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Exclusivo! Ana Cañas entra de cabeça no rock n’ roll, sem perder a essência: “Rock está em qualquer lugar. É uma questão filosófica e de atitude”

Durante a entrevista, a cantora, que também está no elenco do filme "Amores Urbanos", revelou ser a favor do aborto e contra o impeachment da presidente Dilma: "Por não termos estrutura nem uma lei que atenda todas as pessoas, as meninas de baixa renda acabam morrendo por diversas complicações durante os procedimentos. Sou a favor do acesso". "Não considero o Temer como meu presidente. Sou a favor de eleições diretas"

Publicado em 09/06/2016 | Por Leonardo Rocha

A Ana é MPB, mas é rock quando é rock! Assim ficou definido o último álbum de estúdio lançado pela cantora Ana Cañas. Dona de um timbre marcante, que transita facilmente entre a suavidade romântica de toda menina  – bela, recatada e do lar -, e o grito rasgado de quem tem muito a dizer, a artista festeja o sucesso do disco “Tô na Vida”. No trabalho, ela dá vazão ao seu lado mais roqueiro, carregado de influências do estilo que fazia a cabeça da juventude dos anos 70. Em entrevista exclusiva ao HT, a moça, que também acaba de estrear como atriz nas telonas com o filme “Amores Urbanos”, mostrou que, aos 35 anos, está cheia de si e preparada para o que der e vier.

Cantora Ana Cañas (Foto: Divulgação)

Cantora Ana Cañas (Foto: Divulgação)

“Olha, eu sempre fui uma roqueira. No meu segundo disco eu tentei fazer esse crossover, mas não consegui. Eu sempre flertei muito com o rock n’ roll. Quando o Ney (Matogrosso) dirigiu o meu show, tinha uma parte mais pesada e, que de fato, as pessoas falavam: ‘Ana, esse é o melhor momento’. A partir daí eu decidi assumir esse lado de uma vez por todas”, revelou. “Eu tenho uma alma roqueira! Se eu te contar as coisas que já fiz na adolescência você não vai acreditar. Eu já barbarizei muito”, relembrou ela, aos risos. “Mas, realmente, eu comecei no Jazz e na MPB, mas, pra mim, o rock está em qualquer lugar: Nelson Cavaquinho, Nina Simone… é uma questão filosófica e de atitude, não fica presa no gênero em si, sabe?”, destacou a cantora.

Apesar de estar completando quase uma década de carreira, Cañas revelou que “Tô na Vida” é seu projeto mais autoral desde que ingressou no mercado fonográfico. “Estou em busca de algo meu, cem por cento, eu sinto. Sempre interpretei músicas de outros compositores, e ainda faço isso nos shows, mas com o disco, foi diferente. Talvez, em decorrência do processo mesmo, que foi longo e também tive tempo de maturar o que queria melhor, com mais discernimento”, contou ela, que levou um longo período para terminar o projeto. “Passei um ano compondo essas novas canções e eu nunca tinha trabalhado dessa maneira, Foi enriquecedor. Foi um processo vertical, de aprofundar ideias e maturar sonoridades”, disse.

Cantora também ataca como atriz no filme "Amores Urbanos" (Foto: Divulgação)

Cantora também ataca como atriz no filme “Amores Urbanos” (Foto: Divulgação)

Quem ouve o disco, sente que Ana se apoderou de elementos marcantes dos roqueiros dos anos 70. No processo de gravação, a cantora confessou que se reuniu com os músicos e gravou tudo ali, ao vivo, como se fazia na época. “Esse era um processo da época. O resultado fica mais orgânico e visceral, aproxima da energia dos shows, inclusive. Os timbres também têm a ver, pois usamos muito equipamento analógico. Enfim, somando a isso tudo, muito som dessa época me serve de referência até hoje. Então, é uma somatória de coisas, texturas, ideias, sons e atitude”, analisou a cantora e agora também atriz.

Mesmo com todo o sucesso de público e crítica de “Tô na Vida”, Ana ainda arrumou um tempinho na agenda para gravar o longa “Amores Urbanos”, da amiga e diretora Vera Egito. No filme, ela vive Duda, namorada de Micaela (Renata Gaspar), que marca o primeiro e conturbado relacionamento homossexual da personagem. “Esse é um tema muito explorado no meu trabalho musical e pessoalmente também. Por isso, acho que o público encarará com naturalidade”, comentou ela, que é formada em artes cênicas, mas optou pela música.

“Depois que me envolvi com a música delete a atuação da minha vida. A Vera, que é muito minha amiga, disse que tinha uma cena que eu podia cantar e eu topei”, brincou ela. “Foi emocionante ver o trabalho pronto. Eu sou uma apaixonada pelo cinema e tenho uma relação muito profunda. Eu aceitei fazer o filme também, porque eu acho super importante, por exemplo, discutir essa personagem que é uma atriz em ascensão, mas que não assume a namorada gay. E recentemente tivemos a Ellen Page que assumiu sua homossexualidade e viveu a vida escondendo seus relacionamentos. É um assunto que é mais comum do que a gente pode imaginar. Acho o debate fundamental”, revelou a cantora e, também, atriz.

A diretora Vera Egito e Ana Cañas (Foto: AgNews)

A diretora Vera Egito e Ana Cañas (Foto: AgNews)

Além da homossexualidade de diversos personagens, o filme também traz à tona a discussão sobre assuntos polêmicos como o aborto, abuso de bebidas alcoólicas e a crise dos 30 anos. Questionada sobre o tema, Ana disse que enxerga como natural. “No Brasil, o aborto ‘saudável’ é pra quem tem grana. A gente vive essa legislação. É uma coisa muito mal resolvida. Por não termos estrutura nem uma lei que atenda todas as pessoas, as meninas de baixa renda acabam morrendo por diversas complicações durante os procedimentos. É muito fácil pra quem tem dinheiro pagar para abortar numa clínica ‘segura’, enquanto as que não tem ficam sem perspectiva. A palavra é acesso! Sou a favor do acesso ao aborto”, concluiu ela, que também avaliou o possível processo de impeachment sofrido pela presidente afastada Dilma Rousseff.

“Eu sou totalmente contra. Foi uma eleição indireta e um golpe. Não sou convictamente petista, mas sempre simpatizei com a Dilma e acho a história dela muito importante para o país. O que houve foi uma série de interesses escusos para tirá-la do poder e uma corja assumir, o que eu considero ilegal. Não considero o Temer (Michel)como meu presidente. Sou a favor de eleições diretas”, contatou.

Programações políticas à parte, os fãs da cantora já podem ficar animados. Segundo ela, o processo de composição para o seu próximo disco já começou. “Sinto que será uma evolução do ‘Tô Na Vida’. Porque, em relação aos anteriores, ele é quase um começo do zero. Eu sinto dessa maneira, como se ele redefinisse o meu som. Já estou trabalhando no próximo e ano que vem, devemos gravá-lo. Estou muito animada e contente com mais esse passo e devo trabalhar com as mesma pessoas, mas novas parcerias já estão surgindo”, finalizou.

Ouça a canção “Hoje Nunca Mais” da cantora:

“Urubu Rei”

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