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Desbunde geral: “Se fosse carnaval todo dia, nossas ruas seriam tomadas de amor”, disse Johnny Hooker na Casa Bloco

Em conversa com o Site HT esse fenômeno da música brasileira falou sobre carnaval, suas inspirações, carreira, Pink Money, criminalização da LGBTfobia, diretos humanos e ainda teve homenagem

Publicado em 03/03/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Rafael Moura

Quando as portas da penúltima noite da Casa Bloco, se abriram a expectativa era gigante para receber o muso pernambucano Johnny Hooker, a grande atração da noite ao lado dos Djs TropiCals e da banda TechnoBrass. “O projeto Casa Bloco tem o objetivo de promover o intercâmbio entre manifestações culturais dos carnavais do Brasil, com muita troca de experiências e integração entre os grupos. Estamos muitos felizes em realizar essa segunda edição. Trazer o Johnny Hooker foi um desejo pessoal e lutamos muitos para viabilizar a vinda desse grande e jovem artista”, conta feliz Rita Fernandes, idealizadora e diretora-geral do projeto.

Foto: Bruno de Lima

Depois de Raquel Potí anunciar eis que surge no palco Johnny Hooker como um cisne negro ao som de “Touro”, do álbum Coração (2017). Daí para frente vieram os sucessos Corpo Fechado, Caetano, Amor Marginal, Alma Sebosa, Volta, Escandalizar, Chega de Lágrimas Flutua, Desbunde Geral, Coração de Manteiga de Garrafa… Misturando muito brega, frevo e rock glam. Johnny ainda entoou frases de emponderamento e contra o racismo, misoginia e LGBTfobia…

“O Carnaval é a nossa forma de fazer política, de se organizar. Nesse período tem mais empatia, mais ajuda, mais amor, mais fraternidade, mais resistência. Se fosse Carnaval todo dia, nossas ruas seriam tomadas de amor e alegria… É a nossa grande organização política”, conta Johnny Hokker no camarim minutos antes do show. E completa: “Eu cresci no carnaval do Recife, com frevo, maracatu onde o carnaval é na rua. O Carnaval de Olinda se tornou um grande festival de cultura latino-americana. O Rio de Janeiro com esse maravilhoso desfile das escolas de samba precisa democratizar mais a festa e investir mais nesse patrimônio da cidade”.

Foto: Bruno de Lima

John Donovan de registro, adotou o nome Hooker [prostituta em inglês] na adolescência. “No colegial, me apaixonei por uma menina que sofria bullying por ser sexualmente muito livre. Minha admiração por ela era tanta que a pedi em namoro e falei: se querem chamar ela de puta, vão ter que me chamar de puta também.” Foi nessa época, aos 14, que surgiu a primeira banda e algumas músicas que estão no repertório até hoje, como Amor marginal.

O sobrenome ainda é uma homenagem às bandas de punk rock, como Sex Pistols, que tem um nome agressivo “O Hooker é uma forma de entender um pouco a apressão feminina diária. Que eu até vivencio com a minha mãe, amigas, fãs. Johnny Hooker não é homem nem mulher. É uma entidade!”

Foto: Bruno de Lima

O jovem de voz potente tem uma Santíssima Trindade, formada por Madonna, David Bowie e Caetano Veloso, em que busca suas forças e inspirações. “Eu sempre fui muito atraído por artistas que subvertem o gênero e o conservadorismos. Minha mãe (Liz Donovan) é uma artista que flutua nesse território, então, comigo não poderia ser diferente. Sempre fui instigado à subverter essas caixinhas que adoram nos aprisionar”.

Johnny é um ativista ferrenho. Ele dá voz ao seu público e acredita que figuras públicas tem esse dever “Eu sempre admirei artistas engajados. Arte e política andam juntas. Precisamos nos posicionar pelas minorias, defender o nosso público. Ou será que tudo é sobre dinheiro? Pink money está na moda. O Brasil remonta a mentalidade da colônia. Temos um passado gigante e feio que precisa ser encarado ou a cada 20 anos iremos eleger um ditador. Precisamos tentar frear esse fanatismo religioso que está nos destruindo. Somos uma grande e deliciosa mistura. É impossível não falar sobre as pautas que atingem o nosso público. Confesso que já perdi admiração por alguns artistas por esse não posicionamento”.

Foto: Bruno de Lima

Um levantamento da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais (ILGA, na sigla em inglês), que reúne mais de 1,3 mil grupos de defesa de direitos LGBT, mostra que 43 países membros da ONU – já têm legislações contra crimes de ódio pela orientação sexual da vítima. Estas leis estabelecem crimes específicos ou consideram o motivo um agravante para elevar penas de crimes comuns. Em 39 países, há leis que punem discursos que incitam o ódio contra esse público.

Foto: Bruno de Lima

“Simbolicamente a criminalização da homofobia é importantíssimo. Chega também de ouvirmos casos como o de Marielle, Rafael Braga, Pedro, Claudia, Amarildo, Crispim… Somos o país que mais mata LGBTs no mundo. A aprovação dessa lei é será um alívio. Lembrando que ela está tramitando no Congresso Nacional há 20 anos, é maravilhoso que o STF esteja discutindo essa pauta”, conta indignado e completa “Queremos igual proteção penal. Se você criminaliza alguns tipos de opressão e não outras, passa uma ideia sinistra de que são menos relevantes. Não se pode hierarquizar opressões”.

Foto: Bruno de Lima

[Em um determinado ponto da conversa Johnny lembra que já tem 10 anos de carreira. Sua primeira apresentação foi no programa Geleia do Rock, do canal fechado Multishow] “Parecem 100 anos. Uma coisa é certa: continuo o mesmo jovem revoltado. Tenho muitos desejos de mudanças, ainda mais depois que descobri a força que um artista tem. Eu consigo falar para os jovens, sejam eles, gays, lésbicas, héteros… E defender esse discurso. Uma coisa que é interessante é que “Coração” (álbum de 2017) faz mais sucesso do que “Eu vou fazer uma macumba pra te amarra maldito” (2015)… É muito interessante essa percepção do público. É lindo você ver uma platéia cantando junto com você”.

#DesbundeGeral – Descobrimos que duas jovens empreendedoras fizeram uma marca em homenagem ao cantor e tratamos de arranjar esse encontro. A Desbunde é uma marca de adereços de carnaval, de Carolina Correa e Tainá Caitete e tem o universo de Johnny Hooker como inspiração. “Nós, já fazíamos adereços de carnaval para amigos, e, decidimos criar uma marca de acessórios de cabeça pro carnaval, mas com uma pegada de crítica e militante, que tem a ver conosco, já que somos militantes. Acreditamos que o carnaval é resistência e porque não nos vestir ou portar nossas bandeiras nesse momento?! E nós, eu e Carol amamos Johnny Hooker. E na busca por um nome pra marca que trouxesse esses elementos da crítica e da irreverência porque não “Desbunde”? Foi muito potente essa escolha”, conta radiante Tainá.

Com a tiara Desbunde (Foto: Bruno de Lima)

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