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Exclusivo! Com “Rock ‘n’ Roll Sugar Darling”, Thiago Pethit quer resgatar o rock e declara: “Hoje está tudo muito coxinha”

Cantor lançou um dos melhores álbuns de 2014 e fala com HT sobre o estado atual da música, playback, influências, Joe Dallesandro e mais

Publicado em 12/01/2015 | Por Heloisa Tolipan

*Com João Ker e Léo Fávaro 

Desinibida, debochada e sexy. Assim podemos brincar que é a personagem de “Rock n’ Roll Sugar Darling”. Vamos com calma: tudo não passa de uma analogia ao título do novo álbum do cantor Thiago Pethit, que deixa de vez o tom introspectivo no passado e assume um caso latente com o rock. “Sugar Darling” chega para oxigenar o gênero nacional e mostrar que ele está vivo e em forma, pelo menos nas mãos do cantor.

A formação de Pethit em artes cênicas é algo latente em seus álbuns e performances, à medida que sua música se torna algo mais visual ainda do que em trabalhos anteriores. “Existe uma construção estética que é como construir personagens. E essa construção tem a ver com o teatro”, comenta com HT. Em “Rock n’ Roll Sugar Darling”, a personagem gauche do artista parece ter orgulho de ser “rebelde com e sem causa”, como afirma o músico.

Thiago Pethit – “Quero Ser Seu Cão” (Ao vivo na Sacada Vevo)

No palco, ele também apresenta essas características, como ficou claro pelo show que fez ano passado no Oi Futuro, por exemplo (leia mais aqui). Misturando uma grande presença de palco, com expressão corporal e alcance vocal, Pethit é um desses artistas que já parecem estar há décadas no mercado e, apesar de soar impossível, os timbres de sua voz ficam ainda mais evidentes ao vivo. Entretanto, ele comenta em entrevista exclusiva ao HT que cada cantor tem seu diferencial e que este nem sempre se dá através das cordas vocais: “Cada artista tem a sua necessidade. Eu não não posso criticar a Britney Spears por usar playback, por exemplo, pois faz parte da linguagem artística dela. O barato da cantora é diferente do meu e do que eu faço. Eu talvez cante mais, mas não rebolo nem metade, não sei coreografias, não preciso ser linda, fazer as unhas e nem pintar meu cabelo de louro. Cada coisa tem a sua função na linguagem de cada artista. O que ela faz necessita tudo isso e nem precisa tanto cantar. Uma coisa não desmerece a outra”, analisa.

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Sem qualquer pretensão de se gabar, Pethit afirma que o cenário do rock nacional está “morto, decadente”, mas que ele vem com fôlego suficiente para mexer nas estruturas. Claro, a morte figurativa do gênero não é de hoje e é fácil perceber que grande parte da sua força original se perdeu com o tempo, abrindo espaço para novas vertentes como o hip hop, talvez o estilo musical mais em voga nos últimos anos. “Meu trabalho acabou me conduzindo a esse som mais pesado e selvagem. Sinto que o mundo anda precisando de um pouco de rock ‘n roll e de ao menos uma ideia de transgressão. Tudo anda muito careta e politicamente correto. E, de fato, o gênero perdeu muita força aqui e no mundo, pois de certa forma se ressente também daquilo que tinha de mais forte e característico: o grito de uma minoria e o desbunde da mesma. O rock era a voz dos negros, das mulheres, dos gays. Hoje é uma coisa coxinha, na maioria das vezes. O hip hop conseguiu dominar este discurso mais abrangente e tem sido um grande aglomerador cultural”, comenta Thiago.

A vinheta de abertura do disco é narrada por Joe Dallesandro, ícone underground dos anos 1960 e fonte de inspiração para nomes como Andy Warhol, Rolling Stones e Lou Reed. Mais do que isso, Little Joe foi ícone de uma revolução comportamental e sexual que marcou uma era. Com sua voz rouca e grave, ele afirma que “as pessoas precisam de um rockstar que batalhe nas mesmas ruas que elas. Precisam de um anjo sujo”. Na opinião de Pethit, “Joe é a metáfora desse tipo de rock que estou falando no disco. Tê-lo nesse CD é como se eu tivesse um aval dessa geração, desse rock mais clássico”, afirma.

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“Não existe nada parecido com isso hoje em dia”, continua Thiago Pethit, analisando a importância e a figura de Joe Dallesandro. “Não existe mais contra-cultura e nem verdadeira transgressão. A geração pós-1970 ainda vive de tentar desvendar o que pode ou não ser aprendido com toda a revolução. Mas isso não é um discurso derrotista ou careta, pelo contrário. Acredito que precisamos mirar e observar os ícones certos dessa revolução para desvendar através deles qual será o próximo passo”, afirma, provavelmente com aquele pensamento forte e inconformado com o comportamento vigente, assim como a persona em “Sugar Darling”.

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É esta a bandeira do CD produzido por Kassin e Adriano Cintra. Buscando em referências clássicas do rock a personagem que falta nos dias atuais, Pethit consegue sintetizar influências diversas do gênero, sem perder a brasilidade no som e a irreverência, algumas de suas marcas características. Esse amor e apego ao glamour do passado, algo que ele já carrega há alguns anos no bolso, se assimila à estética vigente de pessoas como Lana Del Rey, por exemplo, com quem ele já mesclou “Haunted Love” ao vivo. Thiago fala sobre a semelhança: “Acho que existe a semelhança da linguagem retrô e contemporânea ao mesmo tempo. Mas não acho que seja mais do que isso. Há muitos artistas fazendo isso hoje em dia, brincando com o passado estético e relendo de forma contemporânea: Lana, Arctic Monkeys, Jack White e muitos outros. Me identifico com eles sob este aspecto”, diz.

O grande trunfo de “Rock n’ Roll Sugar Darling” é a faixa “Romeo”, composição de Pethit e Hélio Flanders (Vanguart), balada que contempla um moderno amor anárquico e bandido. A canção foi divulgada como primeiro single do álbum e rendeu um roadie movie como videoclipe gravado em Los Angeles. Misturando batidas eletrônicas à levada de rock, a letra descarada pulsa uma intensa paixão regada à gasolina, o mesmo combustível que o músico apresentou em trabalhos passados e que o consagraram como nome de peso entre a cena alternativa nacional.

Thiago Pethit – “Romeo”

Em “Quero ser seu cão”, Pethit faz clara referência a “I wanna be your dog”, dos Stooges, e apresenta guitarra ao rockabilly de Bo Didley. A letra, na qual implora em ser o amor às custas dos joelhos dobrados no chão, responde os versos de “These boots are made for walkin”, de Nancy Sinatra, musa do cantor. A faixa dançante foi lançada como segundo single de “Sugar Darling” com direito a Thiago Pethit se descabelando no vídeo. Outra referência a Sinatra é a vinheta “De Trago em Trago”, cuja faixa o autor se baseou num sample de “Bang Bang (My Baby shot me down)”. Além dela, o álbum flerta com Elvis Presley (em “Honey Bi”), The Doors (“1992”) e Screamin’ Jay Hawkins (“Voodoo”). Até mesmo o cineasta David Lynch é referenciado, como na faixa “Story Blue”, cuja letra contém poema de Kimberly, mulher de Dallesandro. (Só para relembrar, Pethit já excursionou o país com a turnê “Thiago Pethit canta as trilhas de David Lynch”)

Não à toa, “Rock n’ Roll Sugar Darling” ocupa listas e mais listas dos melhores discos brasileiros do ano. No line up pessoal do cantor, Alice Caymmi, Anelis Assumpção e Adriano Cintra são os artistas que ele mais ouviu em 2014. Glamour, liberdade sexual, provocação. “Sugar Darling” tem uma forma visual, uma lascívia deliciosa. É um disco para quem não se convence com pouco, nem se farta com excessos. O hedonismo sem necessidade de justificativa do disco sela perfeitamente a estética do cantor. “Eu gosto das coisas erradas, gosto de pessoas erradas, de padrões errados”, finaliza Pethit, mostrando que sua verve rebelde não deve ir embora tão cedo.

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