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De alternativo a crivo fonográfico: a verve do Lollapalooza BR

Entre sangues novos para uma maioria que só se guia pelo mainstream, medalhões de festivais e apostas mais conceituais do que comerciais, o Lollapalloza se prepara para mais uma edição revitalizando a proposta com a qual nasceu: ladrilhar a música de seu tempo

Publicado em 19/03/2019 | Por Heloisa Tolipan

Como se sabe, o Lollapalooza nasceu como um festival de música alternativa, lá nos idos de 90, como uma turnê de despedida da banda Jane’s Addiction. Frontman do grupo, Perry Farrell criou o termo “Nação Alternativa” em meio ao boom do chamado rock alternativo – as edições de 92 e 93 tiveram presença de artistas grunge e alternativos, e frequentemente apresentando um artista de rap. O lado B da fonografia também encontrou lá um berço já que a turma do punk rock passou a ter vez – o que culminou com a criação de dois palcos para bandas revelações e locais. Trocando em miúdos, o Lolla ladrilhou a rua por qual a música underground estadunidense passou até virarmos o milênio.

O tempo passou, o Lolla atravessou o Atlântico, fincou seus pés em São Paulo e, nos próximos dias 5, 6 e 7 de abril abre novamente seus portões no Autódromo de Interlagos para a edição 2019. Aqui, o Lolla não cabe mais na gaveta de alternativo de onde um dia saiu. O line up – estruturado por datas e horários há poucos dias – revela um caldeirão efervescente que mistura as revelações do mainstream, os lucradores do streaming, o lado B da música autoral, uma turma que recém saiu da garagem e os monstros do showbiz. E aí que a psicodelia – tal qual o pacote gráfico do festival – ganha sentido: todos, durante os três dias de Lolla, estão sob o mesmo guarda-chuva.

Palco Budweiser do Lolla (Foto: Divulgação/Lolla)

Para o dia 7 de abril, por exemplo, o Lolla contratou a banda paulistana de rock experimental E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante que só havia mostrado suas canções através de singles e EPs quando lançou apenas no final do ano passado seu disco de estúdio, “Fundação”. No mesmo dia, o rap de discurso progressista de Gabriel, o Pensador sobe a um dos palcos, mesmo sem lançar um disco desde o “Sem crise” de 2012. É a mesma curadoria que vê valor em escalar Liniker e os Caramelows – ainda distante das rádios, dos programas de auditório, e das revistas – e continuar surfando a onda da Scalene, que o concorrente Rock in Rio ajudou a surfar colocando-os no Palco Mundo.

Prova da efervescência e pluralidade é que, paralelo ao lado B do line up, o festival bebe ainda da fonte do mainstream da música eletrônica e escala os irmãos belgas Dimitri Vegas & Like Mike – que mantêm a crescente no seu novo single “Selfish”. Cereja do bolo, o DJ e produtor holandês Tijs Michiel Verwest, conhecido mundialmente como Tiësto, também vem ao Brasil trazendo na mala o feito de que é o único artista a ter os títulos de “O maior DJ de todos os tempos”, eleito pela Mixmag; “#1 DJ”, de acordo com a Rolling Stone; e “The Godfather of EDM”,pela Billboard. Mostrando que sabe a força que a e-music tem de mover público, a curadoria apostou ainda em Paul Nicholas Fisher, conhecido pelo nome artístico FISHER, um DJ e produtor musical australiano. Por seu single solo “Losing It” ele foi indicado ao 61º Grammy Awards em duas categorias: Melhor Lançamento de Dança e Melhor Gravação de Dança. É um investimento bem maior do que o concorrente carioca, diga-se.

Olhando os headliners, não há dúvida: o Lollapalooza deixou de ser alternativo para passear pela diversidade da indústria fonográfica. É o que se conclui quando Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Carlinhos Brown – os Tribalistas – ganham espaço no Palco Budweiser – o principal – para desfilar o novo disco e sucessos da década passada. O anúncio despertou uma série de críticas de internautas, mas, como pano de fundo, reforça o caráter de valorização da música brasileira, afinal estamos falando de compositores, intérpretes e percussionistas de marca maior; vencedores do Grammy Latino e responsáveis por vender mais de 3,7 milhões de cópias, que lotaram estádios cantando a eternizada “Já sei namorar”, quando Manoel Carlos ainda se fazia novela.

Tribalistas: retorno aos palcos em 2019 e show no palco principal do Lolla (Foto: Divulgação)

Já a hora da vinda do Arctic Monkeys é fruto de uma sabedoria do festival em agradar seu público tradicional, que aplaude um bom rock britântico, mas também de uma aposta musical sobretudo, indo além do produto que a manda representa: o show que veremos acontece depois sexto disco de estúdio, “Tranquility Base Hotel & Casino”, com referências aos anos 60 e 70, mudando o tom do trabalho apresentado até então – e é isso que veremos, claro, ao lado de “Do I Wanna Know?”, “R U Mine?” e “Arabella” – de digestão mais garantida pela plateia.

Kings of Leon, Kendrick Lamar, Lenny Kravitz e Interpol dispensam apresentações e ajudam a ampliar o leque de frequentadores, já que atravessam gerações, discursos e vão do rock ao soul, passando pelo hip hop – e aí, é um tiro certo: carreiras sedimentadas, shows de repertório amplamente conhecidos, em palcos nobres e nos últimos horários – até porque não se inventa a roda. Entre os sangues novos para uma maioria que só se guia pelo mainstream, medalhões de festivais e apostas mais conceituais do que comerciais, o Lollapalooza se prepara para mais uma edição revitalizando a proposta com a qual nasceu: ladrilhar a música de seu tempo.

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