Música & Badalo

Mistério capilar: com som, atitude e look rockstar, Alex Turner mantém topete intacto e se apresenta com o Arctic Monkeys no Rio!

Sem dar muita confiança à plateia e avessa à muita super produção, banda britânica conserva postura de banda de garagem, mesmo tendo crescido de público, oferecendo bom espetáculo no HSBC Arena

Publicado em 16/11/2014 | Por Alexandre Schnabl

*Por Thaís Vieira

Cada macaco no seu galho virou ditado velho depois da meteórica passagem dos Arctic Monkeys pela Cidade Maravilha. Os rapazes provaram que, na hora de dominar a cena, não importa se são no Ártico, Estados Unidos, da tundra siberiana, do calorento Kalahari ou cariocas, está tudo dominado. Antes de a atração principal subir ao palco, o público presente no HSBC Arena, Rio, nesta noite de sábado (15/11) pode assistir à banda sueca The Hives. O vocalista Pelle Almqvist, performático, deu chutes nos ar, arremessou o microfone para o alto diversas vezes e ainda protagonizou uma cena inusitada ao ver uma menina na platéia falando ao telefone. Desceu do palco, pegou o celular da mão da menina e falou: “Alissa não pode atender o telefone agora. Onde você está? Deveria estar aqui!”. O que, com certeza, já animou a galera para o show que estava por vir.

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Quando a atração principal entrou em cena, o público já estava devidamente preparado para o que estava por vir. Alex Turner, vocalista do Arctic Monkeys, viu uma arena lotada enlouquecer aos seus pés quando pisou no palco. O britânico -com um look retrô composto por blazer, camisa social aberta no peito e topete meio “sósia de Elvis” – dominou o palco com voz impecável. Intensidade na hora de cantar, com muito espaço para baixo e guitarra em um tom mais groove é a nova onda da banda e, pela quantidade de pessoas que gritavam ensandecidas pela noite de ontem, a atual pegada deu certíssimo.

A banda de Sheffield, Inglaterra abriu o show com o hit “Do I Wanna Know“, do seu ultimo álbum “AM”, lançado no ano passado e responsável por essa total mudança da banda. Se o som ficou mais R&B, a platéia se expandiu. O disco conquistou os mais velhos que viveram na época de grandes nomes do blues e até menores, que lotaram a arena acompanhadas de suas mães. O publico presente era bem mais jovem do que antes se via em um show dos britânicos, o que ficou fácil de ser notado quando, ao final do show, dezenas de responsáveis esticam seus pescoços à procura dos filhotes, que povoam a multidão esmagadora da grade.

E não foram só os cariocas que curtiram o show de ontem. Com apresentações marcadas apenas para Rio de Janeiro e São Paulo, jovens de todo o Brasil vieram ao Rio para ver de perto os seus ídolos. Para Beatriz Martins, de Ribeirão Preto, “Valeu muito a pena. O som da banda estava perfeito e o público carioca tem uma energia diferenciada. Melhor show que fui esse ano, a setlist estava impecável”.

Os rapazes se mostraram muito maduros na hora de escolher as músicas que entrariam na seleção, que deveria cobrir 12 anos de carreira e os cinco álbuns de estúdio, e o repertório de forma alguma deixou a desejar. O Arctic Monkeys cresceu. HT presenciou uma banda mais consistente e também consciente, que provou que não só de grandes hits e karaokê animado se faz um bom show de rock. Teve música para todos os gostos, com maior presença de sucessos do “AM” (10, no total), o qual dá nome para a turnê. Dos outros registros, tocaram quatro de “Favourite Worst Nightmare”, três de “Suck It and See” e “Whatever People Say I Am, That’s What I Am Not” e apenas duas de “Humbug”. E até uma palinha de “Mardy Bum”, balada amada por todos os fãs do grupo, foi entoada, deixando a plateia bem satisfeita.

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E, apesar de falar pouco (ou quase nada), Alex Turner não desagradou. Ainda assim, faltou alguma interação com o público que, se não for um super fã chorando de emoção na plateia e se contenta em apenas poder ver o ídolo ao vivo, pode facilmente confundir as poucas palavras do cantor com uma certa indiferença do tipo “vim, cantei, acabou”. Talvez os garotos ainda não estejam acostumados com o atual status de banda de arena ou, quem sabe, não se importem muito com a mudança de padrão de suas apresentações. Mas, se continuem assim, sem perceber que quando se ganha o mundo em arenas lotadas, essa atitude um pouco blasê não é vista mais apenas como estilo da banda, podem apanhar mais adiante. Além disso, reconhecer o estágio da carreira a que chegaram e crescer em performance e produções também é necessário. As 15 mil pessoas ali presentes não eram todos fãs incondicionais e, quando se chega a esse nível artístico, arrastando milhares a um espetáculo, não basta tocar as músicas melhor do que no CD. Um grande show não é só isso, e veteranos como Madonna ou Kylie Minogue sabem muito bem disso.

O Arctic Monkeys subiu ao palco com aquela atitude de quem não estava lá para agradar ninguém e, por isso, não foi um espetáculo digno de um coliseu lotado. A banda optou por uma vibe de show de garagem alternativo, com fumaça, sem grandes produções, com telão em preto e branco, apenas o símbolo da capa do novo CD (uma espécie de leitor cardíaco musical) feito de lâmpadas que acendiam de acordo com cada música. Pouco para o atual patamar do show bizz. Isso, no entanto, funcionou bem, dado o tom do espetáculo que estava sendo apresentado.

Alex Turner cantou música após música, sem intervalo ou gracinhas entre elas, com exceção de alguns “obrigados” e antes de “Arabella”, quando anunciou: “agora vou contar sobre uma garota chamada Arabella”; e também precedendo “R U Mine”: “é isso, temos que deixá-los, Rio”. Ele mal parecia perceber a platéia ali presente, que gritava o tempo todo incansavelmente, enquanto demonstrava estar mais envolvido em si mesmo, em seu próprio transe musical. Por outro lado, esse aspecto talvez seja responsável por sua interpretação tão intensa em cada música.

Apesar disso e pelo visto, para os presentes nada mais parecia ser necessário para que o rapazes do Reino Unido dominassem o palco. Por exemplo: para Natália Puga, de 19 anos, foi suficiente: “Eu sei que eles são assim, mais reservados. Então, se começassem a interagir muito eu até acharia estranho”, comenta. Já no final, houve um pouco mais de simpatia do vocalista, quando falou “R U mine” em tom de pergunta, fazendo uma brincadeira com o nome da música que soou como “vocês são meus?”, ao que todos gritam “yes” em uníssono.

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Mas, se a interação com o publico parecia pouca, a afinidade com o seu cabelo com certeza era bem grande, fazendo com que fãs desejassem ser aquele topete que vira e mexe era consertado com um pente, após ser desfeito pelos movimentos de uma música (incluindo o rolar no chão durante “Arabella”). Apesar de surgir com um garage rock, esse look certinho de Turner se deu em uma crescente natural – o estilo começou a mudar no final da turnê do “Suck It and See” e se inspirou em personalidades como Josh Homme, Nick Cave e John Cooper Clark, e muitas músicas apresentadas foram responsáveis por bagunçar o visual do cantor, que não resistiu ao calor e até tirou o seu blazer, para o delírio das fãs mais atiradinhas. Tudo a ver. O repertório com poucas baladas e muitos rocks pesados e animados pedia mobilidade pouco possível com tal figurino. Músicas como “My Propeller”, “All my own stunts” e “Don’t sit down cause I’ve moved you chair” exigiam o máximo de postura rock n’ roll.

E, se não era do feitio de Turner fazer o clássico pedido de “acendam os celulares e isqueiros”, a platéia tomou para si a tarefa de iluminar a arena e o resultado foi um belo show de luzes durante “Nº 1 Party Anthem” e “505”, que ganhou o devido reconhecimento do cantor: “obrigado, isso foi lindo”. E de fato foi. No geral, Arctic Monkeys veio ao Rio e entregou um show como era esperado: tecnicamente impecável para fã nenhum colocar defeito.

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