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Exclusivo! Pedro Luís leva Monobloco às ruas e comenta ausência de marchinhas: “Hoje, se alguém fizer uma ‘Cabeleira do Zezé’, é capaz de ser apedrejado”

O vocalista da banda, que saiu pelo Centro do Rio de Janeiro pelo 16º ano para comemorar a saideira do carnaval, acredita que a longevidade da banda é fruto da união entre a velha guarda e os jovens: “O Monobloco tem o objetivo de mostrar para a garotada que a tradição tem aspectos incríveis”

Publicado em 15/02/2016 | Por Karina Kuperman

Em seu 16º ano no carnaval de rua, o Monobloco arrastou 350 mil foliões para o Centro do Rio de Janeiro nesse domingo, 14 para comemorar a “saideira” do carnaval 2016. Com um repertório que misturou samba, marchinhas, axé, MPB e os clássicos da banda, a festa durou quase três horas com muita animação do público, que cantou junto com os integrantes da bateria e mais os alunos da oficina do Monobloco. Pedro Luís, vocalista, ressaltou que o bloco no carnaval é como uma colação de grau dos integrantes da bateria, do curso que começa em maio do ano anterior.

Se o repertório nacional é vasto, o Monobloco honra a música do país com canções de artistas como Cássia Eller, Tim Maia, Rita Lee e tantos outros. O que mais anima o público, porém, é quando a banda une o instrumental das escolas de samba com as letras moderninhas do funk. Um dia antes de sair às ruas da cidade, Pedro Luís conversou com HT e nos falou sua opinião sobre política, a relação da Lei Rouanet com a música, a falta de marchinhas nessa época e muito mais. Vem ver!

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Pedro Luís (Foto: Jorge Bispo/Reprodução)

HT: O que você acha da enchente de blocos no Rio de Janeiro?
Pedro Luís: É inevitável que, quando algo é bem-sucedido, muita gente queira ver e fazer parte. É só ter cuidado de administrar. Em um bloco como o Monobloco, por exemplo, tem que haver uma conversa pra que tudo flua da melhor forma. O sucesso traz complicações. Mas também é importante não engessar o carnaval. É importante os blocos menores fazerem a sua bagunça também. Mas para a gente não dá, seria irresponsabilidade não se organizar para não bagunçar a cidade. Outros blocos criaram suas linhas e vertentes. O importante é cada um ter sua opinião, gosto e escolha.

HT: Hoje o carnaval sofre com uma falta de marchinhas que ficam para a vida toda como era no passado. Por que isso aconteceu?
Pedro Luís: Eu não sei o motivo. A Fundição Progresso até fez o concurso de marchinhas que trouxe ideias bacanas tentando revigorar esse espírito lúdico e sarcástico. Mas acho que isso é fruto de uma época. Tudo bem que foi uma época grande, que durou dos anos 30 aos anos 60, com concursos de marchinhas na televisão e tal. É uma longevidade incrível de crônica urbana. Hoje, a crônica de costumes é diferente, há o rap, hip hop, que, em geral, é menos humorada. É sinal dos tempos mesmo. Não tenho total autoridade para dizer por que isso aconteceu.

HT: Ainda falando sobre as marchinhas de antigamente… “Cabeleira do Zezé”, por exemplo, tinha um cunho de crítica homossexual. Hoje há uma dificuldade maior também, não é?
Pedro Luís: Hoje, se alguém fizer uma “Cabeleira do Zezé”, é capaz de ser apedrejado. O politicamente correto talvez tenha embarreirado esse humor. Nós temos que cuidar para não tornar tudo meio sem graça também. O humor não pode perder o material dele. No convívio em sociedade, é lógico que temos que ficar atentos e barrar preconceitos, mas na diversão não dá para ficar engessado. Nunca temos certeza do que vai acontecer, pode ser que surjam opositores e vertentes que se eternizem.

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O Monobloco arrastou milhares ao centro do Rio de Janeiro nesse carnaval (Foto: Reprodução/Facebook)

HT: O Monobloco aproxima a velha guarda dos jovens, Pedro, há uma responsabilidade séria nisso. Acha que talvez seja uma das poucas bandas que fazem isso hoje em dia?
Pedro Luís: O Monobloco tem o objetivo de mostrar para a garotada que a tradição tem coisas incríveis. A velha guarda também viu que a moçada tem valor. É respeito reverenciar as coisas históricas, que podem sempre ser positivas. Temos essa missão e acho isso bacana. Monobloco é da atualidade, mas as marchinhas clássicas são momentos gloriosos nos desfiles e nas festas do Monobloco. As antigas ainda estão impregnadas no inconsciente coletivo, mesmo as incorretas. Ou seja: mesmo as pessoas consumindo coisas mais comerciais – e efêmeras talvez – elas estão curtindo tradição, pulando, cantando os clássicos e pérolas conosco. É carinhoso! É um orgulho fazer essa junção de possibilidades e promover essa interação.

HT: Me fala um pouco da sua opinião sobre a indústria fonográfica. Com a internet, os downloads e serviços de streaming, tudo mudou muito.
Pedro Luís: Quando entrei, ainda existia um investimento em discos, mas já era um formato com os dias contados. Com a virtualização da comunicação e da aquisição, nós ainda estamos sondando. Os músicos estão no meio do caminho, descobrindo tudo. O compositor que é só compositor, por exemplo, ficou prejudicado com o download indiscriminado. Para quem depende dos frutos financeiros das suas obras, é complexo. Ainda tem características do formato velho, como botar música em novelas e filmes, que continuam com muito apelo. Com o formato diferente, por outro lado, tudo ficou mais acessível. Hoje é possível produzir disco em casa, antes os músicos eram escravos desse esquema e fazer disco independente e dar certo era mais difícil do que ganhar na loteria. Hoje, as questões de disseminação e produção são muito mais fáceis.

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Pedro Luís (Foto: Divulgação)

HT: Queria saber um pouco da relação da música com a política. A lei Rouanet no governo Dilma favorece mais ou menos os músicos?
Pedro Luís: A Lei Rouanet favoreceu muitos projetos, mas, como tudo, tem que ser corrigida e adaptada, porque as coisas com muita longevidade acabam ficando desadaptadas. Ela contemplou muitos projetos interessantes, os pontos de cultura, não beneficiou só os famosos, mas também beneficiou o Instituto Fernando Henrique, que não tem nada a ver com o governo Dilma, por exemplo. São mecanismos importantes, ainda mais com tanta demanda cultural. O patrocínio direto é mais complicado. A Lei Rouanet é uma porta de possibilidades para a diversidade cultural!

HT: Teve alteração no Monobloco, não é, Pedro? O que aconteceu? O que mudou depois disso?
Pedro Luís: Na verdade foi um desencontro de projetos. Isso é normal em todo percurso de longa duração. As pessoas vão tendo outras expectativas, buscando caminhos que as vezes não cabem naquele lugar. É natural em qualquer processo. Quantas vezes muda-se um ministério no governo? Toda reunião de pessoas dinâmicas, que não ficam acomodadas, tem mudanças. Isso já tinha acontecido em 2004 e 2005, quando Serjão Loroza e Rodrigo Maranhão foram buscar o lugar deles. A missão da nossa banda Pedro Luís e a Parede é tocar esse patrimônio que o destino pôs nas nossas mãos. Temos que preservar, desenvolver e multiplicar. É dinâmica da vida. Nós, do grupo musical Pedro Luís e a Parede, ainda somos os mesmos desde 1996, quando nos lançamos. Vamos fazer 20 anos de banda.

HT: O Monobloco começou como um bloco e hoje é uma banda conhecida por fazer shows Brasil afora. Por que a banda se popularizou tanto?
Pedro Luís: O Monobloco não perde a característica principal. O bloco continua existindo, se prepara o ano todo, faz desfiles, festas e é uma inspiração que veio das escolas de samba, que sempre tiveram potencial na bateria gigante e, separado, um grupo de show. Quando fizemos o grupo show do Monobloco, a primeira experiência, que foi em 2001 e se efetivou em 2004 a partir do DVD, era levar o conceito do Monobloco para deixar de ser sazonal e arriscar uma sofisticação maior. A intenção do Monobloco show era realmente essa desde que ele surgiu.

HT: A banda é também uma escola. Como é trabalhar ao lado de estudantes e cantar com tantos percussionistas?
Pedro Luís: Todo percurso novo tem muita animação e responsabilidade. Queremos oferecer formatura para os nossos alunos e maior diversidade musical possível para o público. A origem de tudo é pedagógica, queríamos transformar leigos em músicos na época do carnaval. Tocar com gente diferente é legal. Os parceiros de “A Parede” conseguiram desenvolver uma aula muito cuidadosa. Tem uma experiência de 16 anos que já nos faz saber o que funciona e o que não. Só vamos fazendo de maneira eficaz e objetiva e isso faz a diferença. A proposta pedagógica é a origem de tudo. Esperamos formar músicos de qualidade que fiquem para as próximas gerações.

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A banda Pedro Luís e a Parede (Foto: Divulgação)

HT: Por ser uma banda “alternativa”, de mudança de percussionistas e integrantes, vocês não chegam a ter uma gravadora?
Pedro Luís: Não. Nossos produtos são nossos, produzidos e bancados por nós. A parceria é na distribuição. Já fizemos com grandes corporações, como a Universal e a Som Livre, mas é só na hora da venda mesmo.

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