Música & Badalo

Com Diogo Nogueira como ator, “SAMBRA” promete dar samba no palco. HT esteve no ensaio geral e viu Beth Carvalho se emocionar!

Com grande elenco, espetáculo que estreia dia 20 de março no Vivo Rio conta a história do ritmo 100% brazuca, tem direção do premiado Gustavo Gasparani e roteiro visceral, à altura da importância do tema

Publicado em 04/03/2015 | Por Alexandre Schnabl

A partir de uma ideia de Washington Olivetto, “SAMBRA” é o novo musical que aposta em tintas brasileiras, no caso, o universo do samba. Em cerca de duas horas de espetáculo, o roteiro conta de forma cronológica, mas nada didática, a história do seu centenário desde o surgimento no dia-a-dia do Rio de Janeiro, a partir do supostamente primeiro samba gravado, “Pelo Telefone”, até sua apoteose no carnaval carioca. Em produção conjunta da Musickeria Corp e da Aventura Entretenimento, a peça aposta no talento do diretor Gustavo Gasparani – que também escreveu o texto, após profundo mergulho de três meses em pesquisas – e na presença do cantor e compositor Diogo Nogueira, pela primeira vez atuando, além de grande elenco. HT esteve no ensaio geral, nesta última quinta-feira (26/2) no Teatro Oi Casagrande, ainda sem o figurino de Marília Carneiro, a iluminação de Paulo César Medeiros e a cenografia de Helio Eichbauer, e constatou que samba no teatro dá samba. E aproveitou os últimos dias para conversar com os envolvidos nesse projeto, que estreia em curtíssima temporada dias 20 e 21 de março, no Vivo Rio, e 26 e 27 do mesmo mês no Espaço das Américas, em São Paulo, dando partida às comemorações dos 100 anos do ritmo. Confira!

Quem esteve no ensaio geral, com plateia abrilhantada por baluartes da cena nacional, como Beth Carvalho, Jorge Aragão e Monarco, já sabe que “SAMBRA” trilha o caminho que se formatou nos últimos anos do musical de temática nacional, que faz contraponto ao teatro-franquia que adapta para os palcos do Rio e São Paulo grandes sucessos da Broadway. Sim, como o próprio samba, é produto 100% brazuca e é Gustavo Gasparani quem dá a deixa: “O ritmo teve uma relação muito estreita com o teatro de revista, por isso procurei imprimir a agilidade deste tipo de produção, com quadros rápidos que vão desembocando em outros. Isso é muito nosso. Não é a primeira vez que brinco com essa estrutura e agora isso se faz necessário porque, entre tantos personagens que percorrem o roteiro, o protagonista aqui é o samba em todas as suas variações. São seus movimentos e evoluções ao longo dos anos que se encarregam de conduzir a sequência de cenas”, comenta o escritor-diretor, acentuando que a leveza desse gênero teatral contribui para a cadência do texto, tão fundamental para contar em duas horas um século de trajetória.

O resultado é visível. Mesmo sem os elementos visuais que poderão ser conferidos quando o espetáculo estrear, aquilo que se vê no palco já funciona como um produto pronto. A emoção flui em cena e a parede que divide o proscênio da plateia muitas vezes é rompida espontaneamente. Por exemplo: Beth Carvalho – ovacionada de pé pela plateia quando a atriz que a interpreta, Ana Velloso (de “Clara Nunes – Brasil Mestiço”, “O Bem do Mar” e “A Aurora da Minha Vida”), a homenageia – conta, trepidante: “Que projeto lindo, com essa gente linda e talentosa, ainda mais com a presença de Diogo, que conheço desde pequenininho. Isso tudo é uma benção!”. Ana Velloso rebate: “Depois disso aqui, o que falar? O coração pula!”

sambra cartaz final

Foto: Guto Costa (Divulgação)

O elenco, entre atores, cantores e bailarinos, dá conta dos grandes nomes que fizeram o samba chegar até os dias de hoje: PixinguinhaSilas de OliveiraMano Décio da ViolaDongaJoão da BaianaNoel RosaSinhôCarmen MirandaIsmaelTia Ciata e tantos outros, além de gente que ainda circula em carne e osso, como Beth e Martinho da Vila, interpretados pelos atores ou simplesmente mencionados nos texto através de seus maiores sucessos, como Alcione e Dorival Caymmi.

Lilian Valeska, que ficou mais conhecida do grande público através da série “Sexo e as Nega”, de Miguel Falabella, já entra em cena logo no início na pela de Tia Ciata, na parte que conta o berço do samba na Praça Onze. “Me fiz no palco, mas antes disso já cantava em igreja protestante. Então, abrir a boca faz parte da minha vida. Como não temos registros da personagem a não ser em jornais da época e fotos, usei minha intuição. E, claro, tivemos um treinamento intensivo de jongo. É impressionante a questão da expressão corporal, de códigos que eram passados no gestual dos escravos, uma espécie de linguagem corporal escondida, só para iniciados. Tudo de uma personalidade incrível”.

É Izabella Bicalho (“Gota D´Água”, “Tim Maia – Vale Tudo, O Musical” e “Era nos Tempos do Rei”, além de novelas como “Roque Santeiro” e “Ti Ti Ti”), que também contagia o público em quadros como “Roda Viva”, quem resume a sinergia daquilo que se presencia na peça: “É uma grande reunião de talentos, mais do que isso, um encontro. Algumas pessoas já conhecia de outros trabalhos, e outras conheci agora nesse time que Gustavo soube tão bem reunir. No fundo, é uma celebração para nós também”.

Sobre isso, Gustavo é categórico: “Tem gente com quem já tenho estrada comum, como o Nando Duarte, que assina a direção musical e está comigo desde o princípio, ou o Renato Vieira (coreógrafo), com quem agora trabalho pela terceira vez. E tem gente com quem eu ainda não tinha tido o prazer de conviver e que estou adorando. É o caso do Diogo Nogueira. Ele chegou tão disponível, tão acessível, algo incomum para um astro da sua grandeza”.

De fato, Diogo surpreende. Mas, claro, o artista foi criado desde pequeno no meio, é fruto do samba. Funciona que é uma beleza no todo do espetáculo, sem destoar, sem estrelismo, caindo de cabeça nos personagens com uma disposição de criança. E, para uma possível alma com pouca boa vontade na plateia que pudesse insinuar que ele não é ator e está no meio de cobras criadas, ele trata logo de abrir o privilegiado gogó em cada cena e cala a boca de quem quer que pudesse pensar nesse vil expediente.

“Ele poderia parecer peixe fora d’água por nunca ter atuado, mas, enquanto intérprete de samba, ele é bastante teatral em seus shows e usa essa imensa bagagem em ‘Sambra’ para fluir com desenvoltura. Tem uma elegância ímpar”, rasga seda Édio Nunes (“Império”, “South American Way”, “Theatro Musical Brazileiro”, “Cabaret Dulcina”), figurinha tarimbada dos palcos, voz magnética, timing delicioso e que já viveu Noel Rosa em “Noel, O Feitiço da Vila”, com passagem de bailarino em companhias que privilegiavam o samba, como a Cia. Aérea de Dança, de João Carlos Ramos. “Esse roteiro tem música, harmonia, poesia, tudo isso junto e misturado”, derrete-se.

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Fotos (Guto Costa / Divulgação)

Curiosamente, “SAMBRA” tem a capacidade de cumprir duas funções: a de entreter e informar didaticamente, de forma leve, podendo atingir tanto o público cabeça que se alimenta de produções que falam de valores nacionais, quanto a turma que está à procura de diversão suave, perfeita para pontuar a noite. E, nesse percurso, mesmo sem ser folk, mas refinado, ocuparia também o espaço daquele típico espetáculo folclórico oferecido como acepipe para turistas em passagem pelo Rio e que querem, em pouquíssimo tempo, travar contato com a cultura e showbizz locais, vislumbrando um pouco da sua história. Como naquelas realizações dos anos 1970/80 encabeçadas por Watusi na Cidade Maravilha, ou outras sobre tango que podem ser conferidas em Buenos Aires. Ou mesmo aqueles espetáculos no gênero “Folies Bergère” que evocam a Paris de outrora. Com um agravante: em termos de teatro, “SAMBRA” é produção de primeiríssima, teatro da digno de agradar aos paladares mais exigentes. Ou seja, poderia se manter fixo na programação da cidade por anos a fio.

É Patricia Costa, neta de um dos fundadores da PortelaClaudio Bernardo Costa, quem dá a dica: “Me criei no samba, mas sou do teatro e é ele que me dá meu sustento. E vejo uma sinceridade muito grande em ‘SAMBRA’, algo genuíno para valer. E isso tem tocado todos nós na equipe e nos movido para a frente. Algo que, às vezes, acabo desconhecendo na avenida, no desfile das escolas de samba, quando a evolução do espetáculo deixa, entre tantos recursos midiáticos, o samba de fora. Sou da comunidade, e foi lá que me fiz rainha da bateria na Viradouro. Já ganhei até Estandarte de Ouro como passista-revelação. O que vejo em ‘SAMBRA’ é pura autenticidade”.

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