Música & Badalo

Em SP com “Yentl em concerto”, Alessandra Maestrini conversa com HT e fala sobre Barbra Streisand e troca de gêneros!

No ar em "Sexo e as Nêga", a atriz faz o tipo fã de carteirinha: conta tudo sobre sua fascinação pela estrela, considera ela sua fada madrinha, se apresenta neste finde com o emblemático personagem vivido pela americana e revela que vai montar "Funny Girl" no teatro

Publicado em 31/10/2014 | Por Alexandre Schnabl

Atriz com sólida reputação no teatro musical brasileiro, Alessandra Maestrini ficou conhecida do grande público pelas participações na sitcom “Toma lá dá cá”, de Miguel Falabella, também autor do texto de seu atual sucesso na televisão, “Sexo e as Nêgas”, no qual vive a vilã racista. Boa de comédia e dotada de linda voz, começou no teatro pelas mãos da dupla Claudio Botelho e Charles Möeller, em “As Malvadas”, peça que ganhou o Prêmio Shell de Teatro daquele ano (1997). Daí não parou mais, se destacando em montagens de musicais como “New York, New York”, “7”, “Rent”, “Ópera do Malandro” e “Les Misérables”. Agora, ela dá mais um passo ousado em sua carreira, apresentando neste final de semana, ao público paulista, “Yentl em concerto”, sozinha no palco do Centro de Cultura Judaica e acompanhada apenas pelo pianista João Carlos Coutinho, somente neste sábado e domingo (1 e 2/11).

 

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Fotos (Divulgação)

No roteiro, passado no Século XIX, ela vive a jovem judia que aprendeu secretamente o Talmude e a Torá e que, para continuar a se aprofundar nos estudos, traveste-se de homem para entrar em uma Yeshiva, centro de estudos da religião judaica só permitido àqueles do sexo masculino, onde acaba descobrindo o amor, correspondido por outro estudante que não sabe que ela é mulher. Obviamente, a história se torna relevante hoje em dia por lidar com questões sobre a igualdade entre sexos, o papel feminino na sociedade e a troca de gêneros. HT conversou com a moça sobre como é se apresentar para o público judeu com um personagem tão forte como esse, vivido em Hollywood por Barbra Streisand em filme homônimo dirigido pela própria atriz (Yentl, United Artists, 1983, música de Michel Legrand) em um local que é baluarte da cultura judaica no Brasil. Confira!

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HT: Alessandra, antes de mais nada, como é o desafio de cantar e interpretar um papel icônico, que no cinema foi vivido por uma Barbra Streisand no auge, pouco depois de ela ter feita a mítica apresentação de “Memories” em “Cats”, na Broadway? “Yentl” talvez tenha sido o último grande papel de Barbra no cinema e ela, com todo aquele vozeirão, não intimida?

AM: Olha, sou super fã dela, e nem acho que esse é o último sucesso avassalador dela. Há uns vinte e poucos anos atrás vi “O príncipe das marés”, com ela e o Nick Nolte, e ali me apaixonei por ela de vez. Mas sempre adorei não só a atriz-cantora, mas tudo o que ela representa em termos de direitos humanos. Ela, por exemplo, sempre defendeu a causa homossexual. E, como não gosto de aquecer minha voz com música que eu mesma vou cantar no palco – acho que tudo fica mecânico depois – estava fazendo um espetáculo e comecei esquentando na coxia com “Papa, can you hear me?”. Depois, fui emendando com outras canções de “Yentl” e, quando vi, tinha um espetáculo pronto, rs. Mas, respondendo sua pergunta, não fico assustada não, porque não interpreto a Barbra fazendo a personagem, mas a minha própria versão dessa jovem sensível.

HT: Não assusta nem mesmo considerando o fato de que você vai se apresentar em um centro de cultura judaica e que Barbra, por ser judia, tem, além de todos os atributos, a admiração de quem pertence a essa comunidade?

AM: É curioso, mas venho de família cristã nova, havia uma tia judia na família que tinha até aqueles números horríveis tatuados no braço, enquanto o marido dela teve as pernas amputadas quando fugiu, na neve, de um campo de concentração, um horror! E, de certa forma, sempre me relacionei muito com judeus. Morava um prédio em que os vizinhos todos eram judeus e, toda vez que saía uma família judia, entrava outra. Mas, independente da ascendência da personagem e da questão da função da mulher na sociedade judaica, a peça fala de uma coisa muito maior que é o amor sem limites. Apesar de a peça não levantar a bandeira homossexual, ela lida com a questão dos gêneros porque, embora Yentl seja moça, ela se traveste de homem e o colega de classe que se apaixona por ela pensa que ela é homem, passando a amá-la assim mesmo. E a menina com quem Yentl acaba sendo empurrada para se casar, por sua vez, acredita que ela é homem e não a vê como mulher. Quer coisa mais contemporânea do que isso?  Além disso, sempre achei curioso o papel da mãe na cultura judaica ser tão significativo, mas, por outro lado, haver tantos tabus quanto àquilo que é permitido à mulher nesta cultura.

HT: Daí a relevância toda de Barbra ter insistido, na época, para realizar o filme, contra tudo e contra todos?

AM: Sim, é engraçado. Eram os anos 1980, o mundo era liberal e a revolução sexual já tinha vinte anos corridos, mas ela comeu um dobrado para por o longa de pé, sofrendo críticas por ser uma mulher na direção, coisa, inclusive, que não era comum naqueles tempos, mesmo em um meio artístico como Hollywood. Mas ela sempre foi defensora dos direitos dos gays e, ainda que o filme não tenha personagens homo, ele revela a questão do amor sem fronteiras aos héteros, encenando a história em um ambiente extremamente machista, a comunidade judaica no século retrasado. Talvez o mesmo tipo de machismo que fazia patrulha ideológica contra ela, contra a possibilidade de haver uma mulher dirigindo filmes. Não podemos nos esquecer de que a alta cúpula dos estúdios muitas vezes é formada por homens executivos judeus. E Barbra foi contra tudo isso, em um meio que parece liberal, mas que pode ser muito inóspito. Fascinante, não?

HT: E como é transpor uma super produção da Broadway e do cinema para uma versão mais intimista, tipo monólogo ou one man show , com você sozinha no palco, só na companhia de um pianista despida de cenário, coro, coadjuvantes, orquestra e iluminação bombástica? Não dá frio na barriga? Como você enxerga esse tipo de adaptação?

AM: Não é o musical, mas uma obra criada a partir dele. Então os desafios são outros e, por isso, o calor subindo pelo corpo é o mesmo de outros trabalhos. Mas, claro que, por ser fã da Barbra e sempre ter tido vontade de lidar com um papel vivido por ela, isso mexe. Quem sabe não transformo este espetáculo em um grande musical daqui para frente, desenvolvido a partir desse show intimista?

HT: Nos palcos você também já viveu outro personagem de musical que se tornou emblemático no cinema, a Francine Evans interpretada por outro mito, Liza Minelli, em “New York, New York”, de Martin Scorcese. Qual é o maior desafio? Interpretar alguém que já ganhou vida através de Liza ou de Barbra?

AM: É como falei, tanto em um caso quanto o outro, não interpreto as atrizes vivendo esses personagens, mas eles em si, dentro da minha ótica, da minha visão pessoal. Quando fiz “New York, New York”, cantava 30 músicas em cena, no filme Liza canta duas. Yentl nunca foi montado na Broadway, mas teve uma versão aqui no Brasil há uns 20 anos com Sílvia Massari à frente. É diferente.

HT: E qual musical você gostaria ainda de fazer, daqueles que, quando está sozinha no camarim, você olha pra o espelho e fala: “Ainda vou dar vida a ele, quero muito!”?

AM: Olha, um desses momentos é justo agora com esse espetáculo. Em “Yentl” tem uma música que fala que existem momentos em que esperamos e sonhamos por toda a vida. Esse é um deles, até porque considero Barbra Streisand minha fada madrinha. Comecei a cantar por causa dela. Outro sonho desse tipo também é com ela: “Funny Girl”, que ela fez no cinema em 1968, com Omar Sharif, sobre Fanny Brice (1891-1951), estrela dos espetáculos de Florenz Ziegfeld. Já comprei até os direitos da peça.

Serviço:

Yentl em concerto

Centro da Cultura Judaica (CCJ)

Rua Oscar Freire, 2500 – São Paulo – Tel: (11) 3065-4333

Dias: 1/11 (às 18h e 21h) e dia 2/11 às 19h

Duração: 80 minutos

Classificação: 12 anos

Gratuito: contribua com 1 Kg de alimento não-perecível ou 1 roupa destinada à UNIBES (União Brasileira-Israelita do Bem Estar Social).

A bilheteria será aberta uma hora antes do espetáculo para retirada de ingressos, com limite de dois ingressos por pessoa.

Site: http://www.culturajudaica.org.br/

*Domingo, Alessandra também participa do debate “O Lugar da Mulher nas Diversas Culturas”: dia 2/11 às 16h

 

 

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