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Day 1: a alegria e diversidade tomam conta de mais uma edição do Candybox, o primeiro camarote gay da Sapucaí, na noite de desfiles da Série A

Há sete anos no Carnaval carioca, o Candybox coleciona histórias. Como nos contou Mickael Noah, criador do camarote ao lado de Guilherme Barros, no começo, parte do público da Avenida não olhava para o espaço com bons olhos. "Nós tivemos inúmeros casos de sabotagens de pessoas que queriam que o Candybox acabasse e que a festa fosse desligada. Agora, eu sinto que a gente se impõe", disse Mickael.

Publicado em 25/02/2017 | Por Julia Pimentel

Ô abre alas que a diversidade vai passar! Essa foi a ideia que comandou o Candybox, primeiro camarote gay da Sapucaí. No espaço, que a partir deste sábado ganha o colorido do Folia Tropical, a mistura do eletrônico com o pop tomou conta da noite que tinha como atração principal o desfile da Série A do Carnaval carioca. Enquanto na Passarela do Samba sete escolas desfilavam brilhos e enredos em forma de alegorias e fantasias, dentro do camarote, o público se divida em três ambiente com DJs de diferentes ritmos. Entre os comandantes da trilha sonora do Candybox, estavam as DJs Ju de Paulla, Lela Gomes e Bruna Strait. Já entre os convidados, que esgotaram os ingressos de ontem do camarote, a atriz Yara Charry, que interpretou a francesa Sophie de Velho Chico, foi uma das presenças VIPs.

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Hoje, o camarote que recebeu o Candybox ganha cores e nova energia com o Folia Tropical (Foto: Julia Pimentel)

Sucesso mais que consolidado no setor do entretenimento, o Candybox é considerado uma vitória pelo seu criador Mickael Noah. Ao lado do sócio Guilherme Barros, o empresário lembrou que a chegada de um camarote gay à Sapucaí não foi bem vista e aceita por todo o público do Carnaval. “O Candybox é uma vitória para a gente. No primeiro ano que trouxemos o camarote para a Avenida, eu lembro que as pessoas olhavam com rabo de olho para a gente e comentavam bastante. Esta era uma situação muito velada, apesar de existirem muitos gays no Carnaval. Em um barracão, por exemplo, a gente encontra desde o carnavalesco e a diretoria ao operário. E mesmo assim não tinha um camarote gay” disse Mickael que hoje comemora a consolidação de um projeto que deu certo. “É lindo ver que depois de sete anos de Candybox, hoje a gente tem outros dois camarotes gays na Avenida. É muito importante que a Sapucaí abrace todos os grupos. Eu sinto que foi um papel que nós exercemos lá atrás de conseguir trazer essa questão para Avenida. Então, para mim, o maior sentimento é o orgulho”, completou.

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Mickael Noah e o pai, Newton Mendonça (Foto: Julia Pimentel)

Nesses sete anos de vida, o Candybox, além de respeito, também coleciona muitas histórias. Seja entre seus convidados ou nos bastidores, o camarote já foi palco para encontros, que viraram histórias de amor, como também de casos de gente querendo acabar com o reduto da diversidade da Sapucaí. “Hoje em dia, o camarote é muito mais respeitado. Mas, nos anos que passaram, nós tivemos inúmeros casos de sabotagens de pessoas que queriam que o Candybox acabasse e que a festa fosse desligada. Agora, eu sinto que a gente se impõe e que as pessoas respeitam”, lembrou Mickael Noah. No entanto, a memória do Candybox também é composta por lembranças incríveis. Como contou Mickael, o camarote já recebeu diversos artistas, de diferentes áreas, como convidados do espaço. “Eu tenho algumas histórias boas com o Candybox nesses sete anos. Quando nós fizemos a primeira edição com uma megaestrutura foi muito impactante e emocionantes acompanhar de perto a proporção gigantesca que o projeto tomou. Nós também tivemos shows sensacionais, como o da Valesca, que veio no auge do ‘Beijinho no Ombro’, e a Ludmilla, na época de ‘Hoje’. Fora o fato de hoje o Candybox estar nos guias e nos calendários mais interessantes e comentados do universo LGBT”, comemorou.

Área aberta do camarote e o desfile das escolas de samba da Série A do Carnaval carioca (Foto: Julia Pimentel)

Em relação às músicas do Candybox, esse é um assunto que merece atenção especial. Por lá, três andares se dividiam em pistas de danças próprias e plurais. Enquanto no primeiro piso era o eletrônico que dominava, no segundo, hits de sucesso do momento ganhavam remixagens e batidas tecno. Como foi o caso, por exemplo de “10%”, das sertanejas Maiara e Maraísa, que ganhou nova forma e conquistou os convidados. No terceiro andar, o pop era a principal estrela. Por lá, divas como Beyoncé e Rihanna tiveram presença garantida. Tudo isso com um enorme espetáculo ocorrendo fora do camarote: o desfile das escolas de samba da Série A do Carnaval carioca. “O Candybox tem essa proporção de hoje, porque é uma festa única. Não há em nenhum lugar do mundo um evento como esse que está acontecendo nessa noite. Aqui, nós temos uma experiência muito diferente em que a atração principal é o desfile, mas, no background, temos uma variedade musical enorme. E é justamente esse mix que faz tudo ser lindo como é”, analisou Mickael Noah.

A diversidade musical é um dos conceitos do Candybox (Foto: Julia Pimentel)

Concordando com o empresário, o ator e cantor Beni Falcone acredita que a mistura seja um dos segredos do sucesso do Candybox. “Para mim, essa festa é uma grande salada de gente e tribos com um batidão incrível por trás. Isso tudo em plena Sapucaí. Aqui, nós temos pessoas diferente se amando igualmente na passarela do samba. Eu acho que isso que caracteriza o verdadeiro Carnaval”, argumentou Beni que frequenta o camarote desde a sua criação e ainda destacou o clima familiar que o Candybox possui. Assim como a identidade do camarote, o artista também possui uma carreira bem plural, que vai da atuação à música. Em relação aos trabalhos, ele nos contou das novidades: “Eu lancei meu último single em dezembro com a Carla Dias e em breve divulgarei mais um. Fora a carreira musical, eu também faço uma participação na primeira fase de “Belaventura”, a próxima novela da Record”.

Beni Falcone no camarote Candybox (Foto: Julia Pimentel)

Responsável pelo setlist do terceiro andar, Bruna Strait destacou o desafio que é criar um repertório que conquiste os convidados do camarote. Entre tantas opções de entretenimento dentro de um mesmo espaço, a DJ contou que procura sentir a energia das pessoas para escolher a próxima música. “É um desafio muito grande conseguir prender as pessoas na pista. Mas é um trabalho delicioso quando a gente consegue envolvê-las, mesmo quando a gente tem um espetáculo tão grandioso como esse ocorrendo aqui fora. Eu toco sempre dependendo da reação do público. Mas aqui as pessoas estão querendo mesmo se divertir. Em festa hétero, não é sempre que a galera é tão receptiva com todo o tipo de pop, como em festa gay, por exemplo”, comparou Bruna Strait.

Bruna Strait e Ju de Paulla foram as DJs do terceiro andar do Candybox (Foto: Julia Pimentel)

Companheira da DJ no terceiro andar do Candybox, Ju de Paulla ressaltou a importância de um camarote gay na Sapucaí. “Aqui todo mundo se sente muito livre, porque este é um espaço pensado para a diversidade. Por isso, as pessoas são sempre mais animadas e aproveitam mais a festa. Eu amo”, disse a DJ que este ano irá se dedicar à folia carioca. “Há dez anos eu passo o meu Carnaval em Salvador. E dessa vez, eu vou conhecer a principal essência da folia carioca. Então, no sábado eu vou para o Bola Preta, no Centro da cidade, no domingo e na segunda eu venho para o desfile do Grupo Especial e, na terça-feira, eu toco em uma festa em Ipanema”, listou a agenda.

Ju de Paulla no camarote Candybox (Foto: Julia Pimentel)

Quem também estava por lá e está com uma programação bem intensa para essa folia é Yara Charry. A atriz, que é franco-brasileira e interpretou a francesa Sophie em Velho Chico, contou que está encantada com a nossa festa. Com o seu olhar estrangeiro ao Carnaval, Yara apontou que esse é um evento que só ocorre no Brasil, ainda mais nessas proporções. “Eu que não sou brasileira, mas que estou morando aqui agora, estou encantada com tudo isso. As pessoas são muito animadas, gostam de pôr fantasias, usar glitter e se produzir inteira. Essa é uma festa que não existe em outro país. Então, todo mundo que vem de fora fica apaixonado. Não tem jeito, é maravilhoso”, disse Yara Charry que irá desfilar em um carro da Mangueira, irá sair em blocos de rua e não descartou a possibilidade de dar um pulinho em Salvador. Em relação à carreira, a atriz contou que, no momento, está se dedicando aos estudos. “Tomara que apareçam novos trabalhos em breve. Por enquanto, estou aprendendo mais”, disse a francesa.

Além de convidada do Candybox, Lela Gomes também foi mais uma das responsáveis por agitar uma das pistas do camarote. A DJ, que estava brilhantemente purpurinada, também destacou o discurso de sua companheira Ju de Paulla, que apontou a importância de haver um espaço totalmente pensado e projetado para os gays da Sapucaí. “Nós precisamos ter um espaço em que nos se sentimos à vontade para sermos quem a gente quiser e fazer o que estiver afim. É essencial”, disse Lela que acredita que a naturalidade ao tratar a liberdade de gênero é a principal estratégia para uma sociedade livre de preconceitos. “Ser gay para mim nunca foi um problema e nem uma diferença. Eu sempre fui assim e ponto. E eu acho que essa naturalidade com que eu trato essa questão a torna mais fácil de ser aceita pelos outros. Eu acho que, embora a passos lentos, nós estamos melhorando bastante. Eu vejo a transformação nas crianças que, cada vez mais, tratam com mais naturalidade a diversidade. Ainda falta um pouco, mas estamos indo bem”, analisou.

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