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Com nova formação, Barão Vermelho lança single no Rio: “passado é museu e museu pega fogo no Brasil”, diz Guto Goffi

Apesar de prestigiar o antigo sucesso, o baterista e um dos fundadores do grupo, Guto Goffi reafirma que a banda olha para o futuro: "Ao mesmo tempo, estamos buscando uma nova linguagem para a banda, algo que nos leve para a frente. Eu tenho muito orgulho do nosso passado, primeiro com o Cazuza e depois com o Frejat, mas a gente quer ir para a frente agora"

Publicado em 28/12/2018 | Por Leticia Sabbatini

Na noite dessa sexta (28/12), o Circo Voador, no Rio de Janeiro, terá o privilégio de escutar ao vivo pela primeira vez o novo sucesso do atemporal Barão Vermelho. O single “A solidão te engole vivo” é o primeiro lançado pelo grupo desde a substituição dos vocais de Frejat pelos de Rodrigo Suricato. O site HT conversou com Guto Goffi que, além de ser um dos fundadores da banda, participou da composição da música e nos falou tudo sobre o processo de criação, a nova turnê e o passado do grupo.

Na atual formação, Rodrigo Suricato, Guto Goffi, Fernando Magalhães e Maurício Barros (Foto: Leo Aversa)

Quem conhece um pouco do trabalho do Barão Vermelho, reconhece uma música da banda já nos primeiros acordes, mesmo sem nunca a ter escutado, e com “A solidão te engole vivo” isso não é diferente. Porém, mesmo com a permanência dessa identidade, o grupo vem tentando alçar novos voos e por isso, com a nova formação, pretende lançar um álbum em 2019. O baterista e fundador Guto Goffi esclareceu um pouco sobre esse processo de transformações: “Infelizmente, as pessoas gostam muito de escalar um herói, sabe? Enxergavam o Cazuza como o nosso líder, então quando ele saiu, pensavam que a banda ia acabar. O mesmo ocorreu agora com o Frejat. Não é isso. É um trabalho em grupo, no qual a contribuição de cada um é valorizada. A soma das forças e das energias é o que vale. Estamos tentando pegar um rebanho novo agora e estou torcendo por isso”.

Assim, visando essa transformação citada, as composições feitas pelos atuais membros para a montagem do futuro álbum foram priorizadas e a banda participou do inicio ao fim da criação e produção do novo single. “Começamos a fazer a música eu e Fernando Magalhães, até que percebi que ela estava indo por um caminho parecido com a antiga canção Bons Amigos, do nosso repertório mais antigo. Por isso, chamamos o Maurício Barros, que também participou dessa mais velha. Nós finalizamos a música juntos, dando valor à mensagem que ela passa”, explicou. Tratando sobre a necessidade das pessoas se valorizarem mais, “A solidão te engole vivo” caiu como uma luva para o atual momento que o país se encontra. “Ela fala de vida e de solidão, do afastamento depois de alguns anos. Cada pessoa vai seguindo o seu barco e vai se afastando de alguns amigos, das pessoas que já amou. Essa música dá força para que fiquemos juntos, pois e é primordial pensar nisso agora, com o Brasil passando por esse momento de divisão dentro das famílias depois das eleições”, revelou.

Depois de lançada a música em questão, a apreensão e expectativas sobre a reação do público estiveram presentes entre os membros. O que é justificável, se o passado de enorme sucesso do Barão Vermelho for considerado. Guto, apesar de assumir o nervosismo, reforçou que busca não se prender a isso: “Tivemos sim uma preocupação relacionada ao passado do Barão Vermelho, que é marcado por muito sucessos. Ao mesmo tempo, estamos buscando uma nova linguagem para a banda, algo que nos leve para a frente. Eu tenho muito orgulho do nosso passado, primeiro com o Cazuza e depois com o Frejat, mas a gente quer ir para a frente agora. Um artista não gosta de ficar revisitando o passado e refazendo fórmulas que deram certo, sabe? Passado é museu e museu pega fogo no Brasil”.

A banda promete álbum inédito para 2019 (Foto: Leo Aversa)

Dessa forma, buscando sempre olhar para frente mas sem desprestigiar tudo que construíram nesses quase 40 anos de Barão Vermelho, a banda segue com a turnê #BarãoParaSempre. Desde 2017 com os vocais de Rodrigo Suricato, Guto afirmou que a sintonia do grupo continua ótima. “Eu, que fui um dos fundadores e estou desde o início, tenho a certeza que não era melhor trabalhar com o Cazuza ou com o Frejat ou com o Suricato. O meu prazer é defender o Barão, independente de quem esteja lá na frente cantando. Todos que passaram por nós são grandes, mas o que importa é o Barão”. E prosseguiu, elogiando o novo companheiro de estrada em tom bem-humorado: “Ele tem uma competência muito grande e nos encanta sempre. Isso unido ao repertório do Barão não tem para ninguém”.

Quando questionado sobre os motivos que levaram à saída do Frejat, o baterista esclareceu sem papas na língua: “Ele escolheu alimentar só a carreira solo e acabou não dando nada de energia para o Barão. A vida está passando, não dava para esperar. Ele queria que fizéssemos turnês de comemoração de 40 e depois 50 anos, mas aí precisaríamos esperar muito. Eu não sei nem se vou estar vivo até amanhã, como que vou ficar aguardando 13 anos para fazer o que eu quero?”. Rodrigo Suricato, por sua vez, entrou para o grupo depois da indicação do tecladista e também fundador da banda, Maurício Barros. “O Rodrigo já estava envolvido com o rock nacional por um projeto que percorreu as capitais do país e eles faziam uma releitura desse rock. O Maurício estava nessa também e presenciou o Suricato puxando alguns clássicos do Barão. Nós fizemos um ensaio de 19 músicas com ele e sem modificar o tom, ele cantou tudo sem errar. Eu realmente acho que ele, depois da Pitty, foi a maior revelação do rock brasileiro. Nós gostamos dele de imediato”, explicou.

Para Guto, a sintonia do Barão Vermelho continua a mesma depois da substituição de vocais (Foto: Leo Aversa)

Em 2019, a banda lançará o novo álbum e por enquanto, continuará na atual turnê. Apesar dos tantos anos de estrada, Guto negou o cansaço ou desânimo: “A vida não é para principiantes, né? A gente vai apanhando e se ralando, mas podemos zerar isso e manter a nossa chama vida, acreditando nas coisas boas. Não podemos desistir dessa batalha que é o viver, e essa chama interna que a música traz é o que me motiva”. E finalizou, reforçando o papel que a arte cumpre dentro das rotinas e vivências de toda a população: “A arte está aqui para colocar um pouco de caos nessa ordem toda. Só assim para salvarmos a humanidade de todas essas normas tão hipócritas. Estou aqui para fazer parte disso e os meus companheiros também. O Barão está vivo”.

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