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Exclusivo – Fafá de Belém: “Tem gente que acha que Amazônia é Disneylândia, traçada por índios com penas de LED”

O Rock in Rio confirmou um show com Fafá, Dona Onete, Gaby Amarantos, Lucas Estrela e Jaloo – todos paraenses: " Sempre tiveram ritmos privilegiados e os balaios"

Publicado em 08/03/2019 | Por Heloisa Tolipan

Fafá de Belém (Foto: Vânia Toledo?Divulgação)

*Por Lucas Rezende

“Tem gente que acha que Amazônia é Disneylândia, que é coisa caricata, traçada por índios com pena de LED. E não é isso. É uma região fortíssima, de características únicas e muito feminina”, afirma Fafá de Belém. O LED, para ela, cairia bem mesmo é iluminando o Pará no mapa do Brasil, sobretudo quando o assunto é o consumo de música, a contratação de espetáculos e o olhar das gravadoras. Parte dessa luz toda, no entanto, está para ligar: o Rock in Rio confirmou um show com Fafá, Dona Onete, Gaby Amarantos, Lucas Estrela e Jaloo – todos paraenses para o espetáculo “Pará Pop” sob a batuta do guitar hero do Pará Pio Lobato.

 

“É maravilhoso estarmos todos no Rock in Rio. Eu, há 40 anos, não tinha apoio nenhum. Muitos colegas meus voltaram para Belém porque era difícil. Me perguntaram se eu sofri bullying por ser mulher. Eu falei que não: eu sempre sofri por ser amazônica, do Norte. Por isso fiquei muito feliz quando o Zé Ricardo (curador do Palco Sunset do Rock in Rio) me ligou. Essa é uma conversa que a gente tem há um tempo, porque ele tem uma responsabilidade maravilhosa e muito grande de trazer para o maior festival de rock do mundo, cores, sabores e sonoridades fora do mainstream. O Pará e a Amazônia são riquíssimos musicalmente. O Boi Bumbá de Parintins, por exemplo, tem uma sonoridade única com seus 500 batedores”, lista.

Muito mais que um contrato, um cachê e um show, para Fafá trata-se de um recado a ser dado: “A importância dessa homenagem é dizer para todos: olha, existe um som aqui, existe uma cidade, existe um estado, existe uma forma de tocar guitarra, em que cada um o faz de uma forma diferente, mas tem uma pegada. Olha gente, aqui tem o chão aquático do Brasil. Isso é o som da Amazônia. Então, é maravilhoso estarmos todos no Rock in Rio”, diz.

A crista da onda, segundo ela, é surfada em um momento em que o Pará está numa cena cult e indie. “O Palco Sunset vai colocar isso na boca do gol, inserir nossa sonoridade, nosso jeito, porque são vários olhares, para uma visibilidade maior. E isso é muito importante”, reafirma.

(Foto: Fábio Bartel/Divulgação)

Um salto prestes a ser dado neste 2019, mas que acontece depois de quatro décadas de luta – se ladrilharmos apenas a ladeira de Fafá. “Eu, lá atrás, tinha várias mágoas, entendeu? Mas eu tenho 60 anos e isso trás uma tranquilidade de olhar para o mercado e dizer que sempre tiveram ritmos privilegiados e os balaios. Agora é o funk. São movimentos e as gravadoras hoje, muito mais que antigamente, quer os resultados econômicos disso. Mas nós temos a internet!!!”, comenta.

“É um território de livre expressão para o bem e para o mal. Eu desde 2000 crio meus produtos e distribuo. Dá para a gente fazer, manter a dignidade de não colocar o bumbum na janela porque não acontece. Se você tiver verdade, dignidade, não dizer sim para tudo, e entender que aquele é o seu caminho, sem fazer concessões que te violentem, a música está aí. E hoje com a internet é maravilhoso. Existe uma garotada que se dedicada a ver o que não está no mainstream”.

Ver e ouvir, ela ressalta. “O que está havendo é apenas um olhar sob a música paraense, o tecnobrega da Gaby, que vem das aparelhagens, o Jaloo que rompeu barreiras muito antes de qualquer trans. Ele vem depois de Ney Matogrosso, para meu olhar. Aí, depois, vem Liniker e muita gente interessante. Imagina o que foi para o Jaloo sair do interior do Pará e defender essa postura. São todos muitos jovens. E o Lucas Estrela, que tem um olhar sob a guitarra muito próprio. Essa é uma porta de entrega. A nossa sonoridade, seja erudita, no bolero, ou no brega, tem uma mistura de formações e uma forma muito dengosa, sensual e moleca. Essa é a grande marca. Será um momento emblemático no Rock in Rio e para todos nós que queremos mostrar nossa cara há tanto tempo. Nós que estamos aqui e os que estão lá.”

Aos que estão lá, vale dizer, Fafá lembra várias vezes durante a entrevista. É como um sinal de respeito. “O que falta é cada vez mais a gente mostrar nossa cara. Nós moramos longe. Quantas pessoas têm condição de se manter no Sudeste? Quantos artistas trouxeram trabalhos maravilhosos como Sebastião Tapajós, Nilson Chaves? Quantas pessoas, quantos grandes autores chegaram aqui, no Sudeste, e tiveram condições de ficar? É difícil e caro. E acho que essas portas que se abrem voltam os olhares para o que ficou lá. A bandeira que eu levanto há algum tempo é lembrar que, cantar nas casas de shows de lá, dos pioneiros, dos que precisam ser lembrados. Precisamos olhar para o Pará como cultura diferenciada, gastronômica, com um jeito de ser muito próprio, transparente, aquático, sem personal stylist (gargalha). Chegar no Pará é entender o que é isso”.

Encorpando as dificuldades geográficas que distanciam o Pará do polo fonográfico brasileiro estão as gravadoras, cada vez mais sedentas pelo mainstream desde a queda drástica na venda de CD’s físicos. “As tecnologias que estão chegando e a forma de remuneração por todos os lados – do mercado e dos artistas – é uma interrogação. É um grande problema: como vai ser o negócio da música? Há pessoas que vivem para o negócio da música e outros que vivem para a música. Eu pertenço ao segundo time”, diz, fazendo referência aos serviços de streaming e as polêmicas de repasse de direitos autorais e de interpretação.

Apenas uma vértice, bom dizer, da geometria de questões que cercam os músicos brasileiros. A outra, desde o segundo semestre do ano passado, gira em torno do receio de posicionamentos em tempos polarizados, sobretudo após o maior embate entre esquerda e direita que o Brasil já teve após a redemocratização – período que Fafá, a diva das Diretas Já, entende bem. Ainda mais tendo “Vermelho” em seu repertório.

“Todo mundo quer falar da sua democracia, com um nível de informação muito breve, a não ser com as frases de internet e palavras de ordem. A democracia é a convivência e o respeito entre opiniões contrárias, com críticas pertinentes, mas na capacidade de olhar o outro. A democracia se constrói a varias opiniões. Uma só é ditadura, seja de direita ou de esquerda. Acho que há muito que amadurecer. Brigar com quem que não pensa como você é absolutamente burro e arrogante. A sua verdade pode não ser a minha e eu posso ser uma boa pessoa e você também, embora não tenhamos a mesma religião, o mesmo time de futebol e o mesmo partido político”, frisa.

“Vermelho é um hino e como hino eu canto em todos os lugares. Meu coração é vermelho. Vermelho é cor da paixão, da emoção. E eu sou um bicho emocionado. Eu nunca tive pudores de defender os pensamentos que acredito. Eu sou apaixonada, choro e rio com o mesmo sentimento. E é por aí. Não vou ficar preocupada com o que acham A, B ou C. É só estudar história e ver meu papel no processo democrático. Não vem com ignorância que eu rebato com meu espelho e mando estudar”, gargalha.

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