Música & Badalo

Festolipan! Duda Brack é nome quente desde o lançamento de seu disco “É”; e a gente tem uma entrevista exclusiva com ela

Na nossa seção dedicada a apresentar novos talentos, a gente apresenta a cantora gaúcha de 21 anos que além de voz e composições poderosas, é ótima de papo

Publicado em 26/05/2015 | Por Junior de Paula

O Festolipan é aquela nossa seção amada que apresenta um novo talento das mais variadas vertentes artísticas, como os nossos leitores mais antigos já sabem; e a escolhida da semana é Duda Brack. Ela tem só 21 anos, mas chegou com uma força tão intensa no mercado da música que parece que a menina gaúcha carrega um mundo nas costas. E talvez carregue mesmo. Um mundo novo, cheio de referências, de amor, de urgência e de atitude, que faz com que ela fique ainda mais interessante. O jornalista especializado em música Mauro Ferreira, por exemplo, já a definiu como a voz de 2015, e Zé Pedro, DJ, dono do selo Joia Moderna e profundo pesquisador de música brasileira, decretou: “Não adianta vir com diva antiga, para mim é Duda Brack que eu quero beber”. E a gente, tiete, faz coro.

Duda Brack em foto de Flora Pimentel

Duda Brack em foto de Flora Pimentel

Duda, que acabou de lançar seu primeiro disco, batizado “É” canta aquilo que a gente quer ouvir, do jeito que a gente quer ouvir e na hora certa que a gente quer ouvir. Como diz em uma das canções, ela veio “desvendar o sagrado segredo de tocar o intocável intocado”. Por isso, a gente foi atrás da artista para conversar sobre a mudança para o Rio, sua história, faculdade de música, poesia, internet e tudo mais que coubesse num papo cheio de dores e delícias. Vem com a gente!

HT: Quem é Duda Brack?

DB: “Quem é Duda Brack” é uma pergunta complexa que não cabe muito bem em uma resposta, né? Tenho 21 anos, sou gaúcha e moro no Rio há 3 anos e meio. Sempre fui cantora de chuveiro, mas sempre alcancei com isso a minha maior plenitude . Quando fiz 15 anos escolhi pular nesse abismo e me experimentar – comecei a cantar na escola, nas festas de amigos, em formaturas… Depois vieram os bares, os grupos vocais, as aulas de canto… Quanto mais eu mergulhava nisso tudo, mais tragada por tudo isso eu era. Com o tempo, foi se tornando inevitável devotar a minha existência à música.

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(Foto: Márcio Nunes)

HT: Vc participou – e ganhou – alguns festivais de música, né? Como é para uma artista tão moderna e contemporânea se utilizar de um processo que remete aos velhos tempos pré-internet?

DB: Do ponto de vista prático: é maravilhoso. Os festivais ainda são das poucas iniciativas que movimentam o cenário autoral da canção brasileira, e são também uma possibilidade de o artista viver o “acontecimento-música” no plano real: o palco, a platéia, a troca, o instante. A internet nunca vai dar conta dessa “magia”. Do ponto de vista poético: não é lindo poder transitar entre o físico e o digital?! Acredito que o desenvolvimento tecnológico está a serviço de criar novos caminhos, possibilidades e oportunidades, mas isso não nega nem desvaloriza as formas antigas. Se a gente subtraí-las, a gente sai perdendo. E a gente só quer ganhar, somar.

HT: Inspirado na sua música Eu Sou o Ar, eu pergunto: o que te tira o ar, o que te faz respirar aliviada e o que é o Seu Ar ultimamente? E por quê?

DB: A metáfora do ar nessa canção – entendo – faz uma alusão ao canto, e a tudo que “oxigena” a vida. A partir disso, o meu ar seria tudo aquilo onde há tesão em mim. Tudo o que me move. E o que faz eu me sentir menos “inadequada” no mundo. Cinema; sorvete de gengibre; perfume francês; ouvir a Fiona Apple cantar; pessoas morenas – homens morenos – homens morenos com regata; pessoas convictas; pessoas que cospem a alma pela boca quando cantam; pessoas que transam como dançam (e vice-versa); estar cercada só de quem me interessa; viajar; o caos-válido-do-palco e o frio-na-barriga-precedente; poesia e o que não se diz sem metafísica; o que inebria. Meu ar é amar.

HT: Você se mudou para o Rio para poder tentar viver de arte e trouxe sua mãe e sua irmã juntas, certo? Qual a importância de ter sua família junto de você nesse processo? Não é muita responsabilidade sobre seus ombros todo mundo mudar a vida para te acompanhar no sonho?

DB: Elas são o gênese te tudo: amor, luz, fé, força, coragem, sonho e possibilidade. Elas são o meu maior alicerce, e são responsáveis por toda beleza acesa em mim por dentro. Tudo até aqui – e o que eu venha ainda a construir – são conquista e mérito tão meus quanto delas. É aboslutamente impossível mensurar: a importância delas nesse processo é “impalavravel”. Acho que a partir do momento que o sonho é nosso, e a entrega é nossa, a responsabilidade também é nossa. Entende? Nós somos uma gangue. Rs. E trilhar essa loucura comigo foi uma escolha delas.

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HT: Você cursava música na Uni Rio e em determinado momento li uma reportagem em que você dizia “Não é lá que vou encontrar os saberes que eu busco”. Que saberes são estes? Já os encontrou? Por que resolveu entrar e por que resolveu sair?

DB: Bom, pra começar: eu nunca saí da Unirio. Estou com este semestre trancado por conta do lançamento do disco, mas eu ainda estudo lá. Fazer vestibular e cursar uma faculdade foi uma imposição do meu pai. E passar no vestibular da Unirio foi a desculpa que faltava pra eu poder, enfim, mudar pro Rio. Quando prestei vestibular eu estava começando a cantar, já estava muito decidida a respeito do que eu almejava, e escolhi cursar música por entender que seria algo que me traria uma série de conhecimentos aplicáveis ao que eu buscava construir dentro da música. Não sei se foi exatamente isso que você leu na reportagem, porque me soa um tanto leviano. Quero dizer: lógico que a faculdade já me ensinou coisas, e isso agrega no meu processo de musicalização como um todo, mas o curso tem um objetivo e uma visão diferentes dos meus. Minha relação com a música é bastante intuitiva, e está a serviço de algo mais amplo. Pra mim, a música é só um dos veículos presentes na construção do meu trabalho. O que me interessa na música é mais subjetivo do que teórico, entende? Esses saberes que eu busco nada mais são do que as minhas curiosidades – que por sua vez, nada mais são do que o que me move a fazer arte. Encontrei alguns, mas graças a Deus ainda tem tantos… Essas coisas a gente passa a vida inteira procurando.

HT: A poesia é um elemento muito forte na sua obra e no seu disco. Fala um pouco da sua relação com a palavra, com a letra, com a poesia. A palavra vem antes do som na sua vida? Como é essa relação?

DB: A semântica, a metáfora, a fonética, e tudo que isso conecta é um fetiche. A palavra é fetiche. E ela em si não define, posto que é só forma: o que importa é o conteúdo: o que aquilo expressa: o que interessa mais é o indizível contido em tudo que se diz. Sim: eu tenho uma tara louca com a letra, mas tenho uma tara bizarra com a melodia também. Sou muito melódica. Não consigo preferir nem preterir nenhum dos dois, acho que os dois vem junto. Aliás, eu acho que, pra mim, tá tudo junto. Busco construir o meu trabalho sem hierarquizar os elementos: sabe? Tudo tá a serviço de tudo, compondo o mesmo universo. Não me interessam as partes isoladas, me interessa a congruência das partes no todo.

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(Foto: Márcio Nunes)

HT: Hoje em dia é muito mais fácil levar sua arte para outras pessoas por e nunca a relação entre público e artista foi tão próxima. Mas, por outro lado, as novidades nunca foram tão efêmeras. Como foi para você mergulhar nesse novo mundo em busca de mostrar sua música e como acha que vai conseguir se manter nadando?

DB: Me interessam os meios, e não o fim. Eu gosto é do caminho, do processo. Enquanto eu tiver inquietudes, curiosidades, desejos, vontades, eu vou ter chão pra percorrer. Enquanto eu fizer o que eu gosto, vou gostar do que faço, e, assim, eu vou me manter nandando. O resto é consequência. Mostrar minha música é o cumprimento orgânico e natural: ver minha obra ressignificada e ressignificando outras existencias; colaborando e construindo no universo ao meu redor.

HT: Conta um pouco do processo de “É”. Quanto tempo demorou para juntar estas músicas, como financiou o disco, como foi colocar este disco para nascer?

DB: Esse disco é fruto dos atravessamentos que vem me acontecendo desde que eu mudei pro Rio. Primeiramente, o repertório: todos os compositores presentes no disco são amigos, ou seja: tive a oportunidade de estabelecer trocas muito intensas e singulares com cada um dos autores, e fui pinçando dentro da obra deles canções que eu me identificava (com excessão de “Eu sou o ar” que foi feita pra mim). Entre a “chegança” da primeira canção e da última existiram uns 2 anos e meio.

Você não perguntou, mas acho importante contar – até pra costurar a linha de desenvolvimento cronologicamente: Quando o repertório estava quase todo definido, formei minha banda (Barbosa na bateria, Gabriel Ventura na guitarra, Yuri Pimentel no baixo). Passei uns 8 meses criando os arranjos com os meninos na sala da casa do Yuri, e quando a gente achou que tinha algo pronto e sólido em mãos, chamamos Bruno Giorgi pra produzir, gravar, mixar e masterizar – o que levou mais um ano.

Sobre financiamento: “É” é um projeto independente bem coletivo e colaborativo. Todo mundo que trabalhou é parceiro no projeto, e topou fazer nas condições que eu podia oferecer. Eu já vinha juntando alguma verba com a premiação dos festivais que ganhei em 2012 e 2013, e somei isso à um “crowdfunding familiar”.

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Capa do Disco “É”, que tem foto da artista húngara Flora Borsi

HT: E essa capa linda? Como surgiu?

DB: É um testemunho de que Deus deixa as coisas darem errado que é pra dar mais certo… Durante todo o processo de produção do disco eu pesquisei referências pra capa do disco, e no final encontrei uma imagem num banco de pesquisas que estava sem créditos e me apaixonei por ela. Tentei desdobrar essa referências, fiz uns testes, mas na hora de fazer o tratamento final (porque essa referência tinha um trabalho de pós via photoshop) deu tudo errado e ficou uma mierda (Nisso, eu estava há dois meses de lançar o disco). Entrei em pânico, fiquei desesperada, e pesquisei mais. Pesquisando eu descobri que a primeira referência que eu tinha encontrado era de uma artista húngara, que tinha a minha idade, chamada Flora Borsi. Descobri o site, o email e o whatsapp dela, e resolvi escrever pra ela. Me apresentei, mandei o disco, e pedi se ela poderia me licenciar a imagem. Ela respondeu dizendo que tinha amado meu som, mas que aquela imagem, específicamente ela não poderia me ceder, pois ela já tinha vendido para o “Adobe Photoshop” para ser a nova capa do programa. (Ou seja: se minha primeira tentativa de desdobrar a referência tivesse dado certo, eu teria uma capa muito parecida com a do photoshop e isso seria ridículo. Rs). Ela então sugeriu que eu escolhesse uma imagem da série “Lookbook” – que era, coincidentemente, um dos trabalhos dela que eu mais gostava. Então eu escolhi essa, que hoje é a capa. E hoje acho, inclusive, que ela tem muito mais a ver. Enfim, Deus escrevendo certo por linhas tortas.

HT: Você é jovem e urgente. Suas letras e sua voz têm uma urgência. Como uma jovem urgente enxerga o cenário político brasileiro? Como isso te afeta como cidadã e artista?

DB: Meu trabalho é existencial: eu exponho e exploro questões deste cunho, mas percebo que todas estas questões sofrem, direta ou indiretamente, interferência do meio. Logo, o contexto político afeta. Mas afeta porque me afeta, antes, como cidadã – me parece que seria egoísmo traçar um raciocínio inverso a este. E, como cidadã, não me vejo mais ou menos afetada, por ser artista, do que qualquer outra pessoa com qualquer outra profissão ou devoção. Pertencemos a uma mesma sociedade, e nos desenvolvemos em um mesmo meio.

Acho que não precisa ser nem jovem, nem artista e nem urgente pra reconhecer que está tudo uma bosta, né? Enfrentamos crises na economia, saúde, educação que tem por origem uma crise política – de má administração, corrupção, desvios de verba, falta de investimentos, displicência, etc. – e isso desestrutura o desenvolvimento cultural, artístico, psicológico, emocional da nação que eu integro. Como todo e qualquer cidadão brasileiro, vejo o cenário político com preocupação. Mas também com um olhar “esperançoso-realista”. Ainda que ainda haja impunidade, acredito que o vél da ignorância já começou a cair por terra. Acho que o fato de todas estas questões – que são seculares e inerentes à nossa recente “democracia-meia-bomba” – nos estarem sendo reveladas já é um avanço.

A arte também é uma maneira de se posicionar politicamente, e o artista é um formador de opinião, que exerce uma influência intelectutal muito grande no modo de reflexão e construção do pensamento da sociedade. Busquemos mais o esclarecimento à cerca da situação política atual para poder engajarmo-nos mais e lutarmos mais por nossos ideais.

HT: Que pergunta você gostaria de responder e que eu não te fiz?

DB: Que bicho eu gostaria de ser se eu fosse um.

Para baixar o CD é só clicar aqui!

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