*por Vítor Antunes
Ano de 1996. Uma jovem cantora colombiana surgia na cena mundial enquanto o brasileiro Marcelo Mansur, o brasileiro DJ Meme, consolidava sua ascensão a partir de dois álbuns bem-sucedidos de Lulu Santos produzidos por ele e de um remix de um cantor latino pouco conhecido no Brasil. Isso lhe rendeu um convite improvável: fazer os primeiros remixes de uma artista ainda em formação — que viria a se tornar um fenômeno global. Assim começou a relação entre DJ Meme e Shakira, que neste ano passará a integrar o show especial “Todo Mundo no Rio”. A cantora colombiana fará uma apresentação gratuita para os cariocas, na Praia de Copacabana. E o primeiro sucesso mundial dela, o remix de “Estoy Aquí”, tem um tempero brasileiro: Marcelo Mansur, o Meme.
“Estoy Aquí” completa 30 anos neste ano, e Meme fala sobre o valor que a música tem em sua vida como quem revisita um marco fundador. “Essa música, na minha vida, tem solidez. Foi o primeiro remix que eu fiz assim, que eu falei: ‘Eu tenho muito orgulho dele, pois o fiz com muita certeza.’ Se ia dar certo ou não, eu não tinha essa preocupação. A minha preocupação era fazer um negócio que, no futuro, eu pudesse dizer: ‘Pô, isso aqui continua bacana’”.
A aproximação de Meme com a gravadora da artista se deu de forma mais burocrática do que mítica. Ele faz questão de desfazer a versão romanceada segundo a qual teria sido procurado diretamente pela cantora. “Vamos colocar uma pedra em cima dessa história pra gente. A Shakira não chega na [minha] pessoa. Quem chega é a gravadora”, diz, referindo-se à Sony Music. A filial colombiana celebrava então a carreira de um de seus artistas mais importantes na música popular, Diomedes Díaz, uma espécie de Dominguinhos local, já que em todas as suas canções há uma sanfona onipresente. A Sony reuniu 10 remixes ao redor do mundo, cada um representando um território. Memê foi o escolhido no Brasil.

Registro das fitas originais de “Estoy Aqui”, de 1996 (Foto: Reprodução/Acervo Memê)
Ele conta que, devido à importância simbólica do instrumento, o remix não poderia retirar a sanfona da mixagem — uma recomendação que decidiu ignorar. “Eu cortei a sanfona e talvez por isso foi o único remix que deu certo”. A ousadia acabou recompensada com um novo convite: remixar duas músicas da “nova cantora”, “Un Poco de Amor” e “Estoy Aquí”.
Se der certo, ótimo. Se não der certo ninguém vai notar porque ela é novata, mas pelo menos faço algo que eu mesmo possa tocar – DJ Meme, no Facebook
Meme conta: “Eu recebi as fitas grandes, 24 canais, multitrack. Quando recebi o CD da Shakira, que tinha acabado de sair, ouvi ‘Estoy Aquí’ e achei uma ótima música. Pensei: ‘Pô, a música é boa’, e fui para o estúdio fazer meu trabalho. Falei: ‘Bom, como não é para o Brasil, não preciso ficar correndo atrás do apelo brasileiro, porque tudo que eu fazia para o Brasil tinha que ter um truquezinho para conquistar o cara da rádio.’ Fiz um remix como se fosse um americano mesmo, algo para eu tocar na pista. Fiz um remix para o mundo”. As duas versões saíram em vinil e foram distribuídas internacionalmente.
Segundo ele, a própria Billboard registrou que aquele foi o primeiro grande hit mundial da cantora. “O mix deu certo no exterior e acabou parando aqui no Brasil como se fosse algo ‘importado’. A Billboard Magazine documentou que o meu remix foi responsável pelo primeiro estouro da Shakira no mundo, e, quando ela veio pela primeira vez ao Brasil e se apresentou no Domingão do Faustão, a TV Globo a forçou a cantar com a versão remix.”

DJ Meme fez o remix que popularizou Shakira mundialmente (Foto: Acervo Memê)
Há ainda um detalhe saboroso de bastidor. A base de “Estoy Aquí”, conta Meme, era inspirada em outra canção, de um artista iniciante à época: Jorge Vercillo, também produzida por ele. “Resolvi pegar o disquete e pensar a sequência musical de teclado que criei naquela música chamada ‘Olha e Não Me Olha’.” O produtor descreve o gesto como quem se depara com uma peça rara esquecida na gaveta: “Coloquei dentro da minha máquina, pensei os sons e toquei outra música, que é a da Shakira — mas a bateria, o som de baixo e a ideia conceitual musical seguiram por aí”.
“Talvez, seja o meu remix mais importante – DJ Meme, no Facebook
Ele compartilha mais detalhes sobre como o sucesso se desenrolou na época: “O que aconteceu depois foi o seguinte: como qualquer artista que se dá bem no mundo, as gravadoras tentam fazer dar certo no Brasil também. Por quê? Porque o Brasil é um mercado do tamanho de um continente. O rádio era o que mandava na música pop naquele momento — era a Jovem Pan. Tentaram colocar o disco na Jovem Pan para tocar. Inicialmente, a versão original da música da Shakira não passou. O Tutinha disse: ‘Essa música não tem nada a ver com a programação.’ Aí alguém na Sony Music sacou o remix que tinha sido feito para os Estados Unidos, que era meu, e essa foi a versão que tocou na rádio. Ele fechou uma conta com a Sony Music para pagar uma grana ele por disco vendido, caso ele estourasse a música na rádio. E foi o que aconteceu.”
Eu vejo muita gente dizendo que ‘o Memê foi o cara que fez a Shakira ver o pop’. Não dá para a gente receber a responsabilidade disso tudo. A Shakira virou uma artista americana. E ela entrou na bolha americana, ela foi selecionada, o disco deu certo, não há um fator determinante meu nisso. Acho uma bobagem dizer que o remix tem alguma ligação com o lado pop dela. Pode ter, mas isso nunca foi dito nem admitido – DJ Meme

Disco de ouro de “Estoy Aqui” (Foto: Acervo Memê)
Para o músico, o fato de um remix ter explodido pode ter sido “uma barra” para a cantora. “Quando você estoura um remix, que não tem nada a ver com o original, se o artista não comprar a ideia do remix como uma coisa dele — porque a versão que ele queria trabalhar e que abre o álbum, não sei o que lá, é a outra…”
Três décadas depois, quando Shakira voltar a cantar na Praia de Copacabana, haverá ali mais do que um show gratuito: uma espécie de reencontro involuntário com a engrenagem invisível que ajudou a projetá-la para o mundo. No ruído das caixas de som e no coro de uma multidão que talvez desconheça essa história, ecoará também a aposta de um DJ brasileiro que, diante de fitas magnéticas e de um disquete reaproveitado, decidiu fazer um remix “para o mundo”.