Música & Badalo

Empresário que descobriu os Rolling Stones mora na Colômbia e produz rock latino. Jamari França conta tudo!

Suas aventuras estão em três livros, todos inéditos no Brasil: Stoned (1998), 2Stoned (2001) e Rolling Stoned (2011) e, em seu baú de memórias constam ainda histórias dos Beatles!

Publicado em 16/01/2014 | Por Heloisa Tolipan

* Por Jamari França

Andrew Loog Oldham foi o empresário que descobriu os Rolling Stones e trancou Mick Jagger e Keith Richards numa cozinha até que compusessem canções originais. Ele está vivo e bem, mora na Colômbia desde 1983, ama Buenos Aires e produz bandas sul americanas, como os argentinos Ratones Paranoicos.

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Andrew hoje vive na Colômbia

No começo, ele foi office boy da Mary Quant, a lançadora da minissaia, depois chegou a trabalhar como assessor de imprensa dos Beatles sob o empresário Brian Epstein, até que, com muita relutância, foi a Richmond, na grande Londres, ver os Rolling Stones por insistência de amigos. Não deu outra: assumiu a banda. Gravadora foi mole. A Decca, ainda em estado de choque por ter recusado os Beatles, já com alguns sucessos, contratou na hora os Stones.

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Andrew (de óculos) com os Rolling Stones. Da esquerda para direita, Charlie Watts, Brian Jones, Mick Jagger, Keith Richards e Bill Wyman

Daí foi só traçar a estratégia. Já que os Beatles tinham imagem de bonzinhos, ele decidiu que os Stones seriam os bad boys e inventou uma frase primorosa de marketing, dirigida aos pais: “Você deixaria sua filha casar com um Rolling Stone?” A resposta, claro, era um estrondoso “Não”, mas as meninas começaram a se jogar em cima dos cinco Stones, como outras já faziam com os Beatles. Ele ficou com os Stones de 1963 a 1967, os anos que consagraram a banda e vendeu a banda para o empresário picareta Allen Klein.

Suas aventuras estão em três livros, todos inéditos aqui: Stoned (1998), 2Stoned (2001) e Rolling Stoned (2011). Numa entrevista recente ao jornalista argentino Marcelo Sonaglioni, Oldham deu uma versão alternativa para a contratação dos Beatles pela gravadora EMI através do selo Parlophone. A oficial diz que o produtor George Martin ouviu um acetato e achou que valia a pena fazer um teste com os meninos. Como trabalhou com Brian Epstein, sua versão merece crédito: “Uma das razões da contratação é que a loja de discos da família Epstein vendia muito toda semana (e distribuía para o Norte da Inglaterra). Mas ainda o insultaram mandando para a Parlophone, o selo do produtor George Martin que gravava comédias. Foi por acidente que Martin se tornou a pessoa perfeita para eles. No entanto, nem foi nas duas primeiras sessões de gravação. Seu assistente, Ron Richards, gravou Love Me Do e Please Please Me e só nesta última Martin veio, porque Richards o chamou”.

Epstein tem fama de ter deixado de ganhar muito dinheiro por sua ingenuidade nos negócios, especialmente no merchandising da banda, que deu milhões para empresários espertos e ele pediu direitos ridículos, quando podia pedir o que quisesse. Mas Oldham o defende. “Se Brian Epstein não tivesse insistido até conseguir um contrato para seus garotos não estaríamos aqui agora. Ele abriu as portas. E ouviu muitos insultos também. Duas coisas contavam contra ele na Inglaterra da época. Era judeu e gay. Era quase como um fora da lei. E Paul McCartney contou numa entrevista que seu pai o aconselhara a assinar com ele, porque judeus eram bons de negócio”.

Oldham critica o pop rock atual, diz que ninguém compõe, por isso os dinossauros que construíram uma obra própria ainda tem público, muitas vezes jovem: “Encontrei David Crosby (ex-Byrds, ex-Crosby, Stills Nash Young) na rua por acaso em Vancouver e ele me disse que um artista com mais de 50 anos tem muito trabalho desde que consiga ficar de pé e lembre das letras.” Apesar de reprovar o pop rock atual, Oldham não é menos crítico sobre os músicos de sua geração. “Os últimos discos que escutei, de Paul McCartney, dois de Elton John e o de David Bowie não pretendo escutar nunca mais. O de Bowie parecia uma vitrine atraente, mas quando se entra de verdade na loja, ela está vazia. Paul McCartney no palco é o maior entertainer, imbatível. Nos dois últimos anos, e de maneira muito educada, ele finalmente matou John Lennon. E morto não pode competir com a força vital de Paul McCartney. Seu novo disco, New, foi muito elogiado pela crítica. Quando li achei que eles estavam de sacanagem. Quando eles tinham 25 anos havia uma paixão no que faziam, hoje eles tem 70 e viraram uma doença. O que eles fazem é irremediavelmente velho, não quero ouvir. Entendo a necessidade deles de fazer discos, mas soa antigo”.

Essa crítica ácida toda também o atinge de certa maneira. Renegar a própria geração não deixa de ser uma forma de renegar a si mesmo. Sai dessa Andrew.

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O empresário e seu passado repleto de histórias e segredos agora revelados

* Jamari França é jornalista, escreve sobre pop rock desde 1982. Cobriu exclusivamente o Rock Brasil para o Jornal do Brasil nos anos 80, quando se dividia entre o Caderno B e a Editoria Internacional. Trabalhou no Globo Online de 2001 a 2009. É  autor da biografia dos Paralamas, Vamo Batê Lata, e tradutor de livros sobre música e política.

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