Música & Badalo

Em cartaz no Rio, a italiana “La Mamma” traz texto que lembra comédias de João Bittencourt e as novelas de Silvio de Abreu!

Leonardo Miggiorin mostra versatilidade e firmeza em montagem em que Rosi Campos faz a festa, amparados por elenco com timing preciso, onde a crítica de costumes se compromete com a diversão da plateia

Publicado em 18/10/2014 | Por Alexandre Schnabl

*Por João Ker

HT já contou aqui que Leonardo Miggiorin está ao lado de Rosi Campos na peça “La Mamma”, em cartaz até 30 de novembro no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea. Como o nome mesmo sugere, a adaptação do texto no Brasil gira em torno de uma família ítalo-brasileira e foi escrito em 1960 por André Roussin, como uma adaptação teatral de “O Belo Antônio”, livro lançado no mesmo ano e que teve sua versão cinematográfica dirigida por Mauro Bolognini., enorme sucesso naquela década, tendo Marcello Mastroianni – na época, no auge, – no papel principal. Agora, sob a direção de Carlos Artur Thiré, a obra foi remontada e, após temporada paulista de sucesso, chega agora no Rio.

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A história toda se passa na sala de estar dos Magnano, famiglia onde a figura da Mamma protetora e abnegada ao núcleo familiar vivida por Rosi Campos faz de tudo para que a fama de galã conquistador do primogênito Antônio permaneça como um dos maiores orgulhos da família, quiçá o verdadeiro trofeu. Antônio, assim como seu irmão gêmeo Aldo, é interpretado por Leo Miggiorin, que se divide entre a preguiça, o moletom e os dentes sujos deste e os ternos, roupões e cabelo arrumado do outro.

Abordando as sexualidades masculina e feminina de forma leve e livre de estereótipos, a produção acerta naquele tom de comédia italiana que conquistou o mundo nos anos 1950/1960 e depois foi incorporado, no Brasil, pelas novelas de televisão que versam por um texto rápido e descomprometido, tipo comédia das 19h – ou seja, com muita gesticulação, palavrão e pessoas exalando exagero dramático através da fala – enquanto se afasta do drama original da história. Basta dizer que autores bem conhecidos do público brasileiro, novelistas como Silvio de Abreu, Vicente Sesso e Cassiano Gabus Mendes aprenderam seu ofício, em parte, assistindo peças de teatro e filmes como “La Mamma” e, daí em diante, se encarregam de difundir o gênero na teledramaturgia brasileira, o que torna o espetáculo mais palatável do que nunca, por se constituir em obra dessa fornada.

É verdade que todo esse tempero italiano às vezes escorrega, com o elenco esquecendo o sotaque aqui e ali ou então falando relativamente baixo para uma família que está discutindo (com o maior vigor exclamação possíveis) a anulação de um casamento por falta de consumação sexual. Mas, esses tropeços figurativos só acontecem no início enquanto o grupo de atores se aquece, já que da segunda metade em diante é quando as coisas começam a esquentar. Assim como Leonardo Miggiorin, Carlo Briani e Débora Gomez também interpretam mais de um personagem. Ele aparece primeiro como o padre tradicional e conservador que quer anular o casamento de Antônio; depois como o hilário e desbocado tio do mesmo e, em seguida, na pele do morbidamente obeso pai de Bárbara. Esta esposa inocente e romântica é vivida por Débora, que no início da montagem também dá vida à empregadinha safadinha da casa. Qualquer semelhança com aqueles textos de teatro de João Bittencourt, que viviam em cartaz nos anos 1980, ou naquelas comédias ligeiras que tinham Juca de Oliveira à frente não será mera coincidência.

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Se, por vezes, a direção de Thiré e a idade do texto fazem com que a montagem assuma levemente um perfil de comédia-pastelão, com piadas previsíveis, a improvisação e o jogo de cintura dos atores dá a tônica que poderia faltar a princípio. Coadjuvantes de talento, Carlo e Débora conseguem levar a plateia às gargalhadas com os traços de seus personagens, ela fazendo usos de risadas caricatas e divertidamente infantis, ele com as insinuações sexuais descaradas. Rosi Campos é quem mais parece se divertir no palco e, como boa veterana, consegue se manter no personagem mesmo quando é pega na surpresa dos improvisos, o que nesta quinta-feira (16/10) aconteceu algumas vezes. Primeiro, quando alguém da plateia levanta no meio da peça para atender o celular (que, em pleno 2014, não estava no silencioso) e ela lá de cima exclama para Débora, no meio da cena: “Olha, minha filha, que coisa esquisita!”, enquanto acompanha a pessoa com o olhar. Depois, quando contracena com Leonardo Miggiorin e este do nada solta um “Mamuska!”, recebendo aplausos do público. A observação feita pelo ator é mais do que pertinente e provavelmente transitava pela cabeça de todos ali. Afinal, a Mamma italiana tem uma adoração pelo marido falecido e uma preocupação com os filhos que é difícil não lembrar da marcante personagem vivida pela atriz na tevê, na novela “Da Cor do Pecado” (2004).

Encabeçando a trupe, Leonardo, que consegue transitar muito bem entre os dois irmãos, auxiliado pelos recursos do figurino e visagismo, também não escapa dessas surpresinhas, já que sua calça rasga no meio de uma cena e, depois, ele cai no sofá enquanto tenta levantar Débora no colo. Acidentes de percurso naturais, mas que na mão de atores menos experientes poderiam se transformar em transtornos para o ator no decorrer da peça. Feita para descontrair antes mesmo de questionar comportamento, “La Mamma”  e sua universalidade servem como válvula de escape para o público relaxar,  este formado essencialmente por famílias, casais maduros e pessoas de todas as idades que saem do teatro limpando as lágrimas de riso. Nesse âmbito, vale cada minuto.

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Serviço:

La Mamma

Quando: 10 de outubro a 30 de novembro

Onde: Teatro das Artes (Shopping da Gávea)

Endereço: Rua Marques de São Vicente, 52 – Gávea. Rio de Janeiro | RJ

Tel.: (21) 2540-6004

Valor: Quinta-feira e sexta R$60, sábado e domingo R$80

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