Wanda Sá celebra 80 anos em álbum novo e desabafa: “Bossa Nova é mais valorizada fora do Brasil”


Aos 80 anos, Wanda Sá lança um disco inédito que reafirma sua relevância e a vitalidade da Bossa Nova. “Wanda Sá 80′, reúne composições de veteranos e novos nomes, entre sambas póstumos, parcerias familiares e faixas autorais. O álbum celebra a travessia geracional da bossa com sofisticação e leveza. Mais que uma homenagem, é a própria continuidade do gênero em voz viva

*por Vítor Antunes

Aos 80 anos, Wanda Sá reafirma sua importância na música brasileira com um disco novo, lançado na última sexta-feira pela gravadora Biscoito Fino. Intitulado “Wanda Sá 80”, o álbum chega como uma declaração contundente: a Bossa Nova segue sendo feita — e muito bem feita. São oito faixas inéditas, compostas especialmente para o projeto por nomes fundamentais da história do gênero e suas ramificações. Para celebrar a nova fase a cantora vai fazer um novo show, na casa Manouche, no próximo dia 23/08. Com mais de meio século de carreira, Wanda acredita que “Viver de música é uma escolha bastante difícil. Mas vale para realizar o sonho”.

Para Wanda a Bossa Nova está sendo redescoberta pelos jovens – considerando que o primeiro disco de Bossa surgiu em 1959, com o lançamento de “Chega de Saudade“, de João Gilberto (1931-2019). “Acho que agora a nova geração está voltando a consumir. Durante muito tempo, a bossa nova foi vista como uma coisa antiga, sem nenhum prestígio aqui no Brasil, embora fora do Brasil ela bombe eternamente, ainda. Tenho visto que existem até alguns cantores cantando, existe um interesse renovado pela bossa nova, e acho isso ótimo”.

Entre os veteranos, participam Roberto Menescal e Carlos Lyra, parceiros da primeira hora. A lista avança com contemporâneos como Marcos Valle, Abel Silva, Ronaldo Bastos, Joyce Moreno, Cristóvão Bastos e Jards Macalé, e se estende até vozes mais recentes como Rômulo Fróes, Bena Lobo e Nando Reis — um recorte geracional que costura o passado ao presente com elegância.

Essa ponte entre épocas também se vê nos arranjos. Wanda convida nomes da sua geração, como Antônio Adolfo — com quem dividiu os palcos já em 1964, na peça Pobre Menina Rica, de Lyra e Vinicius —, além de Dori Caymmi e Cristóvão Bastos. Da leva seguinte, destaca-se Celso Fonseca, guitarrista de origem tropicalista que se consagrou nos anos 1990 como um dos herdeiros mais refinados do estilo. Completam a formação o saxofonista Jessé Sadoc, o pianista Adriano Souza e o contrabaixista Guto Wirtti.

Novo álbum de WandaSá, disponível no Spotify (Foto: Reprodução)

Eternidade pelos eternos

No álbum “Wanda Sá 80”, lançado pela Biscoito Fino, a cantora homenageia o tempo e seus mestres com delicadeza e precisão. Entre os presentes mais simbólicos, dois sambas póstumos de gigantes: Carlos Lyra entregou à amiga “O tom do amor”, com letra de Ronaldo Bastos que crava a paisagem afetiva da bossa entre o Posto 6 e o Arpoador — a Copanema da infância de Wanda. Já João Donato, com “Juntinhos”, deixa uma melodia hipnótica, que ganha letra etérea de Nando Reis e participação de Bebel Gilberto, filha da Bossa por herança e afeto.

Jards Macalé, contido e solar, oferece um samba apolíneo; Rômulo Fróes, vindo da vanguarda paulistana, se ajusta com surpreendente leveza ao vocabulário da bossa em “A voz de sal”. Cristóvão Bastos entrega uma peça sofisticada, com letra nostálgica de Abel Silva, enquanto Bena Lobo, filho de Wanda, emociona em “Valsa nova”, canção sobre saudade e reencontro, com versos da própria cantora.

Wanda Sá é um ícone da Bossa Nova (Foto: Marcos Hermes)

Joyce Moreno e Paulo César Pinheiro contribuem com a luminosa “Se solta, coração”, dividida em dueto com Wanda. Já a parceria entre Marcos Valle e Nando Reis em “Só desalento” reafirma a essência do disco: mostrar que até a melancolia pode ser tratada com elegância e fluidez quando o filtro é a Bossa Nova.

Figura central do gênero — por vivência, repertório e militância —, Wanda Sá sintetiza em “Wanda Sá 80” sua história e a de toda uma geração. Mesmo na única faixa fora do gênero, a religiosa “Ame ao Senhor”, a estética bossanovista permanece. Afinal, mais que um estilo musical, a Bossa Nova é o modo como Wanda olha o mundo — leve, profundo, melódico. E vivo.