrela”, que já havia passado por Portugal e por algumas cidades brasileiras, ganhou ajustes específicos para o Coala Festival. “Fizemos pequenas modificações para entrarem as participações especiais de Rubel e Tim Bernardes. Como Gal estava em tratamento, ensaiamos sem ela: deixamos tudo preparado, com as marcações dos meninos feitas, e ela arrasou”, recorda Marcus Preto, diretor do espetáculo e parceiro artístico da cantora em seus últimos trabalhos.

Gal Costa morreu em 2022 (Foto: Roncca)
Para Rubel, que dividiu o palco com Gal em “Dois e Dois”, a noite ficou marcada por uma intensidade difícil de definir. “Havia algo diferente no ar. Um tipo de emoção à flor da pele que não se explica. Eu estive com Gal umas quatro vezes, mas nesse dia algo nela reluzia de maneira diferente. Hoje eu penso que talvez fosse uma intuição de que aquele seria o seu último show. Gal era muito espiritualizada e parecia ter clareza sobre os mistérios. Poder acompanhá-la em sua despedida foi o maior presente que a música me deu.”
A mesma impressão acompanha Tim Bernardes, convidado para uma nova leitura de “Vapor Barato”. “Aquele show foi diferente. Alguma coisa rolou, todo mundo estava bem eletrizado. Foi a primeira vez que eu toquei ao vivo com a Gal: nas imagens do show, dá para ver que eu estou sem conseguir segurar o sorriso. Teve um clima rock and roll, que foi como a Gal me conquistou quando eu conheci os discos da virada dos anos 1960 para os 1970. Fico feliz em saber que tudo isso vai estar disponível. É um show que eu tenho muita honra e alegria de ter feito parte”.

Gal Costa é um dos maiores nomes da música brasileira (Foto: Roncca)
Em “As Várias Pontas de uma Estrela (Ao Vivo no Coala)”, o que se ouve não é apenas o registro de um concerto — é o instante em que a arte toca o mistério. Gal canta como quem se despede sem partir, como quem entrega à música o gesto de permanecer. Há, em cada faixa, o sopro vital de uma artista que sempre transformou o palco em território sagrado, onde fé e som se confundem. O disco, agora devolvido ao público com nitidez restaurada e emoção intacta, é mais que um documento: é a última aparição luminosa de uma voz que ainda reverbera — múltipla, moderna, eterna — em todas as pontas de uma estrela.
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