“Na madruga boladona, sentada na esquina, esperando tu passar, altas horas da matina”. Se você estava vivo e consciente no início dos anos 2000, certamente conhece essa letra, pertencente a um dos funks de maior sucesso na época, “Boladona”. Mas não foi essa a única música de Tatiana dos Santos Lourenço, a Tati Quebra Barraco, que ficou popular em programas de TV e rádios do gênero: outros batidões como o trocadilho de “Dako é bom”, “Desce Glamurosa” e “Eva e Adão” também eram figurinhas fáceis entre os amantes do gênero. Entretanto, isso tudo aconteceu há cerca de 10 anos, e a MC que lança o álbum “Se Liberta”, grava o primeiro videoclipe da sua carreira para a faixa de mesmo nome e estrela o reality show “Lucky Ladies”, da Fox Brasil, está diferente, mesmo que se mantenha fiel às suas origens: “Eu não mudei. Estou cantando outros ritmos, mas o meu tamborzão é raiz e eu não mudo isso nunca!”, comenta a carioca em entrevista exclusiva ao HT.
Tati Quebra Barraco – “Boladona”
Os outros ritmos aos quais a MC se refere são facilmente perceptíveis na música de divulgação “Se Liberta”, na qual ela investe no funk pop, que tem se tornado a principal arma de outras cantoras que começaram no mesmo gênero que Tati, como Anitta, Valesca e Ludmilla: “A gente tem que fazer o que a galera está fazendo e canta o que dá. Eu canto funk, mas tem pop também e o pagode no meio do disco. A gente tava querendo trabalhar, sabe? Se rolar, rolou”, ela comenta. A nova estratégia vem após a própria artista perceber o ‘boom’ que o ritmo tem feito nas rádios e nas vendas do país: “O que acontece é que os contratantes não querem valorizar o nosso trabalho, querem pagar os novatos. E se não pagar o meu valor, eu não toco! Se eu não me valorizar, quem vai fazer isso por mim?”.

Tati Quebra Barraco: um dos maiores nomes do funk carioca vive nova fase na carreira, com reality show na Fox Brasil e disco que aposta em outros gêneros além do batidão (Foto: Divulgação)
Para voltar a fazer sucesso em um mercado cada vez mais exigente, a funkeira precisou gravar o seu primeiro videoclipe em 17 anos de estrada: “Nunca tive um, mas amei fazer. No início fiquei um pouco nervosa, mas depois ‘relaxou'”, ela conta. As novas particularidades da indústria fonográfica e do meio do funk, entretanto, não assustam a veterana, que se mostra segura com o seu lugar: “Eu surgi em 1998, com o DJ Marlboro. Desde 2004 que eu faço shows pelo Brasil inteiro e até viajei para fora. Eu já estou trabalhando há bastante tempo. Na vida, tudo mudo e vai mudar mesmo. Mas, agora, eu acho que estou mais experiente, querendo saber mais das coisas. Antes era tudo muito corrido, eu não tinha tempo de ver as músicas até a hora de gravar. Hoje eu ajudo a fazer tudo, como fiz com o meu primeiro CD”.
Videoclipe oficial de “Se Liberta”
Apesar das investidas nos outros gêneros, os fãs mais ferrenhos do funk “proibidão” não têm com o que se preocupar. O novo álbum de Tati traz exatamente a fórmula pela qual ficou conhecida e a que faz sucesso nas baladas do país inteiro, com músicas como “Tô pegando pai, tô pegando filho” e “Receita do Prazer” falando sobre sexo, mas com um nível a menos de palavrões: “Eu acredito que não é só o funk que fala de sexo: o rock, o sertanejo e pagode também tratam disso. Infelizmente, o funk é visto assim porque vem da comunidade e da periferia, mas a gente veio para chocar e causar mesmo”, ri.
Tati, ciente disso ou não, desempenha o papel da funkeira que ajuda a libertação do corpo da mulher e o empoderamento feminino. Seu novo álbum, por exemplo, traz letras altamente feministas, como “Na minha vida mando eu/ No jogo do interesse, você não me convenceu/Me deu vida de luxo, mesmo assim não me prendeu”; e ainda, de forma mais explícita, com “Eu sou a Quebra Barraco e vou ensinar como é que faz / Se os homens tão traindo, as mulheres vão trair mais/ Não tem essa de santinha, de ficar dentro de casa, eu lavando e passando e você na cachorrada[…] Os direitos são iguais“. Para ela, claro, não há problema alguma em uma mulher cantar esse tipo de coisa – e por quê deveria? “Sempre vai ter preconceito, mas quem tem boca fala o que quer. Eu só não esquento a cabeça com isso”, diz, sem se parecer minimamente preocupada. Simone de Beauvoir (1908 – 1986) deve estar aplaudindo do túmulo nesse momento.
Tati Quebra Barraco – “Os Direitos São Iguais”
O público conhecerá um pouco mais de Tati Quebra Barraco com o reality show “Lucky Ladies”, que estreia 25 de maio na Fox Brasil. Nele, a funkeira será a mentora de MC Carol, MC Sabrina, Mary Silvestre, Karol K e Mulher Filé, para juntas fazerem um show inesquecível que entrará para a história do funk carioca. Ela faz mistério sobre o programa, mas entrega que o público terá uma surpresa: “Eu fiquei muito feliz com o convite! Me senti bem, né. Vai ter muita coisa lá e uma reviravolta mais à frente”, ela comenta. Não é só o lado artístico que os telespectadores verão ali. A vida na favela também será mostrada, de forma leve, mas verídica. Afinal, é impossível falar de funk e não subir o morro. A própria Tati, apesar de não morar lá mais, conta que é frequentadora assídua da Cidade de Deus, onde morava quando surgiu na mídia.
Comercial de “Lucky Ladies”
Entretanto, como bem sabe o brasileiro que abre o jornal ou liga a TV pelo menos uma vez por semana, a favela está longe de ser aquele paraíso tranquilo vendido aos gringos. Ainda na semana passada, uma criança de 10 anos foi assassinada enquanto a Polícia Militar invadia o Morro do Alemão para uma “missão de pacificação”. Tati comenta que ficou sabendo do caso e, apesar de se recusar a dizer o que acha sobre as UPPs, fala sobre a vida do morro: “Eu acho que as pessoas têm que estar lá para falar. Isso aqui, hoje, é uma realidade crua e cruel para a gente. Não é só no Complexo do Alemão, é em várias comunidades. Só sabe disso quem vive lá”, ela conta.
Com 34 anos, a nova fase da carreira de Tati promete colocar a MC novamente no centro das atenções, numa época em que o gênero tem tudo para decolar ainda mais para fora do país e ela, uma de suas principais e mais antigas artistas, tem público fiel para isso. “Graças a Deus, o funk está mais reconhecido hoje. Porque ninguém acaba com o funk!”, declara. E, como ela mesma canta para as “novinhas” no disco, “Vocês são da pista agora, eu sou da pista há muito tempo”.
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