Em show no Cine Joia, Sky Ferreira prova que canta e segura uma plateia, mesmo sendo bad girl


A it girl pode até ser modelo e candidata a má companhia, mas é também cantora com legião de fãs que se identificam com suas composições

*Por João Ker

Poucos brasileiros conhecem Sky Ferreira. Se você não tem entre 17 e 25 anos ou não se liga em moda, talvez só a reconheça como a garota que apareceu no The Noite” com Danilo Gentili, enquanto o apresentador e a menina se enrolavam com algumas perguntas engraçadinhas em uma das entrevistas mais constrangedoras da tevê brasileira. Mas, para quem compareceu ao show de Sky no Cine Jóia na noite desta última quarta-feira (11/6), a menina cheia de atitude parecia mais a deusa de um culto adolescente do que uma mera cantora de indie pop.

 

Sky Ferreira no programa “The Noite”

Para uma breve biografia sobre os pontos altos da carreira de Sky Ferreira e para os prováveis motivos detrás de seu sucesso, é preciso citar sua amizade com Katy Perry, Lindsay Lohan e Terry Richardson, além de várias propagandas para marcas de moda e capas de revista, ao ponto de se tornar musa de Hedi Slimane, companheira de balada de Carine Roitfeld e figurinha fácil nos desfiles de Marc Jacobs. Tipo it girl com lado B. Há também demos, b-sides e covers de Lana Del Rey e Christina Aguilera que aparecem na internet desde 2008, quando supostamente estaria compondo para Britney Spears. A moça ainda coleciona no currrículo uma prisão no ano passado por posse de heroína, três EP’s que não fizeram muito sucesso, algumas participações em filmes alternativos e, finalmente, o lançamento do seu primeiro LP em 2013, o “Night Time, My Time”, que serviu de base para a turnê homônima que a levou como atração de abertura para Miley Cyrus mundo afora e, finalmente, a São Paulo.

Com esse panorama, fica claro o fascínio da garotada que venerou  Sky no Cine Jóia. Afinal, mesmo que indiretamente, ela já conseguiu se relacionar com os maiores ícones dessa geração e ainda acabou se transformando em um.  Por osmose, é claro. Mas não é isso que todos fazem nessa era de celebridades-miojo instantâneas e espetáculos nem tão espetaculares assim? Seu estilo grunge largado, com cabelos desgrenhados, são uma marca registrada e suas músicas parecem entender essa geração como ninguém, uma vez que a própria tem apenas 21 anos. Em questões musicais, seu gênero evoluiu de um eletro pop cheio de sintetizadores (tão populares no final dos anos 2000) até um rock alternativo que lembra uma misturinha esperta de Shirley Manson e Garbage, com uma pitada dance de Michael Jackson, tudo aditivado com bateria e guitarras revoltadas que casam muito bem com sua fama de bad girl festeira (reputação que ela tanto quer renegar e contra a qual diz se rebelar mais ainda).

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Assim, com muitos gritos (dela e dos fãs) e guitarras, Sky abriu a noite, cantando “24 Hours”. O público já estava preparado para essa levada rock, tanto que todos pareciam membros de um culto secreto onde o preto era imprescindível no vestiário, seja nos chapéus, botas, jaquetas de couro (e como havia jaquetas de couro preto!), e até em kilts! Um prato cheio para os paulistas, que já curtem aquele estilinho neo dark e puderam usar o show como pretexto para darem uma incrementada a mais no visual. Nesse clima, seguiram-se músicas como “Boys”, “Ain’t Your Right”, “Omanko” e “I Will”, todas do último e primeiro álbum da cantora, marcado pelas produções de pegada rock do americano Ariel Rechtshaid.

O público ia à loucura em qualquer silêncio que acontecia entre uma música e outra, ou com qualquer coisa “atípica” que acontecesse, e Sky correspondia como podia em uma mélange de encabulada com surpresa, mas sempre muito agradecida pela atenção e carinho dos fãs. E, apesar da fama de nasty, foi gracinha: a cantora fez questão de pegar pessoalmente todos os presentes e bilhetes atirados ao palco, autografar o máximo possível de álbuns, vestir a bandeira do Brasil (típico!) e ainda interagir com o público, na medida do possível, respondendo os “eu te amo” com uns tímidos “obrigado” e uma cara de quem não entendia o que estava acontecendo ao seu redor na maior parte do tempo. Ainda assim, ela entendeu que a vibração da plateia era positiva ao máximo e, para atender aos fãs solícitos, cedeu a vorazes pedidos e cantou “Sad Dream”, proporcionando um daqueles momentos em que o artista cria quase uma simbiose com a plateia  e tudo acaba parecendo mais emocionante, verdadeiro e especial no show.

 

Vídeo oficial de “Sad Dream”

 

“Sad Dream” é o segundo single do seu EP “Ghost” (2012) e, ao contrário do que muitos acham, fala sobre um relacionamento destrutivo entre Sky e seu pai, não entre ela e um namorado. Constrangida, ela pediu ajuda do público para lembrar o primeiro verso e, depois de uma corridinha ao backstage e uma dica do tecladista, voltou ao palco com a letra na ponta da língua. Acompanhada por um coro homogêneo e bem disposto, a menina não conseguiu segurar até o meio da apresentação e foi tomada pela emoção, gritando versos como “Only ever in dreams I wrap my arms around (“Apenas em sonhos eu te envolvo em meus braços”) com a voz embargada, mas a afinação em ponta. Discretamente, ela limpou as lágrimas por trás dos óculos escuros de praxe e voltou à setlist. O show não pode parar.

Em novembro de 2012, Lady Gaga se apresentou no Rio de Janeiro e disse para a plateia: “Uma coisa que eu gosto em vocês é que estão todos apreciando a música ao invés de ficarem preocupados com seus iPhones e iPads enquanto gravam o show”. Pobre Gaga, mal sabia o que o futuro guardava. No Cine Jóia, a multidão que se espremia à beira do palco mostrava um comportamento completamente contrário: todos tinham seus aparatos tecnológicos em riste e focavam mais suas energias em conseguir uma boa foto para o Instagram do que em acompanhar as músicas ou dançar como Sky pedia antes de “Lost In My Bedroom” e “I Blame Myself” (não que ela parecesse se importar muito). Esta última, por sinal, fala sobre sua fama de garota problemática ao mesmo tempo em que ela assume a culpa para si mesma; no vídeo, Ferreira aparece nua em um interrogatório, urrando “I’ll let you know what it feels like to be outside yourself” (“Eu vou te contar como é se sentir fora de si mesma”) para um policial; no palco, as palavras foram entonadas com uma dose extra de sinceridade e empolgação que evidenciam o quanto ela está farta de ser um alvo dos tablóides (se está na chuva é para se molhar, hein, Sky) e de ser mal compreendida pela mídia.

 

Vídeo oficial de “I Blame Myself”

A cantora ainda dividiu um pouco dessas frustrações com o público ao cantar a balada “Werewolf (I Like You)”, anunciando-a como primeira música que escreveu para si mesma. Ao final, Sky encerrou a apresentação de uma hora com o carro-chefe de divulgação do “Night Time, “You’re Not The One”, uma música raivosa sobre término que marca o início dessa fase roqueira da garota. Para o bis, ficou o seu maior sucesso até o momento: “Everything Is Embarassing”, eleita por vários sites, revistas e jornais especializados em música como uma das melhores faixas lançadas em 2012 e, provavelmente, o motivo pelo qual seu álbum de estreia finalmente conseguiu ver a luz do dia, depois de quase sete anos on hold. Mais uma vez, o público foi à loucura.

Com o show realizado em São Paulo, Sky Ferreira prova que é uma cantora além da atitude de bad girl e daquelas  roupas grunge Saint Laurent. Ela mostra que tem alcance vocal (não espere uma Mariah Carey, mas algo mais similar a Fiona Apple e Courtney Love), simpatia, presença de palco e uma singular verve para compor para a geração vigente. E, quanto mais a mídia criticar, melhor: assim, adolescentes e jovens hipsters ainda terão muitas canções como “I Blame Myself” para usarem como hino de revolta nos próximos anos, seja contra um ex, contra os pais, contra os homens ou simplesmente contra as injustiças da vida.

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Fotos: Ricardo Ferreira

Abaixo, escute uma playlist com as músicas que tocaram no show e outros sucessos de Sky Ferreira:

 

Sky Ferreira by João Ker on Grooveshark